Psicólogos ajudam pessoas a identificarem a origem das suas angústias | A TARDE
Atarde > Bahia

Psicólogos ajudam pessoas a identificarem a origem das suas angústias

Veja a entrevista com a Presidente do Conselho Regional de Psicologia da Bahia, Catiana Nogueira dos Santos,

Publicado segunda-feira, 08 de janeiro de 2024 às 05:30 h | Autor: Jane Fernandes
Catiana Nogueira dos Santos, presidente do Conselho Regional de Psicologia da Bahia
Catiana Nogueira dos Santos, presidente do Conselho Regional de Psicologia da Bahia -

Presidente do Conselho Regional de Psicologia da Bahia, Catiana Nogueira dos Santos conversou com A Tarde sobre o papel dos psicólogos na promoção da saúde mental, a necessidade de envolvimento dos pacientes no processo terapêutico e a importância de políticas públicas para ampliar o acesso à psicoterapia, especialmente diante da liderança brasileira quanto à prevalência de transtornos ansiosos, apontada pela Organização Mundial da Saúde.

Raio-X

Catiana Nogueira dos Santos é psicóloga, mestre em Educação e especialista em Desenvolvimento Humano, Educação e Inclusão Escolar. Coordenadora do Colegiado de Psicologia do Centro Universitário Arnaldo Horácio Ferreira e educadora popular em saúde, pela Fundação Oswaldo Cruz, ela ministra palestras em temáticas de gênero, diversidade étnico racial e políticas públicas e atendimento online.

Segundo a OMS, 9,3% da população brasileira tem transtornos de ansiedade, colocando o Brasil na liderança do ranking mundial, o país também ocupa o terceiro lugar em prevalência de depressão. Qual é o papel da psicologia na promoção da saúde mental?

A psicologia possui o papel de prevenção e de tratamento junto à saúde mental da população. Para que a promoção da saúde mental ocorra é preciso pensar no quanto a ausência de políticas públicas afeta diretamente a saúde das pessoas. Além disso, existe uma construção social de que buscar um profissional de psicologia para tratamento é sinônimo de que você está perdendo o controle da sua sanidade mental, ocasionando que muitas pessoas fiquem resistentes a ter acesso ao serviço psicológico por achar que não poderá conduzir sua vida de forma pessoal e independente. A depressão é um destes casos em que o tratamento precisa ser realizado por psicóloga para auxiliar nas angústias ocasionadas emocionalmente e o medicamentoso com acompanhamento psiquiátrico ao qual fará com que a medicação haja como um suporte ao funcionamento cerebral. Quando a pessoa busca somente o medicamentoso ele apenas agirá de forma paliativa mas não entrará a fundo nos sintomas emocionais que fizeram com que a pessoa tenha tido tristeza profunda ou demais sintomas recorrentes da depressão, ela poderá falar sobre o que causa angústia e encontrar recursos através da escuta e da fala como conduzir estas situações a partir das suas próprias reflexões. Isto também ocorre para os casos de ansiedade. Todos nós temos ansiedade para o funcionamento do nosso organismo, porém, quando o seu corpo começa reagir em função da ansiedade é necessário compreender o que promove esta ansiedade, necessitando, a depender da gravidade dos sintomas, o tratamento medicamentoso e o psicológico.

Dados do DataSUS indicam um aumento na incidência de transtornos mentais no Brasil após a pandemia. A quais aspectos atribui esse incremento e como as políticas de saúde podem mitigar esse impacto?

As especificações de estarem em grupo de risco apontaram ser um índice predominante principalmente no que se refere a doenças respiratórias junto a sociedade o que consequentemente fez com que muitas pessoas começarem a ficar mais em estado de alerta do que o esperado, considerando que o período da pandemia estava diretamente atrelado a um vírus que afetava diretamente a parte respiratória. Tais dados podem ser consultados no livro: Percepções da sociedade em relação às condições de saúde mental e enfrentamento da Covid-19, publicado pelo CRP-03. Este levantamento de dados proporcionou compreender qual a visão da sociedade sobre o período da pandemia. Os dados apontam que 70% dos respondentes se sentiram atingidos emocionalmente pelo contexto da Covid -19. Para mitigar esse impacto será necessário que as políticas de saúde invistam em inserção de profissionais de psicologia na atenção básica, bem como o funcionamento da rede de atenção psicossocial que muitas vezes são deixadas de lado, invisibilizadas, ou somente são implementadas de forma incompleta. O resultado é que órgãos como Centro de Atenção Psicossocial (Caps) e secretarias de saúde não conseguem atender a demanda da população pela grande procura do serviço e a ausência do profissional de psicologia nestes espaços. Ainda existe sucateamento da prestação do serviço da psicologia, muitos municípios acabam utilizando o mesmo profissional para atuar em diversas campos de atuação achando que é o mesmo serviço para todos os lugares, sendo que para cada local exigem uma especialização para cada local de atuação, visando a qualidade na prestação do serviço a ser executado.

Nas redes sociais é comum que se fale em “ter terapia em dia” e sempre aparecem psicólogos lembrando que não é um processo automático. Como a psicoterapia auxilia nos processos de autoconhecimento e mudanças desejadas? Qual o papel do paciente/cliente nos resultados?

