BRASIL
Especialistas divergem sobre possível acordo entre governo e PCC

A possibilidade de um acordo entre o governo do Estado de São Paulo e a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) coloca em lados opostos especialistas consultados na terça-feira.
Autoridades negam a negociação e defendem que a ação das forças policiais debelaram a violência.
O juiz Walter Maierovitch, ex-Secretário Nacional Antidrogas e presidente do Instituto Giovanni Falcone de Ciências Criminais, acredita na realização do acerto que teria levado à interrupção da escalada de atentados promovida pela facção desde sexta-feira.
"Para mim foi um erro se ocorreu esse acordo, porque representa uma capitulação, uma entrega. O governo do Estado virou prisioneiro do PCC", disse Maierovitch à Reuters.
Ele vai mais longe e fala que, com a negociação, "o Estado se torna escravo dessa organização criminosa, prisioneiro do PCC".
Para corroborar sua avaliação, Maierovitch diz que a recusa do governador Cláudio Lembo da oferta de tropas federais na segunda-feira, auge da crise, é o principal indicativo de que havia um acerto prévio.
Maierovitch aponta ainda as declarações das autoridades, também na segunda-feira à tarde, afirmando que as forças de segurança detinham o controle da situação e que a população poderia ficar tranquila. "Se o PCC fosse continuar a atacar, eles pediriam que a população tivesse cautela".
OFENSIVA - O cientista político Paulo de Mesquita Neto, representante no Brasil da ONG Human Rights Watch, discorda.
"Recusar ajuda federal não tem a ver com acordo. A polícia de São Paulo é mais capaz do que a força federal, que é um agrupamento de forças de vários Estados e não tem gente treinada como a polícia de São Paulo", afirmou Mesquita.
Para o especialista, esta oferta do governo federal ainda teve o agravante de criar tensão em meio ao jogo político. Ele disse que acreditar que a resposta das polícias militar e civil debelou a crise. Para ele, as forças do governo paulista "não se intimidaram, tomaram a ofensiva".
Para o ex-secretário nacional de Segurança Pública coronel José Vicente da Silva, era previsível que a crise duraria poucos dias.
"Normalmente, esses casos se sabe que vão durar dois, ou três dias, no máximo. Até porque a habilidade defensiva da polícia nesses momentos atrapalha os negócios do crime", disse ele ainda no início da crise.
Mesquita afirma que os 71 mortos, supostamente criminosos, deve levar a um recorde neste ano no Estado. Considera a cifra muito elevada e apenas em uma situação extrema como atual poderá receber a tolerância dos órgãos de defesa dos direitos humanos.