Tratamento contra HIV não alcança todos os infectados

Publicado segunda-feira, 29 de novembro de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 28/11/2021, 20:11 | Autor: Jane Fernandes

Quase 38 milhões de pessoas vivem com HIV em todo o mundo, mas cerca de 26% delas não têm acesso ao tratamento, segundo o Unaids, programa da Organização das Nações Unidas (ONU). No Brasil, estima-se que 920 mil pessoas tenham o vírus e, dentre elas, em torno de 818 mil tenham sido diagnosticados, representando 89% do total, conforme dados divulgados pelo Ministério da Saúde (MS) no final do ano passado.

Os números do MS apontam ainda que apenas 77% dos brasileiros com teste positivo para HIV estão realizando tratamento com antirretroviral. O destaque positivo é que 94% desses 629.860 pacientes em tratamento atingiram carga viral indetectável e portanto não transmitem o vírus por via sexual.

Conforme definido em assembleia da ONU realizada em 2016, a meta global era chegar a 2020 com 90% das pessoas vivendo com HIV diagnosticadas, 90% dos pacientes diagnosticados fazendo tratamento e 90% dos que estivessem em tratamento tendo carga viral indetectável.

“Essa meta era extremamente ambiciosa, mas acreditava-se que seria possível, no entanto, uma das principais razões para não atingi-la pode ter sido o aumento de novos casos de HIV. Cerca de 1,7 milhão de pessoas foram infectadas pelo vírus, mais de três vezes acima do esperado até 2020”, pondera a diretora em exercício do Centro Estadual de Diagnóstico, Assistência e Pesquisa (Cedap) da Secretaria de Saúde do Estado (Sesab), Leila Amorim.

Para a diretora do Cedap, a pandemia de Covid-19 é um dos fatores que pode ter contribuído para uma queda no nível de assistência a esse público, o que ocorreu globalmente. “Muitos pacientes abandonaram o tratamento nesse período pela necessidade de manter o isolamento social e, em muitos locais, pela suspensão do atendimento a PVHIV (pessoas vivendo com HIV), como a outras patologias crônicas, e/ou a dificuldade de acesso aos centros de tratamento”, analisa.

Mestre em saúde coletiva e doutora em bioestatística, ela destaca ainda a piora das condições socioeconômicas da população brasileira e mundial, o que inclui as pessoas vivendo com HIV. “Resultou em dificuldade de manter condições mínimas de vida como alimentação, higiene e transporte para manter seu tratamento”, acrescenta.

Questionado sobre as principais barreiras para alcançar os 90/90/90, o MS apontou o tratamento como ponto central. “Hoje o HIV pode ser entendido como uma doença crônica e o seu cuidado pode ser realizado em serviços de atenção primária, nos casos de início de tratamento de pessoas sem comorbidades ou coinfecções com outras doenças”, definiu, por meio de nota.

Nessa perspectiva, a pasta defende a organização das linhas de cuidado das redes locais e a importância de acesso facilitado aos serviços especializados, mas não esclarece como atua nessa articulação.

Localmente, Leila acredita que a pandemia tenha impactado o número de novos casos notificados pela Coordenação de Vigilância Epidemiológica de Agravos Transmissíveis da Sesab, em 2020 e 2021. O distanciamento social imposto pela pandemia gerou uma reestruturação dos serviços, o que pode ter resultado em subnotificação, dificultando uma comparação precisa com o período anterior à Covid-19.

A gestora afirma que atendimento a este público, tanto no Cedap quanto no Instituto Couto Maia, está sendo normalizado, e lembra que é possível fazer o teste de HIV pelo SUS em qualquer município baiano. “A testagem é realizada preferencialmente em Unidades Básicas de Saúde, através da realização do Teste Rápido. O resultado sai na hora, é rápido, seguro e tem excelente sensibilidade”, completa.

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