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Estudo que recomenda uso de ivermectina para Covid é questionado por especialistas

Publicado sexta-feira, 12 de março de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 11/03/2021, 20:10 | Autor: Rodrigo Aguiar
Medicamento não tem eficácia no tratamento contra Covid-19, segundo fabricante / Foto: Reprodução | Prefeitura de Itajaí
Medicamento não tem eficácia no tratamento contra Covid-19, segundo fabricante / Foto: Reprodução | Prefeitura de Itajaí -
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Presente em kits de "tratamento precoce" distribuídos por municípios em todo o país e defendida por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro para combater a Covid-19 mesmo sem comprovação de sua eficácia, a ivermectina tem sido utilizada pelo infectologista Roberto Badaró, diretor médico do Hospital Espanhol, uma das unidades da capital onde estão internados pacientes diagnosticados com o novo coronavírus.

Badaró também integrou a equipe responsável pela assistência ao secretário de Saúde do Estado, Fábio Vilas-Boas, quando este esteve internado no Hospital Aliança para tratamento da Covid-19.

Em publicação no Twitter na última segunda-feira, 9, Vilas-Boas escreveu: "É preciso bater nessa tecla: não existe tratamento preventivo (profilático) para Covid19. Nem vitaminas (C, D), nem minerais (Zinco), nem ivermectina. Quem embarcar nessa canoa furada vai afundar. E levar junto consigo os que foram enganados".

Segundo Badaró, uma "meta-análise considerada de forte evidência científica", publicada recentemente, apontaria sucesso no uso da ivermectina no tratamento da Covid-19. "Existe um grupo de cientistas que analisam constantemente o papel da ivermectina no tratamento da Covid. Este site publicou em 6 de março essa meta-análise, que diz que 100% dos 44 estudos até o momento relatam efeitos positivos", afirmou Badaró, em entrevista à Rádio Metrópole. "Mostrou uma redução de 82% na progressão da infecção. Com o uso profilático, que tenho minhas restrições, melhora em 89%. Está lá. O resultado de mortalidade se mostra 75% menor do que entre aqueles que não fizeram [uso], ou que tiveram atraso no tratamento", acrescentou.

A possibilidade, prosseguiu Badaró, de um tratamento ineficaz gerar "resultados tão positivos quantos esses 44 analisados é estimada em um trilhão". "Os novos cientistas, leitores de revistas de baixo impacto, ou só de resumos de trabalhos, às vezes pela dificuldade em ler em inglês ou outras línguas, não analisam com a devida propriedade os trabalhos e usam argumento de autoridade para dar as suas opiniões", criticou.

Outros especialistas e órgãos, incluindo a fabricante da ivermectina, reafirmam que não há evidências da eficácia do medicamento para tratar a Covid-19. Para o infectologista Carlos Brites, não há nenhum dado consistente que mostre benefícios na utilização da droga nesses casos. "Esse estudo que está circulando tem alguns erros grosseiros. Não é uma meta-análise clássica, nem foi publicada. há uma inconsistência metodológica nesse pseudo-artigo, que não resiste a uma análise mínima. Não foi revisado por pares. Me parece muito mais um veículo de propaganda de defensores da ivermectina. Se fosse consistente, já teria sido publicado. Qualquer revista de peso adoraria publicar isso, mas não foi justamente por se tratar de algo sem sentido do ponto de vista metodológico", diz Brites.

Brites lembra que a FDA, agência reguladora americana de medicamentos, emitiu esta semana um comunicado no qual não recomenda o uso da ivermectina para o tratamento ou prevenção da Covid-19. Em janeiro, a Associação Médica Brasileira (AMB) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) se posicionaram contra o "tratamento precoce" com qualquer droga.

"As melhores evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no “tratamento precoce” para a Covid-19 até o presente momento", afirmou a AMB. Já a SBI disse não recomendar "tratamento precoce para Covid-19 com qualquer medicamento (cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, nitazoxanida, corticoide, zinco, vitaminas, anticoagulante, ozônio por via retal, dióxido de cloro), porque os estudos clínicos randomizados com grupo controle existentes até o momento não mostraram benefício e, além disso, alguns destes medicamentos podem causar efeitos colaterais".

Em fevereiro, a farmacêutica Merck Sharp & Dohme (MSD), responsável pela fabricação da ivermectina, informou, em comunicado, que não há evidências da eficácia do medicamento contra a Covid-19.

A Rede Covida aponta que, segundo um estudo in vitro, "os níveis de ivermectina necessários para garantir um efeito significativo contra o SARS-CoV-2 são potencialmente tóxicos. Além disso, a ivermectina apresenta um efeito neurotóxico que normalmente não se manifesta, devido à integridade da barreira hematoencefálica, que pode estar comprometida na COVID-19 grave por causa do estado hiper inflamatório". A nota técnica ainda define a ivermectina como "mais uma droga candidata a ser testada por meio de ensaios clínicos adequadamente desenhados". A Rede Covida é um projeto de colaboração científica e multidisciplinar formado pelo Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia) e a Universidade Federal da Bahia (Ufba).

O infectologista Fábio Amorim reconheceu que utiliza o vermífugo para alguns pacientes com Covid-19, mas negou relação com os ditos "protocolos" que têm circulado. "A ivermectina pode ser usada no sexto ou sétimo dia. Funciona como profilaxia, uma prevenção contra complicações de parasitas que podem acontecer no uso do corticoide em altas doses", declarou.

Conforme o médico, os estudos mais recentes relacionam o sucesso do tratamento ao uso de corticoide e anticoagulante no momento correto. "Qualquer outra terapia é loucura, desnecessária, não muda a evolução do quadro", completou.

Por meio de nota, a Secretaria de Saúde do Estado (Sesab) informou que não há nenhuma recomendação da pasta para o uso da ivermectina como tratamento preventivo da Covid 19. "Entretanto, a Sesab respeita o Ato Médico, que é o arbítrio médico de prescrever, de acordo com a sua consciência e responsabilidade, o que ele julgar melhor para o paciente", acrescentou a secretaria.

Procurado, Badaró afirmou, no primeiro contato, que não poderia atender a reportagem porque estava realizando atendimento. Posteriormente, não atendeu às demais tentativas.

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