SALVADOR
Projeto alerta sobre assédio sofrido por mulheres nas ruas

Por Itana Silva

Um totem com fones de ouvido, instalado no meio da praça do Campo Grande, com a seguinte frase: "Escute, não silencie". Foi assim que a estudante Larissa Novais apresentou o projeto Tô na rua, mas não sou sua, na tarde desta terça-feira, 23.
O objetivo é evidenciar os casos de assédios sexual e moral sofridos por mulheres nas ruas da capital. A iniciativa fica no local até as 17h de quinta, 25, como uma forma de intervenção pública.
"Quis trazer para a rua as situações de assédio sofridas por nós, mas de uma forma que as pessoas pudessem ouvir, sem expor a figura feminina. Quero gerar uma reflexão sobre isso, partindo da percepção de que cantada de rua não é elogio, não é algo normal nem aceitável", explica Larissa.
E conseguiu. Até a tarde desta quinta, contabilizado por Larissa, o número de homens que ouviam os dez relatos gravados era maior do que o de mulheres.
"Normalmente, quando percebem o que é, elas preferem não ouvir, por já ser parte do cotidiano. Já eles param, ouvem. A reflexão que provoca neles depois é exatamente aonde queremos chegar", avalia Larissa.
O estudante Victor Portela, 18, foi um dos ouvintes. "É uma experiência que permite sentir o lado das mulheres, nesses casos. Costumo ler muito sobre isso nas redes sociais, mas ouvir aqui, da voz delas próprias, traz uma sensação de proximidade maior", descreve.
O advogado Francesco Edoardo, 27, disse ficar sensibilizado com os relatos, uma vez que, a partir deles, há a aproximação ao que as mulheres sentem quando assediadas.
"São situações que não deveriam acontecer. Ouvindo esses casos, percebo ainda mais a fragilidade do ser mulher em uma sociedade patriarcal. Precisamos tentar combater esse tipo de comportamento, provocando uma conscientização na nossa população", refletiu.
Para a estudante de artes Emanuela Boccia, 23, os relatos são parte do cotidiano. Ela declarou que, apesar de ser algo triste, já não se sente mais surpresa. "O projeto é interessante, principalmente para os homens saberem como determinadas palavras causam estragos na vida de uma mulher. Nós sentimos medo o tempo inteiro, e as pessoas precisam saber disso", afirmou.
Inquietação x percepção
O Tô na rua, mas não sou sua nasceu de um trabalho de conclusão do curso (TCC) de Larissa. "Resolvi unir a inquietação que eu tinha, com os assédios do meu dia a dia, com a percepção de que é necessário ocupar os espaços públicos, que são, basicamente, os locais onde esse tipo de violência acontece", contou a estudante.
A partir desse pensamento, ela passou a procurar vítimas para contarem as próprias histórias. "Criei um fórum no Facebook, na esperança de colher entre 10 a 15 casos. Em uma só noite, recebi 167 relatos", contou.
Os anseios de Larissa não podiam parar no TCC. Ela, então, resolveu reunir outras mulheres para pôr em prática. "Conto com a ajuda essencialmente delas. Seja as que estão por trás da estrutura ou as que gravam os próprios relatos para serem expostos anonimamente. Na equipe só há um homem. Faço questão de que tudo seja feito por nós", pondera.
A estudante ainda pretende levar a iniciativa para lugares como Praça Municipal, Rio Vermelho ou Barra.
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