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Baixa adesão de vacinação contra dengue e Covid preocupa médicos

Campanha da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) chama atenção para a importância dos imunizantes

Publicado quarta-feira, 24 de abril de 2024 às 06:00 h | Autor: Brenda Lua Ferreira, de São Paulo*
Números do Ministério da Saúde mostram que, apesar da melhora significativa do cenário, o coronavírus continua a ser mais letal do que a dengue
Números do Ministério da Saúde mostram que, apesar da melhora significativa do cenário, o coronavírus continua a ser mais letal do que a dengue -

Mais de três mil brasileiros já morreram somente neste ano em decorrência da Covid-19 e, recentemente, o país também atingiu a marca de mais de mil óbitos por dengue. Números do Ministério da Saúde mostram que, apesar da melhora significativa do cenário, o coronavírus continua a ser mais letal do que a arbovirose. 

No Brasil, hoje, são em média 192 mortes por Covid-19 a cada sete dias, com base nos dados das últimas quatro semanas epidemiológicas. No mesmo período do ano passado, esse número era 448,57% mais alto. Já na pior época da pandemia, em abril de 2021, quando a imunização avançava a passos lentos no país, o Brasil chegou a registrar uma média de 19.731 óbitos a cada semana – mais de 100 vezes acima da taxa atual.

Já a Dengue alcançou a marca dos 1.601 óbitos confirmados em 2024. Além disso, outras duas mil mortes seguem em investigação e podem ter sido causadas pela doença, totalizando 3,6 mil mortes confirmadas ou suspeitas até o momento. Os dados são do painel de casos do Ministério da Saúde atualizado na última sexta-feira, 19.

Embora tenha sido um dos primeiros estados a receberem a vacina contra a dengue, a Bahia confirmou mais duas mortes na última segunda-feira, 22. Com isso, subiu para 47 o número de vítimas da arbovirose na Bahia. O estado tem 256 dos 417 municípios em epidemia da doença.

Ao todo, na Bahia, foram notificados 81.428 casos prováveis da doença até o dia 23 de março de 2024. No mesmo período de 2023, foram notificados 13.854 casos prováveis, o que representa um aumento de 487,8%. No total, 285 municípios do estado baiano estão em estado de epidemia de dengue. Outros 45 estão em risco e 12 em alerta.

Fatos como estes acendem um alerta importante para a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), pois mesmo com dados que chamam atenção, a adesão da vacinação contra a dengue e a Covid-19 segue baixa. Na última década, as metas de cobertura vacinal não foram alcançadas e sofreram uma queda expressiva de quase todas as vacinas. Para continuar tentando reverter esse cenário, a SBI lançou em São Paulo a campanha “Tá Vacinado?”, dessa vez, priorizando o público adulto, mas também abordando outros grupos. 

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O evento aconteceu na segunda-feira, 22, com a presença dos representantes da SBI, que discutiram o cenário atual e as propostas da campanha para aumentar o número de imunizados. O coordenador científico da entidade, Alexandre Naime Barbosa, explicou o porquê desse entrave. 

“Mesmo antes da pandemia, havia um momento de queda de vacinação, tanto em adultos, como crianças. Isso por causa de muita desinformação, de fake news e por um fenômeno que a gente chama de 'hesitação vacinal'. Esses processos foram muito acelerados durante a pandemia, e esse tipo de coisa, que acabou caindo muito sobre as vacinas da Covid, também respingou sobre outras vacinas", justificou o especialista, em entrevista ao Portal A TARDE

Alexandre Naime, coordenador científico da SBI
Alexandre Naime, coordenador científico da SBI |  Foto: Junior Rosa
 

"A vacinação contra a dengue acaba sendo o exemplo mais eloquente de como uma vacina, que durante um período da pior epidemia que nós estamos vivendo em toda série histórica, mesmo com a vacina disponível, tem registrado baixa procura. Isso mostra como esse fenômeno de 'hesitação vacinal' realmente tem sido um obstáculo para que a gente consiga proteger as pessoas e salvar vidas", avaliou o médico. 

Para exemplificar a importância da vacinação, com relação a outras doenças, a coordenadora do Comitê de Imunizações da SBI, Rosana Richtmann, citou a varíola, que graças ao imunizante, teve o seu último caso registrado em 1937. "Felizmente, nenhum de nós aqui viu a varíola e é uma vacina que o próprio Instituto de Infectologia recomenda".  A infectologista pontuou também que, atualmente, o Brasil conta com 38 mil postos de vacinação com estoques para atender toda a população.  

