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História seletiva: por que a Revolta dos Búzios não ganhou projeção nacional como Tiradentes

Especialista explica como o movimento afetou a elite brasileira

Isabela Cardoso
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Estátua de Luís Gonzaga das Virgens, autor de panfletos que pregavam a independência da Bahia e a abolição da escravatura
Estátua de Luís Gonzaga das Virgens, autor de panfletos que pregavam a independência da Bahia e a abolição da escravatura -

Enquanto o 21 de abril mobiliza o país para celebrar Tiradentes, outro movimento separatista de igual importância histórica frequentemente ocupa apenas notas de rodapé nos livros escolares: a Conjuração Baiana de 1798, conhecida como Revolta dos Búzios.

Apesar de ter sido mais radical e abrangente em suas propostas, o levante não recebeu a mesma projeção nacional. A razão, segundo historiadores, está no perfil dos seus participantes e no incômodo de suas pautas.

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A ameaça da igualdade: pautas que assustaram o poder

A principal diferença entre as duas revoltas está no projeto de sociedade que defendiam. Enquanto os mineiros focavam na independência e na questão dos impostos (a Derrama), os baianos foram muito além.

Para o historiador Cleiton Mesquita, a Conjuração Baiana era, sobretudo, mais perigosa para a estrutura da época.

"A Conjuração Baiana foi, em muitos aspectos, mais radical que a Inconfidência Mineira. Mas não ganhou destaque porque defendia igualdade social e racial, propunha o fim da escravidão e tinha forte participação popular. Essas ideias eram muito mais ameaçadoras para as elites do que as propostas da Inconfidência Mineira", explica Mesquita.

Identidade e classe: quem escreve a história escolhe o herói

A forma como um evento é lembrado depende diretamente de quem detém o poder de narrá-lo. Na Inconfidência Mineira, o protagonismo era de homens brancos, letrados e pertencentes à elite econômica. Já na Bahia, o movimento era composto por negros, mulatos, artesãos e soldados.

Essa composição diversificada selou o destino da memória do movimento. Conforme aponta Cleiton Mesquita, a história oficial brasileira foi escrita por elites que valorizaram movimentos com os quais se identificavam.

Enquanto a Inconfidência foi pintada como um levante "civilizado", a Conjuração Baiana foi reduzida a uma "revolta perigosa" ou desordem social.

O papel dos livros didáticos na memória seletiva

Por décadas, os currículos escolares reforçaram essa disparidade. Tiradentes foi elevado ao posto de mártir nacional, com páginas dedicadas ao seu sacrifício, enquanto a Conjuração Baiana recebia breves menções.

"Os historiadores ligados ao poder escolheram quais eventos destacar. Movimentos mais 'controláveis' foram valorizados, enquanto revoltas populares foram silenciadas ou tratadas como desordem", afirma Mesquita.

Somente em anos recentes, com a reforma de currículos e a maior valorização da história social e racial, é que os heróis baianos, como João de Deus e Lucas Dantas, começaram a ganhar o devido reconhecimento, saindo das margens da historiografia nacional.

A história como escolha política

A disparidade entre Minas e Bahia revela que a construção de heróis nacionais é um processo de seleção. Como define o professor Cleiton Mesquita, a história não é apenas o registro do que aconteceu, mas sim do que se escolheu lembrar.

"Tiradentes virou herói não apenas pelo que fez, mas pelo que representava para quem contou a história depois. E movimentos como a Conjuração Baiana mostram que há muitas outras narrativas que ficaram à margem, não por serem menos importantes, mas por incomodarem mais", conclui.

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