Ator baiano Sulivan Bispo estreia comédia no Teatro do Sesi

Espetáculo de comédia em pé, 'Koanza: do Senegal ao Curuzu', fica em cartaz até 30 de julho

Publicado sexta-feira, 15 de julho de 2022 às 05:15 h | Atualizado em 15/07/2022, 00:23 | Autor: Eugênio Afonso
Koanza é o meu primeiro desabrochar feminino”, revela 
o protagonista
Koanza é o meu primeiro desabrochar feminino”, revela o protagonista -

Sua personagem Mainha já faz parte da coleção de tipos cômicos, criados por atores baianos, que caíram no gosto popular, assim como Fanta e Pandora, de A Bofetada. Todo mundo sabe quem é a mãe de Júnior.

Agora, Sulivã Bispo, ator e idealizador de Mainha, estreia o espetáculo solo Koanza: do Senegal ao Curuzu, hoje, às 20h, no Teatro Sesi Rio Vermelho. Em cartaz até 30 de julho, sempre às 20h, a peça, que tem direção de Thiago Romero, só acontece às sexta-feiras e sábados.

“Esse é meu segundo espetáculo solo. É uma gargalhada, mas também um entrelace de conscientização. Koanza traz a força identitária regada de africanidade, de referências do candomblé de Angola pra contar a verdadeira história do negro, que sempre foi escondida por conta do racismo. Ela traz, através do humor, um processo de conscientização muito potente”, acredita Bispo.

Elegância e sofisticação

O espetáculo já tinha estreado virtualmente no período mais crítico da pandemia, mas só agora a comédia em pé Koanza... vai estar cara a cara com o público. Nele, a mãe de santo senegalesa volta à Bahia, após um tempo morando na África, com a missão de combater os discursos racistas contra as religiões de matriz africana.

Ao chegar, ela encontra o Brasil imerso em um turbulento processo político e racial, tendo à frente um presidente evangélico. É quando se vê desafiada a salvar o bairro do Curuzu das mãos da opressão religiosa e política.

Sempre elegante, a ialorixá rica, bem-sucedida no comércio de joias e tecidos, vai repartir, então, de forma bem-humorada, seus saberes ancestrais. Ela se posiciona como uma mulher  comprometida com a reafricanização das lutas antirracistas na diáspora negra. Tudo dito de forma chique, sofisticada, mas consciente da desigualdade social e econômica que nos assola. 

O ator conta que Koanza é seu primeiro desabrochar feminino. “É uma comédia que traz a questão da afirmação, da denúncia, do preconceito. Traz uma noção de futuro diferente e a partir do que a gente está construindo”.

Bispo conta que se inspirou em mulheres negras empoderadas para compor o personagem e poder falar com propriedade de combate ao racismo e intolerância religiosa. Entre as muitas musas, estão a secretária estadual de cultura Arany Santana (tia de Sulivã), Elza Soares, Ruth de Souza, Jovelina Pérola Negra, Michelle Obama, Oprah Winfrey, Maju Coutinho e as jornalistas baianas Maíra Azevedo (tia Má) e Rita Batista.

Humor reflexivo

E para os mais desavisados, esta não é a primeira vez que Bispo sobe aos palcos. Ele já esteve em cena com Kaiala, Rebola, Delicado, Anoitecidas e Madame Satã, só para citar espetáculos dirigidos por Thiago Romero, que também é ator, coreógrafo e arte educador, e segue dirigindo Sulivã em Koanza.

“Minha parceria com Sulivã está para além da relação diretor/ator. Já são sete anos de muitos espetáculos. Koanza já é um outro passo do que a gente vem desenvolvendo no sentido do solo, do monólogo. É um encontro proporcionado pelos orixás e a gente vem se afinando”, conta Thiago.

Ele explica que a personagem Koanza (nome de rio e da moeda de Angola) surge a partir do espetáculo Rebola e é fundamentada também na arte drag queen, e que o espetáculo é movido pela inquietação de debater narrativas pautadas pela intolerância.

“Koanza... expõe algumas violências presentes cotidianamente, mas também aponta caminhos de futuros possíveis. É também uma maneira de entender que as narrativas pretas não podem se limitar somente à dor e à violência”, constata Romero.

Para o diretor, a comédia é um gênero teatral potente para a ponderação das adversidades e dos impasses. “É um espetáculo que entende que o humor é um caminho possível para a reflexão. A gente tem um performer preto falando de suas narrativas e trazendo essas reflexões através do humor e da alegria”.

Sulivã Bispo concorda, mas reconhece que não dá para fazer piada com racismo. “Mas dá para se utilizar do humor para conscientizar e essa talvez seja uma das principais missões da minha vida”, finaliza.

Além de Bispo e Romero, Koanza: do Senegal ao Curuzu também é Nildinha Fonseca (direção de movimento/coreografia), Filipe Mimoso (direção Musical), Renato Carneiro (figurino), Guilherme Hunder (cenário), Alisson de Sá (iluminação), Beberes (maquiagem), Larissa Libório (direção de produção), Bergson Nunes e Sidnaldo Lopes (assistência de produção) e Carolina Magalhães (design/arte).

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