HESITAÇÃO VACINAL 

Mas, do que se trata este termo? Em palavras mais simples, significa que existe um grupo de pessoas que, literalmente, hesitam em tomar vacina. De acordo com o vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, existem vários fatores de hesitação vacinal: falta de informação, confiança nas autoridades, nos profissionais de saúde, prescrição médica, oportunidade perdida, em casos de multirão, falta de vacinas, banco de dados e acesso. 

"Os picos desse fenômeno coincidem com novas informações que chegam para a população e com novas políticas de governo, além do relato de possível problema de saúde após a vacinação", pontuou Sergio Cimerman, relacionando sintomas como febre e dor local. 

Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Sergio Cimerman
Vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Sergio Cimerman |  Foto: Brenda Lua Ferreira | Ag, A TARDE

FAKE NEWS 

Como já citado, a adesão vacinal é um problema grave no Brasil e muita coisa ainda precisa ser feita, desde outras estratégias de incentivo, até mesmo informação adequada para combate às fake news. Durante a palestra, todos os especialistas foram unânimes em relação à interferência na saúde, com a propagação de notícias falsas. 

"Essa nova campanha vem trazer de forma muito clara as mensagens principais. As vacinas que temos hoje, são extremamente eficazes, tem um papel importantíssimo na redução dos grupos vulneráveis, na questão de hospitalização e óbitos, incluindo a da Dengue, que impacta de forma extremamente positiva em relação a diminuição da gravidade da doença. Elas são seguras, testadas e estudos pós-comercialização hoje também já mostram isso. Precisamos reforçar", ponderou Alexandre Naime. 

Outro caso que repercutiu de forma negativa na sociedade foi a disseminação de informações falsas sobre o famoso "jacaré", quando a vacina surgiu. Os especialistas atribuem esse acontecimento a uma questão totalmente política, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro discursava sobre uma possível ineficácia do imunizante. Além disso, Bolsonaro recomendou que a população não se vacinasse, pois se o fizesse, "viraria jacaré".  

Em meados da pandemia, documentos em poder da CPI da Covid mostraram, em 2021, que grupos indígenas ficaram com medo de tomar vacina depois de terem acesso a notícias falsas sobre supostos efeitos causados pelos imunizantes. Eles relataram ao Ministério da Saúde que rejeitaram ser vacinados com receio de virar jacaré, de mudar de sexo, de contrair o HIV e até de morrer. "Imagina a gravidade da situação quando você lida com pessoas que moram, literalmente, na beira do rio, convivendo com jacarés, que se elas se vacinarem, vão 'virar jacaré'. É complicado explicar isso", comentou Rosana Richtman, coordenadora do comitê de imunizações da SBI. 

Rosana Richtman, coordenadora do comitê de imunizações da SBI
Rosana Richtman, coordenadora do comitê de imunizações da SBI |  Foto: Junior Rosa
 

Segundo a infectologista, há um tempo também existia uma determinação no estado do Amazonas que aprovava vacinação em indígenas que tinham um documento comprobatório, no entanto, o imunizante não era permitido para os indígenas que não possuiam a "carteirinha". Este, de acordo com a médica, foi um desafio que foi vencido. "Hoje todos seguem o calendário vacinal. Mas foi um processo lento". 

A campanha "Tá Vacinado?" vai até novembro e conta também com o apoio de influenciadores da área, neste ano. "São ações permanentes, para que a gente continuem estimulando as pessoas a buscarem unidades de saude para se vacinarem", declarou o presidente da SBI, Alberto Chebabo.    

Presidente da SBI, Alberto Chebabo
Presidente da SBI, Alberto Chebabo |  Foto: Junior Rosa

"A gente vem ocupando esse espaço, para trazer informação de qualidade, independente de viés político, seja lá o que for. O que a gente defende é a informação correta, de qualidade, baseada nas evidências da ciência", reforçou o presidente que aproveitou para pontuar que neste assunto, não existe política. "Se colocar política no meio, atrapalha. Somos uma sociedade plural e científica", concluiu. 

*Repórter viajou a convite da Sociedade Brasileira de Infectologia. 

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