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Desemprego recorde desafia futura gestão

Publicado domingo, 20 de outubro de 2019 às 23:00 h | Atualizado em 20/10/2019, 22:41 | Autor: Bruno Luiz | Foto: Raul Spinassé | Ag. A TARDE
Sem emprego, trabalhadores migram para a informalidade
Sem emprego, trabalhadores migram para a informalidade -
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O título de “capital do desemprego” não é desconhecido para Salvador. Historicamente, a cidade registra altos índices de pessoas desocupadas. Mudar esta realidade é um desafio do próximo prefeito do município, segundo especialistas ouvidos por A TARDE no “Olhar Futuro”.

No segundo trimestre deste ano, Salvador ficou novamente em primeiro lugar no ranking das capitais com mais desempregados, empatada com Macapá (Amapá) e Manaus (Amazonas), com taxa de 17,7%. O dado é da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Trabalho

De 2012, quando começou a série histórica do levantamento por aqui, até 2018, a capital foi a segunda com mais gente sem ocupação em pelo menos três anos (2013, 2015 e 2016). Em 2014, liderou o ingrato ranking. E agora, no segundo trimestre, volta à ponta com maior índice de desemprego desde 2012.

Supervisora de Disseminação de Informações do IBGE, Mariana Viveiros ressalta que a taxa de desemprego em Salvador já era elevada antes mesmo da crise econômica, cujos efeitos mais negativos começaram a ser sentidos em 2015. “Não é só da conjuntura da crise, claro que a crise piora a situação. O desemprego aumenta para todo mundo, mas Salvador já tem um número alto antes da crise. Isso mostra uma questão desafiadora na estrutura do mercado de trabalho”, avalia.

Oferta e demanda

Supervisora técnica do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos na Bahia (Dieese-BA), Ana Georgina Dias explica que este cenário tem a ver com uma deficiência no mercado de trabalho em toda a Bahia. Como falta dinamismo na atividade econômica do interior, parte da população acaba migrando para localidades maiores, como Salvador, Feira de Santana e RMS, onde indústria e comércio são mais desenvolvidos, em busca de emprego.

“Quanto maior a concentração econômica e maior a concentração de desemprego no interior, mais as pessoas vêm procurar trabalho em áreas mais dinâmicas”, avalia Ana Georgina. Para ela, é preciso criar políticas que aumentem a quantidade de vagas no interior. “É necessário dinamizar a economia desses lugares. No oeste do estado, a agropecuária gera muitos empregos, por exemplo”, diz.

Informalidade

Outro desafio para o próximo prefeito é oferecer proteção social às pessoas que trabalham por conta própria (o grupo inclui pessoas jurídicas, MEIs e aquelas sem nenhum tipo de registro). No segundo trimestre, o número chegou a 412 mil pessoas na capital. Na Bahia, nos primeiros três meses do ano, 500 mil pessoas estavam na informalidade completa, o equivalente a 35,4% da população ocupada - também o maior número desde o início da série histórica, em 2012.

“Essas pessoas trabalham em condição muito precarizada. É preciso investir na formalização via MEI, em políticas de educação previdenciária, incentivar que se registrem, paguem a Previdência para que tenham acesso a direitos como pensão, aposentadoria, auxílios”, cita.

Empreendedorismo

Em tempos de desemprego alto, investir no próprio negócio pode ser uma solução para gerar renda. Mas, para tornar o ambiente em Salvador mais próprio ao empreendedorismo, é preciso desburocratizar os processos para criação de empresas, facilitar o acesso a crédito e diminuir a tributação. É o que afirma Jorge Khoury, superintendente do Sebrae-BA.

Estímulo a empreender deve passar por menor burocracia

“Entendemos que o contínuo estímulo ao empreendedorismo deve passar especialmente por esse processo de desburocratização e acesso facilitado aos serviços das prefeituras no atendimento aos que desejam abrir seus negócios ou àqueles que já atuam no mercado”, diz.

Há pessoas que trabalham em condições muito precarizadas

Ana Georgina alerta, entretanto , que é preciso ter limites no que se entende como empreender. “Muita gente está mais em condição de sobrevivência do que de empreendedorismo. As pessoas que trabalham no sinal, lavando carros estão ali porque não tiveram oportunidade. Por isso, é preciso protegê-las”, afirma.

OLHAR DO ESPECIALISTA

Vitor Filgueiras

Pós-doutor em Economia

O mercado de trabalho de Salvador é precário, com intensas informalidade e ilegalidade. Hoje, o número de postos de trabalho formais é inferior a 2010. Em que pesem nossas peculiaridades, os dados indicam que a dinâmica ocupacional de Salvador está intimamente ligada ao desenvolvimento econômico nacional. Assim, a prefeitura tem poder limitado para resolver o problema, contudo, ela tem responsabilidades e pode contribuir para melhorar o cenário. É preciso ter um olhar crítico e racional sobre políticas públicas de promoção do emprego. Algumas narrativas têm dominado o debate mesmo sem apresentar os resultados prometidos, como o “empreendedorismo” e a chamada "austeridade”.  A panaceia do “empreendedorismo” não se sustenta. Trabalhadores podem e de fato buscam estratégias de sobrevivência, entretanto, e por definição, essas saídas são quase sempre precárias e não resolvem o desemprego, no máximo ampliam suas formas ocultas, como vemos atualmente. Ao contrário dos mitos do “corte de gastos”, a prefeitura, dentro do seu escopo, precisa promover ações (como obras e serviços públicos) que criem diretamente empregos e estimulem a atividade econômica.

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