Proposta para carnaval na Boca do Rio deve ser apresentada em agosto

Capital baiana pode retomar a realização da folia momesca com novo circuito em trecho da orla

Publicado domingo, 10 de julho de 2022 às 05:15 h | Atualizado em 09/07/2022, 19:53 | Autor: Jane Fernandes
Trajeto está em estudo pelo Conselho Municipal do Carnaval (Comcar) para receber camarotes e blocos de trio habituais do Circuito Dodô
Trajeto está em estudo pelo Conselho Municipal do Carnaval (Comcar) para receber camarotes e blocos de trio habituais do Circuito Dodô -

Após dois anos sem folia, Salvador pode retomar a maior festa de rua do mundo com um novo circuito à beira-mar. A orla da Boca do Rio está em estudo pelo Conselho Municipal do Carnaval (Comcar) para passar a receber os camarotes e grandes blocos de trio habituais do Circuito Dodô, criado na década de 1990 entre a Barra e Ondina. A proposta detalhada deve ser apresentada à prefeitura no início de agosto. 

A ideia de criar um novo circuito e reformular o modelo de carnaval aplicado na Barra está em debate há alguns anos, segundo o vice-presidente do Comcar, Washington Paganelli. 

“É uma coisa muito complexa, eu não posso olhar somente o que é bom para um bloco ou um camarote, o que é bom para o ambulante, o que é bom para o morador, então vários estudos precisam ser feitos”, pondera. 

Os diversos setores direta e indiretamente envolvidos na realização do carnaval, incluindo os 32 órgãos e entidades integrantes do Conselho estão sendo ouvidos para que chegue a uma posição final, garante Paganelli. 

Além disso, o documento a ser encaminhado para a prefeitura também irá contemplar indicações como o sentido dos desfiles, considerando, sobretudo, o que facilita a chegada e saída dos foliões no circuito. 

Pessoalmente, o vice-presidente acha improvável implantar essa inovação, caso aprovada, ainda em 2023, pois seria necessário concluir a requalificação da orla naquela região e sempre podem ocorrer imprevistos nas obras. 

No mês passado, a prefeitura desapropriou 22 áreas de canteiro central, sob alegação de que seriam espaços necessários para efetuar a reestruturação da orla entre Jaguaribe e Patamares.

No entanto, a possibilidade de inaugurar o circuito em 2023 não é descartada por Paganelli, que destaca a importância de uma definição o mais breve possível. “Os outros polos carnavalescos, Rio, São Paulo, Minas, Recife já estão vendendo o carnaval e aqui nós estamos aguardando decidir”, comenta.

Quanto aos espaços tradicionais, Paganelli afirma haver foco numa retomada do “glamour do centro”, o circuito Osmar, e numa readequação do Dodô que além das grandes estruturas também abriga outro tipo de folia. 

“Acontecem dois carnavais na Barra, um é aquele do Furdunço, dos bloquinhos, dos blocos infantis, o carnaval de sopro e percussão, tipo aquele carnaval de Olinda”, diz. 

Município

Caso a criação do circuito se mostre tecnicamente viável e seja aprovada seria possível concretizá-la em 2023, o primeiro carnaval após a pandemia de Covid-19, acredita o presidente da Empresa Salvador Turismo (Saltur), Isaac Edington. 

“A palavra final é do prefeito da cidade, que foi eleito pela população para representar a cidade nesse sentido, mas cada um vai fazer a sua parte”, enfatiza.

Edington ressalta que o carnaval é sempre pensado como um todo, contemplando não apenas um circuito ou outro, mesmo novo, mas a extensão completa da festa, que também acontece em vários bairros. 

“Existe ainda uma força no centro da cidade por conta dos esforços que a gente tem feito, investindo lá, contratando atrações, prestigiando as entidades para que participem”, defende.

“A gente tem um desafio muito grande de equilibrar para que a gente tenha um carnaval forte que seja bom para todos, desde os ambulantes ao sistema hoteleiro da cidade, aos moradores, aos bairros…”, comenta. Em sua opinião, independentemente da decisão sobre o circuito Boca do Rio, o momento é favorável para que o Carnaval 2023 supere o dos anos anteriores. 

