Sementes misteriosas enviadas pelos Correios preocupam órgãos fitossanitários

Publicado sexta-feira, 02 de outubro de 2020 às 09:25 h | Atualizado em 02/10/2020, 09:45 | Autor: Da Redação

Nos últimos dias, um fato curioso tem provocado especulações em algumas partes do país. Encomendas contendo sementes têm chegado pelos Correios sem que o destinatário houvesse solicitado, e já foram identificados casos em 17 estados e no Distrito Federal, além de outros países.

De acordo com a coordenadora do programa Fitossanitário dos Citros da Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab), Suely Brito, cidades baianas como Salvador, Candiba, Itabuna, Casanova e Senhor do Bonfim já tiveram registro de pessoas recebendo as sementes pelos Correios.

Suely explica que o fato preocupa órgãos fitossanitários e que, ao receber este material, ele deve ser imediatamente entregue para um órgão responsável para que seja feita uma análise de seu conteúdo e, em nenhuma hipótese, deve ser plantado.

"A potência de um micro-organismo pode causar distúrbios e doenças em plantas, além de trazer incontáveis prejuízos, desde econômicos, ambientais e até culturais. Todo esse material precisa ser encaminhado para laboratório para conhecer que espécies botânicas são essas que estão chegando para a gente, e se elas estão infectadas por pragas, como fungos, bactérias, vírus, insetos", explica Suely Brito, que foi uma das entrevistadas do programa 'Isso é Bahia', da rádio A TARDE FM, na manhã desta sexta-feira, 2.

De acordo com o Ministério da Agricultura, já foram detectados casos de recebimento das sementes na Bahia, Alagoas, Amapá, Ceará, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul, Rio Grande do Norde, Rondônia, Roraima, Santa Catarina, São Paulo e Tocantins.

Ainda segundo o governo, "até o momento, ainda não é possível apontar os riscos envolvidos".

Material da China?

Suely comenta que ainda não há como saber se o material que as pessoas estão recebendo vem realmente da China. Conforme a coordenadora da Adab, sementes vêm lacradas dentro de um envelope plástico e, em alguns deles, há uma etiqueta com numeração e a frase 'Made in China', além da numeração postal.

"Todas as embalagens que encontramos, que foram entregues pelos clientes, mostravam que a origem partiu da Ásia, especificamente da China. Contudo, a veracidade dessa informação e desses códigos numéricos que caracterizam os diversos países no trânsito postal internacional somente podem ser confirmados pelos Correios", pontua.

Brushing

Outro ponto citado por Suely durante a entrevista como possível causa do recebimento das sementes seria a prática comercial conhecida como 'brushing'.

No brushing (algo como "varrer" ou "espalhar", em inglês) funciona com a criação de contas falsas com o objetivo de impulsionar sites de vendas internacionais, como Amazon, Aliexpress, eBay, através de dados furtados de usuários ao redor do mundo.

Em seguida, os dados roubados são utilizados para efetuar compras nas lojas de quem aplicou o golpe, utilizando as contas falsas para escrever boas avaliações pós-venda e subir no sistema de posicionamento dos sites.

Para não ficar no prejuízo, sementes são enviadas a clientes fantasmas e, com isso, não levantam suspeitas na moderação das empresas.

Segundo Suely, isso é um negócio arriscado não só economicamente, mas também do ponto de vista sanitário.

"As sementes, mudas, entre outros, podem proporcionar diversas pragas capazes de destruir plantações inteiras. A gente deve ficar muito atento porque, aqui no Brasil, estamos falando de estados que tem uma importância na produção agrícola e não sabemos quais seriam as motivações na entrega destas sementes", alerta.

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