BAHIA
Temporada de baleias jubarte atrai turistas e é fonte de emprego e renda na Bahia
Avistamento dos animais segue até outubro em Praia do Forte


Charmosa vila de pescadores localizada no município de Mata de São João, no litoral norte da Bahia, a Praia do Forte atrai milhares de turistas ao longo do ano devido à calmaria e às belezas naturais. No entanto, entre julho e outubro, há um motivo maior para a visita: a temporada de observação de baleias jubarte.
Todos os anos, cerca de 35 mil gigantes do mar dominam os mares baianos para época de reprodução. Por este motivo, o local abriga uma das bases mais importantes do Projeto Baleia Jubarte, iniciativa de conservação brasileira criada em 1988 para proteger a espécie e monitorar sua população em águas nacionais.
A convite do instituto, nesta quinta-feira, 23, o portal A TARDE participou de um dia de avistamento junto a pesquisadores e, em alto mar, a cerca de 20 KM da costa e a 80 metros de profundidade, se aproximou de 13 mamíferos marinhos e observou o comportamento grupal dos animais.
A reportagem acompanhou de perto as três etapas de análise:
- Fotogrametria: estudo através do drone, que após lançado, sobrevoa a baleia para obter uma estimativa do tamanho;
- Fotoidentificação: foto da cauda da baleia para pesquisa e identificação do animal;
- Biópsia: amostra tirada da pele e gordura através do uso de uma balestra, que depois ocorre a separação e ela é leva para o laboratório.
Em entrevista à reportagem, Isabela Oliveira, coordenadora de educação ambiental do projeto Baleia Jubarte há oito anos, explicou como funciona o processo de análise.
"Um grupo nadando lento facilita com que a gente faça a fotogrametria. Depois a gente conseguiu fazer a foto identificação, justamente quando elas mostraram a cauda, porque é como se fosse a impressão digital dela e a gente fazendo a foto da cauda a gente poder reconhecer elas individualmente. E, além disso, a gente fez a biópsia, porque através da pele a gente consegue fazer estudos genéticos e através da gordura a gente consegue fazer estudos de contaminantes e estudos hormonais", detalhou Isabela.

Quem realizou o processo de biópsia foi Sérgio Cipolotti, coordenador de Pesquisa do Projeto Baleias Jubarte, através da balestra, instrumento de arremesso composta por um arco horizontal fixado em uma haste. A flecha é lançada e, após alcançar o animal, cai no mar com a amostra.

Entenda migração das baleias para o litoral baiano
Durante a entrevista, o biólogo explicou como funciona o processo migratório, em que os animais percorrem 4.000 KM. Segundo o especialista, as baleias têm duas áreas estabelecidas:
- Área reprodutiva: no litoral do Brasil
- Área de alimentação: na região Antártica
"Agora, elas estão percorrendo 4.000 km da Antártica para ter o sucesso reprodutivo. Então elas estão chegando para se reproduzir. Vem machos e fêmeas que vão ficar férteis no cio, e também as fêmeas que foram fecundadas ano passado. A gestação da baleia dura 11 meses", disse Cipolotti.
Desta forma, a baleia que foi fecundada ano passado está chegando agora no litoral da Bahia para o nascimento do filhote, porque as águas tropicais são mais quentes e tem menos predadores naturais, como a orca e os grandes tubarões.
"A mãe vai cuidar desses filhotes aqui na nossa costa durante 4 ou 5 meses, amamentando ele de 80 a 100 litros de leite por dia, para ele poder ainda encorpar e quando chegar ao final da estação reprodutiva, que é ali final da primavera, comecinho de do verão, eles já começarem a migrar juntos de volta para Antártica, onde eles vão se alimentar", disse.
Em uma migração longa, as baleias encontram vários riscos, principalmente por precisarem conviver com a poluição dos mares, tráfico de embarcações e redes espalhadas de forma ilegal.
"Elas têm diversos riscos ambientais, mas há também um sucesso muito grande, porque são animais que têm um certo conhecimento e sabedoria e vêm tendo um crescimento bastante significativo de sua população. Quando a gente começou a trabalhar 40 anos atrás, eram 1 mil indivíduos, hoje a gente tem uma estimativa de 35 mil indivíduos", disse.

Turismo marítimo estimula a preservação
Desta do forma, além da autoproteção, o volume de reprodução acaba sendo beneficiado pela estratégia de avistamento pois, com o turismo marítimo ganhado cada vez mais espaço, as pessoas têm se interessado mais em baleias, e elas acabam ganhando um novo espaço.
"Antes tinha a caça que foi proibida, e agora, a maioria das pessoas veem como um momento de lazer e de respeito também esses animais. Antigamente a gente tinha uma um objetivo com a baleia, que era letal. A gente matava as baleias para produzir o óleo, ter a carne. Hoje, a gente consegue ter um desenvolvimento socioeconômico sem precisar matá-la, que é através do turismo. Então, o turismo tem que ser muito bem executado, responsável, seguindo as normas vigentes", detalhou.
As regras em questão estão estabelecidas em uma portaria do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), através da portaria 117, desde 1996. Os critérios servem tanto para as baleias não serem incomodadas, quanto para a segurança das pessoas que estão embarcadas.
Entre as regras estão:
- Aproximação lenta e lateral, diminuindo a velocidade do barco quando o animal, para ele não se sentir perseguido;
- Distância mínima de 100 metros para garantir que o animal possa seguir com o comportamento livremente;
- Permanência de, no máximo, 30 minutos com cada grupo;
- Limite de duas embarcações por grupo visto.

Projeto impulsiona a economia da região
O Projeto Baleia Jubarte tem 38 anos de criação e a atuação na Praia do Forte já soma 25. Um dos fundadores e vice-presidente do instituto, Enrico Marcovaldi explicou para o portal A TARDE, a importância da estratégia.
"Serve muito para subsídio para políticas públicas. Todo o conhecimento que a gente adquire, a gente passa pra os espaços Baleia Jubarte para compartilhar esse conhecimento e essa beleza desses animais para toda a sociedade", afirmou.
Assim, o projeto acaba fortalecendo a economia local. "Agrega valor econômico em cima das baleias, o que dificulta muito um provável retorno à caça e, além disso, tanto o espaço como o turismo de observação de baleia, geram emprego e renda", finalizou.