Legislativo

O presidente da Câmara Municipal, vereador Geraldo Júnior, lembra que a discussão deve passar pelo poder legislativo de Salvador. “Todos sabem que tenho uma forte ligação de amizade com o setor do entretenimento, o mais prejudicado durante a pandemia, porém temos que ouvir a cidade num debate amplo e a câmara deve participar ativamente desse processo”, defendeu em nota. 

“Temos uma frente parlamentar, presidida por Carballal, que está licenciado, mas o vereador Randerson que o substitui está tocando o colegiado interinamente. Além disso, a comissão de Planejamento Urbano, também presidida por Randerson, deve ser ouvida pelos impactos na vizinhança no Boca do Rio e adjacências”, explicou o vereador, ainda em nota. 

“O carnaval do centro acabou e a prefeitura nada fez para recuperar o prestígio do circuito Osmar, tão importante nos anos 80. Não podemos discutir uma ampliação sem resolver os problemas existentes”, aponta a nota enviada para A TARDE. 

Incertezas preocupam empresários

Não fosse a dúvida sobre o formato do carnaval Barra/Ondina em 2023, o bloco Eva já estaria iniciando a venda de abadás, mas como o tema está em discussão, decidiram esperar esta definição, conta o sócio-diretor Hunfrey Ataíde. “A gente está buscando entender as medidas que seriam tomadas para ter uma mudança do carnaval em apenas sete meses”, declara. 

Na opinião de Ataíde, as informações disponíveis são muito vagas e não dão conta de aspectos fundamentais como as formas de acesso, por meio dos diversos modais de transporte, a área de instalação de camarotes e a extensão exata do circuito, entre outros. 

“Acho que a gente precisa estar aberto a mudanças, mas as mudanças precisam acontecer no timing certo, de uma forma planejada”, pondera.  

“O agravante é que esse debate está acontecendo logo após um período de dois anos sem ter carnaval, o que gera uma série de dúvidas, questionamentos e inseguranças”, alerta Ataíde. 

Em 2020, o último carnaval pré-pandemia de Covid 19, o Eva desfilou no circuito Dodô, na sexta-feira e no sábado, onde ainda fez sua pipoca, na quinta-feira. 

Segundo Hunfrey Ataíde, o Eva decidiu esperar definição
Segundo Hunfrey Ataíde, o Eva decidiu esperar definição |  Foto: Olga Leiria | Ag. A TARDE
 

O cenário de incertezas também preocupa o presidente da Associação Brasileira das Agências de Viagem da Bahia (Abav-BA), Jean Paul Gonze. 

“Ninguém fora da Bahia está sabendo dessa mudança, então continua vendendo pacotes considerando que ainda haverá carnaval na Barra”, avisa, acrescentando que há uma preferência dos turistas pelos hotéis localizados nesse circuito ou na sua vizinhança.

Mesmo com a suspensão da festa em 2021 e 2022, muitos turistas interessados no carnaval mantiveram o costume de se programar com antecedência, o que se soma aos que prorrogaram a validade de pacotes comprados antes ou durante a pandemia, explica Gonze. 

Procurada para falar sobre a provável mudança do carnaval e a ocupação reservada, a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis na Bahia não deu retorno até o fechamento desta edição. 

Amabarra festeja folia com atrações de menor porte

A implantação de um carnaval centrado em atrações de menor porte é comemorada pela Associação de Moradores e Amigos da Barra (Amabarra), que há anos aponta problemas no modelo realizado no bairro, conforme lembra seu diretor de comunicação Waltson Campos. “Podemos manter o carnaval de fanfarras, até de trios, como ocorrem em algumas cidades, em que você não necessariamente tem de que ter toda essa estrutura montada”, analisa.

Com o crescimento do volume de foliões e das estruturas necessárias para a festa, como os grandes blocos de trio, camarotes e montagem de postos de serviços, Campos considera que os impactos foram sendo ampliados ano a ano. “Carnaval hoje não é mais cinco dias, a movimentação começa 15/20 dias antes”, argumenta. 

Mesmo ainda dividido entre prós e contras, o fundador da Boca do Rio Magazine, Marcelo Garcia, assume uma tendência aos aspectos positivos da criação do circuito no bairro onde vive há mais de 20 anos. 

“O carnaval estando aqui, valoriza o bairro e é natural que tenhamos um investimento maior em infraestrutura”, acredita. Sua preocupação é que a valorização aumente muito o custo de vida, fazendo com que moradores com renda menor tenham de sair do local.

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