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Silêncio: é o Chicletão

JORNAL A TARDE

Por JORNAL A TARDE

25/02/2006 - 0:00 h

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b Pode ser o povo do bloco ou da pipoca, não tem jeito. Chicleteiro entra em êxtase



Regininha da Bahia



A tarefa




A missão parecia simples: examinar os efeitos alucinógenos da banda Chiclete com Banana junto ao povo. Substância conhecida da galera carnavalesca, sabe-se que pode causar efeito catártico ou de temor. Tudo depende da predisposição orgânica. Tanto é sabido esse fenômeno que, na virada do Farol, local apertado dos infernos no qual a porrada come solta por um triz qualquer, nada de som. Sim, o Chicletão passou em silêncio para soltar seus característicos acordes depois do Oceania.



Saí em companhia de minha amiga repórter e fiel escudeira Maria Padilha, sabidamente uma amante dos festejos dionisíacos. Portanto estava em boas mãos, coisa que me acalmava. A noite apenas começava na Barra e já o Chicletão chegava perto da Caixa Econômica. Desbravamos a Marquês de Leão para adentrar a orla, depois de enfrentar um engarrafamento de acabar com paciência.



Chicleteiro



Na altura do Cristo uma multidão pipoca aguardava o trio com o bloco Nana Banana. Uns, parados, remexendo o corpo. Outros aproveitavam para “queimar o chão” ou abrigar-se em algum canto enquanto passasse o Chicletão que, muitas vezes, rima com arrastão.



Avistamos um daqueles postos que abrigam uma fileira de cinco ou seis policiais para observar a gandaia. Um dos PMs chegou a sugerir que ficássemos na frente do posto. Acatamos. As cordas chegam com seus balões de patrocínios milionários abrindo alas: Nokia, TIM, Iguatemi, Smirnoff, C&A, Ford. Um rapaz sem camisa e visivelmente empolgado com a passagem do trio solta:



“Adrenalina pura! É vibração, energia, amo o Chiclete!”. Disse que estava só com o amigo porque brigou com a namorada que, aquela altura do campeonato, estaria com a sogra, viajando.



“Ah, sou chicleteiro!”, se justifica. E o que é ser chicleteiro?, pergunta Maria Padilha. “É estar na festa”, logo implorando para que eu não colocasse aqui seu nome: “Senão é problema”.



Chicleteiro, é verdade, pois no Nana e Camaleão saiu durante sete anos consecutivos. Parou porque só tinha gente de fora. “O Carnaval é nosso!”. Enquanto isso Bel lança Vôa Vôa e os pipocas chicleteiros se despencam entre o público espremido e as cordas. Bem umas cinco fileiras humanas entre os pipocas e as cordas. Peles morenas, negras, corpos sacolejantes.



No bloco



Decididas a acompanhar o trio até a subida do Morro de Ondina, queixei para dois cordeiros a nossa entrada no bloco. Vamos ver quem é fica por lá. Um universo não menos apertado, porém bem mais branco. Uma loira de olhos claros, empolgada com a latinha de cerveja na mão é meu primeiro alvo. Porque o Chiclete? “Porque sou alucinada pelo Bel e pelo Chiclete. Paguei mil e porrada para pular três dias”.



Muvuca de bloco é igual, só que ninguém tem medo de ser roubado. Como o aperto estava bizarro, fomos para detrás do carro de apoio. Lá, um paulista justifica sua escolha: “Tem muita mulher”. Ao todo Senadai, 26 anos, investiu para estar no Carnaval da Bahia cerca de R$3,6 mil.



Rebarba



Basta de bloco. Infernal, diz Padilha. Fora das cordas, no morrinho de Ondina, um dos únicos locais em que a galera se abriga para safar os bolsos, Emoniara Alves, 28 anos, diz que o fenômeno, quando passa, chega a dar medo. “Vem aquela tropa passando, se acotovelando”. É, por onde passa o Chiclete deixa a rebarba.



Mas há os que, desavisados, não sabem dos efeitos alucinógenos da coisa e sentem a inicial atração pelo negócio. Voltando para a Barra, no meio do burburinho, nos deparamos com duas velhinhas norte-americanas, aparentando mais de 60 anos cada uma delas. Uma cena inusitada numa festa quase 100% adultescente. Um baiano tentava fazê-las entender que seria melhor aguardar um pouco.



Maria Padilha, afiada no inglês, explicou para as velhotas sobre o poder quase lisérgico do que existia à frente. Ao mesmo tempo em que uma fileira móvel de policiais chega junto. Os “poliça” aceitam acompanhar as gringas idosas enquanto elas fazem cara de quem não está entendendo nada.



A missão chegava ao fim e, agora descíamos a orla rumo ao Farol. Tudo acabara bem, afinal. Não fosse um dos caras vestidos de mulher que chamaram a atenção de Padilha para entrevista chegar junto de mim e berrar: “Zambelê!!!!”. Não é que o cara me confundiu com a filha de Baby Consuelo? Essa ninguém merece. Tentando amenizar o pseudo-elogio, diz: “É por causa da bocona bonita igual à dela”. Só podia ser chicleteiro.



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