AUDIÊNCIA DE INSTRUÇÃO
Caso Davi Fiúza: “É nítido o envolvimento de agentes do Estado”, diz historiador
Jovem desapareceu em 24 de outubro de 2014 após ser abordado por policiais militares


Uma nova audiência de instrução sobre o desaparecimento do jovem Davi Fiúza em 2014 acontece nesta segunda-feira, 25, no Fórum Criminal Desembargador Carlos Souto, no bairro Sussuarana, em Salvador. Presente no local, Dudu Ribeiro, historiador e co-fundador da Iniciativa Negra — organização que acompanha o caso junto com a Anistia internacional Brasil — afirmou que é um caso em que é “nítido o envolvimento de agentes do Estado”
“A prioridade da organização é sempre dar suporte à família e fazer com que fique claro que tem uma década de atraso desse julgamento, da saída da Justiça Militar para Justiça Comum. Isso também representa uma tortura do Estado em relação à família. É um caso que é nítido o envolvimento de agentes de Estado, e por isso também essa demora”, disse Dudu em entrevista ao portal A TARDE.
Mas a gente vai buscar a justiça e a reparação, porque também é fundamental que, nesses casos, para além de culpabilizar os responsáveis, a gente lembre que era papel do Estado proteger a vítima e também proteger a família que ficou. E não foi o que aconteceu.
Dudu Ribeiro - co-fundador da Iniciativa Negra
Além do desejo de que a justiça seja feita, Dudu pontuou que é “fundamental a reparação da família atingida”. Ele ressaltou que a ida do caso para a justiça comum “já nos dá um entendimento de que há indícios reconhecidos pela Justiça Militar de que houve um crime de homicídio”.
“O que a gente espera é que, com a escuta das últimas testemunhas, o juiz reconheça e pronuncie o caso para a gente conseguir ir a júri popular e fazer não só a justiça, mas também relembrar que nenhuma família merece passar pelo o que a família de Rute Fiuza está passando”, destacou. Rute é mãe de Davi.
Testemunha muda depoimento
Na audiência de instrução que aconteceu no último dia 8, uma testemunha ocular mudou o depoimento, afirmando não reconhecer os policiais envolvidos no caso. Dudu Ribeiro frisou que é importante que o sistema de Justiça reconheça essa mudança “para perceber que tipo de acolhimento à testemunha não foi feito para ela ter mudado o seu depoimento”.
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“No entanto, a gente também tem certeza que não é apenas o depoimento dela que garante a materialização desse crime. Existem mais provas colhidas no curso do processo que vai demonstrar, na verdade, a participação dos agentes públicos nesse assassinato e esperamos que isso seja acolhido pela justiça, que eles sejam pronunciados e que eles vão a jurí popular”, concluiu.
Policiais seguem em serviço e respondem a outros processos
O advogado Paulo Kleber, assistente de acusação, disse, em entrevista ao portal A TARDE, que os policiais militares acusados do desaparecimento de Davi, seguem em serviço e quase todos respondem a outros processos criminais.
“Eles continuam trabalhando, inclusive para desespero da sociedade: todos, com exceção de Tamires Sobreira, respondem a outros processos criminais, como tentativa de feminicídio e homicídio”, relatou Kleber.
O adolescente Davi, então com 16 anos, desapareceu em 24 de outubro de 2014 após ser abordado por policiais militares no bairro de São Cristóvão. Desde então, o jovem nunca mais foi visto.
A defesa dos policiais sustenta que os acusados não estavam no local dos fatos e que não conheciam o jovem. A acusação, no entanto, afirma que há elementos suficientes para levá-los a julgamento no Tribunal do Júri.
Eles dizem isso, mas a gente tem testemunhas visuais, oculares, que viram ele sendo colocado no porta-malas do carro. Além disso, a gente tem a localização geográfica dessas duas viaturas que estavam no momento.
Paulo Kleber - advogado
Policiais envolvidos
Segundo Paulo Kleber, a identificação dos responsáveis foi possível por meio da análise do diário de bordo das viaturas, da localização geográfica dos veículos e do depoimento de testemunhas oculares.
O advogado afirmou que o início das investigações, 23 policiais militares foram apontados como envolvidos. Ao longo dos anos, esse número foi reduzido a 11, com base nas evidências e em 2018 apenas sete foram denunciados pelo Ministério Público por sequestro e cárcere privado.
São eles:
- George Humberto da Silva Moreira
- Moacir Amaral Santiago
- Joseval Queiros da Silva
- Genaro Coutinho da Silva
- Ednei da Silva Simoes
- Tamires dos Santos Sobreira
- Sidnei de Araujo dos Humildes
Desaparecimento
Davi Fiúza desapareceu aos 16 anos, no dia 24 de outubro de 2014, durante uma abordagem realizada por policiais do Pelotão de Emprego Tático Operacional (PETO) e Rondas Especiais (Rondesp), em São Cristóvão.
O adolescente o conversava com uma vizinha na Rua São Jorge de Baixo. Ele foi abordado, teve mãos e pés amarrados e foi colocado no porta mala de um dos carros que não tinha plotagem.
Na época, a mãe de Davi, Rute Fiuza, disse que buscou o filho em delegacias, Instituto Médico Legal (IML) e até locais considerados de "desova" de corpos para tentar encontrar indícios dele, mas nunca teve pistas do garoto.


