CADERNO 2
Após dois anos, festival de jazz retorna ao Largo da Mariquita
Evento acontece neste fim de semana com apresentações gratuitas e homenagem a Letieres Leite

Por Bruno Santana*

O jazz nasceu na rua. Mais especificamente, nas ruas de Nova Orleans (EUA) no fim do século XIX, nas reuniões de descendentes de pessoas escravizadas nas praças e feiras para celebrar e rememorar os ritmos que evocavam suas origens. Nada mais justo, portanto, que o jazz volte às ruas em Salvador, a cidade mais negra fora da África – e é exatamente este o objetivo do Festival Salvador Jazz, que retorna neste fim de semana ao Largo da Mariquita, no Rio Vermelho.
Com dois dias de programação totalmente gratuita neste sábado e domingo, o festival volta a acontecer após dois anos de um hiato forçado pela pandemia de COVID-19.
Entre os principais destaques, haverá apresentações do bandolinista carioca Hamilton de Holanda e do pianista pernambucano Amaro Freitas, além da celebrada banda soteropolitana IFÁ, que traz uma mistura de afrobeat, reggae e funk no ritmo do ijexá.
O grande homenageado do evento será o maestro Letieres Leite, falecido em outubro do ano passado: a Orquestra Rumpilezz, fundada por Letieres em 2006 e conhecida por sua fusão das percussões africanas com o jazz contemporâneo, encerrará a programação de hoje com uma apresentação em homenagem ao músico.
A iniciativa de realizar um festival gratuito completamente guiado pelo jazz, com direito a uma série de ritmos e sonoridades influenciados pelo gênero musical, é comemorada pela produtora cultural Fernanda Bezerra, uma das organizadoras e curadoras do evento.
"Fazer um evento de graça é uma alegria para o produtor, porque ele consegue botar a cultura em contato com as pessoas, o que é fundamental", afirma Fernanda.
"É muito gratificante ver agora a volta do festival com uma programação que é 100% de artistas negros, com pessoas do Norte do país, aqui do Nordeste também… são muitos destaques, estamos com uma programação muito diversa, mostrando que os artistas que estão trabalhando pensam o jazz além. Eles dão outros toques ao jazz, mais brasileiros, mais regionais, mais nordestinos. A gente propõe quebras de barreiras, porque o jazz é isso", continua.
Fernanda nota ainda que a realização do festival trouxe desafios adicionais em 2022, mas o resultado final é ainda mais recompensador. "Fazer um evento de rua é difícil, porque ainda estamos na pandemia, então precisamos ter muito cuidado e entender que essa ocupação precisa acontecer de forma muito consciente e responsável", diz a produtora.
“Mas fazer festival na rua é muito gratificante, porque a gente dá acesso à cultura num momento em que tudo está tão caro, os preços de ingressos de shows aumentaram, aumentou logística, aumentou hotel, alimentação… então o preço de um produto cultural aumenta. Por isso que é tão legal colocar o produto cultural gratuitamente no dia-a-dia das pessoas", comemora.
E viva Armandinho
Hoje, a abertura do Festival Salvador Jazz fica por conta do guitarrista e arranjador baiano Jordi Amorim, aluno de Letieres Leite e um veterano do festival – em 2018, ele se apresentou no evento comandando o Coletivo Rumpilezzinho. Em seguida, é a vez do grupo Panteras Negras, que se autointitula a primeira banda instrumental do mundo formada apenas por mulheres negras e LGBTQIA+.
A percussionista Aline Santana, baterista das Panteras Negras, promete uma apresentação animada e variada no palco do Largo da Mariquita. "O público pode esperar um show bem dançante e com um repertório bastante eclético, com temas autorais da própria banda como Nzinga, Akotirene, Mumia Abu, entre outras", adianta Line.
“Vamos misturar no palco ritmos variados, como ijexá, aguerê, samba, rock, jazz, forró e outros. E mostraremos também ao público duas releituras nas quais faremos homenagens a dois grandes gênios da música brasileira. É uma surpresa que apresentaremos ao público", conclui.
Ainda hoje, o festival recebe ainda a banda soteropolitana IFÁ e a Orquestra Rumpilezz. Amanhã, a programação é iniciada com o jazzista pernambucano Amaro Freitas, que recentemente esteve no Teatro Castro Alves para apresentar seu mais novo álbum, Sankofa. Em seguida, se apresentam por lá o grupo Pradarrum, coordenado pelo percussionista baiano Gabi Guedes e focado na preservação dos ritmos do candomblé, e a dupla paraense Guitarrada das Manas, com influências do carimbó, do mambo e da world music.
Por fim, o encerramento do festival fica por conta do bandolinista carioca Hamilton de Holanda, considerado um dos grandes mestres do choro no Brasil. Hamilton, que recentemente venceu o Grammy Latino de 2022 na categoria Melhor Álbum Instrumental, considera que as ligações entre o choro e o jazz vão muito além das origens.
"São como aqueles primos que a gente considera irmãos", brinca o músico. "Os dois têm uma origem muito parecida: africana, negra, com o batuque, a percussão, os mantras, e ao mesmo tempo misturam melodias e harmonias européias. Tem também a questão da improvisação, da inspiração momentânea”, analisa Hamilton, que também comemora a oportunidade de poder tocar para um público mais amplo numa cidade como Salvador.
“Poder tocar na rua os gêneros que têm uma origem desse mesmo lugar, do nosso povo, da nossa gente, num lugar onde as pessoas se encontram de forma espontânea, é exemplo para todo o Brasil”, parabeniza o bandolinista, que aproveita para fazer uma homenagem a uma das suas maiores influências.
“E eu acho que o jazz, aí, é mais colocado como um ponto de encontro do que simplesmente um gênero fechado. É uma maneira de ver a música e a vida onde a espontaneidade e a criatividade fazem parte de forma definitiva, e eu fico feliz de poder levar meu bandolim e voltar à Bahia, de onde vem uma grande influência da minha música, que é Armandinho Macedo. Poder tocar bandolim na terra de Armandinho é maravilhoso, com certeza vou me emocionar muito”, completa.
O Festival Salvador Jazz terá sua programação iniciada sempre às 18h. Não é necessário ingresso – é só chegar e curtir.
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.
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