SALVADOR
"Só não tive coragem de provar heroína"

Por JORNAL A TARDE
Da Agência Baiana
Filho de pais bem sucedidos, João, 24, sempre manteve uma relação de diálogo com a família,
estudou nos melhores colégios da cidade e, aos 19, já falava três idiomas com fluência. Aos 15, chegou em casa com os olhos vermelhos e achando graça de tudo. Aí, foi o suficiente para o pai chamar para uma conversa séria, daquelas, como dizem por aí: de homem para homem.
Conversamos por mais de três horas e me senti à vontade o suficiente para assumir para o meu pai que tinha fumado naquele dia pela primeira vez, lembra João. Ao contrário do que esperava, a reação do pai surpreendeu. Ele me deu uma aula sobre as drogas e deixou muito claro que aquilo poderia estragar minha vida, mas, por outro lado, me confessou que também já havia usado, revelou.
Depois desse papo, João continuou fumando e decidiu experimentar outras drogas. Provei de tudo o que você possa imaginar, tudo mesmo. Coca, ácido, ecstasy, chá de cogumelo, só não tive coragem de provar heroína e crack, porque fode o cara, diz.
Hoje, passados nove anos desde o primeiro baseado, ele cursa o 3º ano de psicologia e cultiva cinco pés de Cannabis sativa em uma estufa improvisada dentro do armário do quarto. Segue todas as recomendações e, de vez em quando, faz enxertos botânicos na tentativa de conseguir aumentar a concentração de THC (substância responsável pelo efeito alucinógeno da maconha). Tudo o que planta, afirma consumir na companhia dos amigos mais próximos e que não vende em hipótese alguma. Se meter com tráfico é loucura. Só quero relaxar em paz.
Embora João não venda, aproveita a qualidade da produção para promover pequenos campeonatos entre os amigos que, assim como ele, também cultivam a maconha que consomem. As partidas, como gostam de chamar, são promovidas dentro de casa ao menos duas vezes a cada seis meses. Tempo de colheita da safra, brinca o produtor.
A competição, pela qualidade da safra, em pouco tempo se transforma em festas regadas a cerveja gelada, maconha personalizada e muita, muita comida. Haja pizza e esfirra misturadas com leite condensado para derrotar a larica da galera, brinca. Para quem não sabe, larica é o nome dado à fome decorrente do uso da maconha.
O campeonato foi a maneira que esses jovens encontraram de se divertir ao mesmo tempo em que testavam a qualidade da produção caseira. O vencedor não ganha nenhum troféu ou medalha, apenas o direito de curtir com a cara dos colegas. É só para tirar onda, ri João.
Legislação - Brincadeiras e tragadas à parte, o cultivo da Cannabis sativa é crime inafiançável. De acordo com o advogado Marcel Almeida, o plantio de vegetais usados para fins alucinógenos é tão grave quanto traficar. Embora a maioria deles não saiba, para a legislação brasileira tanto faz plantar ou traficar que a pena é a mesma. O indivíduo que for flagrado cultivando maconha em sua residência está sujeito a uma pena que pode variar de 3 a 15 anos de prisão, fora os agravantes, explica Almeida.
O estudante de educação física Tiago sabe disso, mas nem pensa em se desfazer da sua plantação. É muito melhor eu plantar minha maconha no meu quintal ou no meu jarro, que ficar alimentando o tráfico. Já subi muito em boca, até arma apontada para a minha cabeça já tive. Não quero saber disso nunca mais. Fumo do que eu planto, não vendo. Então, qual o problema?, questiona.
Para o advogado Almeida, o problema é perder 15 anos da vida trancafiado em uma cela de 8m² com outras 50 pessoas.
E aí, qual vai ser?
*Os nomes das fontes são fictícios
Colaborou Murilo Vilas Boas
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