A psicoterapia é um processo que necessita do envolvimento do paciente/cliente junto com seu psicólogo. Nem todo assunto que afeta emocionalmente uma pessoa consegue ser resolvido numa única sessão, é necessário que a pessoa se sinta preparada para falar sobre, bem como confiar no profissional que a atende. Os processos de autoconhecimento e mudanças irão ocorrer conforme o paciente/cliente se empenhar em mudar e se ele não estiver disposto a assumir responsabilidade pelas suas mudanças ele continuará fazendo psicoterapia até quando encontrar o seu momento ou quando entender que pode seguir independente com suas conclusões e escolhas. O papel do paciente é se comprometer com o seu processo psicoterapêutico, desde a sua organização de agenda para estar na sessão, a pontualidade do seu horário, a sua liberdade de se expressar com o que se sente incomodado na relação psicóloga-paciente, se permitir criar o vínculo com o profissional que te atende e garantir o sigilo às suas questões da mesma forma que a psicóloga precisa ter para com seu atendimento. Ter terapia em dia não é somente se comprometer a ir, mas é se envolver no seu processo de mudança.

Embora a busca por profissionais de saúde mental ainda enfrente preconceitos, há uma queixa frequente sobre a dificuldade de acesso à psicoterapia, sobretudo no aspecto financeiro. O que considera ser necessário para aumentar o acesso da população a psicólogos?

Para aumentar o acesso da população a psicólogos é necessário que os municípios compreendam a importância de se ter o profissional de psicologia em diversos campos de atuação, não adianta apenas inserir na secretaria de saúde para mitigar uma demanda urgente, pois a pessoa que buscar o serviço poderá talvez ter um outro tipo de atendimento se tivesse o profissional de psicologia no local adequado para sua atribuição. Um exemplo disso é a educação, não adianta encaminhar alunos para os serviços da saúde se o foco de atuação depender de um psicólogo escolar que fará acompanhamento das demandas escolares. Em sua ausência, o profissional de psicologia da saúde não conseguirá atender a demanda pois não faz parte da sua atribuição na saúde. Outro fator importante é aumentar a contratação de profissionais de psicologia com carga horária e salários que façam equivalência à atribuição exercida. Em muitos municípios o profissional de psicologia acaba tendo uma jornada extensa de 40 horas para um salário mínimo ou inferior a este valor, fazendo com que muitos profissionais optem por não concorrer à vaga devido à precarização da mão de obra, assim ampliando a oferta do serviço particular.

Assim como a medicina baseada em evidências, a psicologia baseada em evidências tem sido cada vez mais comentada. O que é psicologia baseada em evidências e quais são as linhas de abordagem que mais a utilizam?

Consideramos que todas as áreas de atuação de abordagens na Psicologia possuem cientificidade para atuação, por isso vários profissionais têm a liberdade de escolha por uma abordagem que melhor se identifica para atuar.

O livro de Natalia Pasternak colocou a psicanálise em discussão e também mostrou que parte da população conhece pouco do tema. A psicanálise é necessariamente uma linha de abordagem dentro da psicologia? Quais são as linhas mais usadas no Brasil e o que o psicólogo precisa para segui-las no seu consultório?

Sim, a psicanálise é uma das abordagens da psicologia, após a conclusão do curso de psicologia o profissional realiza uma especialização para aprofundar mais nesta abordagem para atuação atrelada aos demais conhecimentos científicos adquiridos junto a sua formação em psicologia. A psicanálise é um curso livre, ou seja, qualquer pessoa formada em ensino superior pode cursar e se tornar um psicanalista. Isso dificulta a realização de um trabalho de fiscalização, por ser uma atuação não regulamentada por um conselho. No caso dos profissionais de psicologia que atuam com a psicanálise, qualquer risco ético que venha ter, ele poderá ser julgado perante a Comissão de Ética do Conselho de Psicologia, isto garante uma segurança maior para a sociedade no que diz respeito à denúncia de práticas irregulares. Existem muitos profissionais que atuam com a Terapia Cognitivo Comportamental, Abordagem Centrada na Pessoa, Fenomenologia, Existencialismo, Análise do Comportamento, Sistêmica, Analítica e para qualquer uma delas o profissional pode após a conclusão do ensino superior já atuar, pois na formação ele já aprende sobre muitas delas, mas recomenda-se o profissional realizar uma especialização para aprofundar nas especificações da abordagem escolhida considerando que o que se aprende na graduação é um conteúdo limitado para prática inicial. Existem muitas outras abordagens que podem ser utilizadas e que não são conhecidas por toda sociedade, visando garantir uma cientificidade das práticas, o Conselho Federal de Psicologia criou o Sistema de Avaliação de Práticas Psicológicas (Sapp) para poder avaliar e informar se são consideradas aplicáveis para atuação em psicologia.

Atualmente, terapeutas que usam estratégias diversas se colocam como auxiliares na promoção da saúde mental e do autodesenvolvimento, frequentemente gerando dúvidas sobre terem formação em psicologia ou não. Apenas psicólogos podem se apresentar como terapeutas? Como diferenciar psicólogos e grupos que oferecem terapias não psicológicas?

O termo terapeuta já existia muito antes da psicologia. O recomendado é que psicólogos se identifiquem como psicoterapeutas, mesmo assim este termo também não é privativo da psicologia, mas ajuda a diferenciar quem de fato atua como psicólogo na maioria das vezes. Para diferenciar sempre recomendamos que verifique se o profissional apresenta o seu número de inscrição profissional em suas redes sociais ou documentos apresentados ao paciente. Outra forma segura de garantir que o profissional é mesmo um psicólogo é acessando o site do Cadastro Nacional de Psicólogas/os em que com o nome da pessoa você já consegue identificar se ela está inscrita e ativa no Conselho Regional de Psicologia para atuar.

Publicações relacionadas