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UNIÃO SONORA

Bagum, Livia Nery e Vandal se apresentam na Sala do Coro do TCA

Nos bastidores, os ensaios têm sido o laboratório pessoal dos artistas, que buscam equalizar convergências

João Gabriel Veiga*
Por João Gabriel Veiga*
Apresentação será nesta terça-feira, às 20h
Apresentação será nesta terça-feira, às 20h - Foto: Divulgação

Quando elementos diferentes se misturam, a química pode resultar em uma substância nova e surpreendente. Por exemplo, ao misturar o jazz fusion, a MPB e o hip-hop, o resultado é um show conjunto do grupo instrumental Bagum com a cantora Livia Nery e o rapper Vandal. Com data marcada para hoje às 20h, na Sala do Coro do Teatro Castro Alves, a parceria de longa data ganha corpo no palco.

“A mistura é uma interseção do que cada banda, cada artista tem em comum. E, é claro, nesse processo vêm também as coisas que a gente não tem em comum. Por exemplo, a gente vem mais da música instrumental contemporânea, essa coisa do novo jazz. Livia tem o groove da MPB, Vandal tem a questão do grime (subgênero do rap)”, explica Gabriel Burgos, baterista da Bagum.

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“Tem as particularidades de cada um, mas também o que temos em comum enquanto artistas de Salvador, com influências da musicalidade afro-brasileira que é muito forte aqui. Essa mistura vem muito de um desejo mútuo de criar juntos”, acrescenta.

O início dessa colaboração vem de carnavais passados. “De certa forma, o elo da proposta do show, algo que a gente tá entendendo ao mesmo tempo que tá curtindo, é a Bagum”, diz Pedro Tourinho, baixista da banda. Em 2020, eles passaram a compor para Vandal: “Nesse processo, a gente foi se entendendo, vendo o que já não era tão a praia dele… Nesse pente fino, a gente chegou numa música que mandamos pra Livia, uma parceira nossa de cena já tem um tempo. Mas a gente tá desenvolvendo tudo do início ao fim, um fim que espero que não tenha, juntos”.

“A ideia pro show foi se moldando naturalmente”, conta Pedro. “A gente começou a conversar no ano passado, quando fizemos com Livia a música Era Você, e tava planejando o lançamento da música da Bagum com Vandal. A gente tava tentando entender, era um momento de retomada dos eventos presenciais, e começamos a pensar nas possibilidades. Depois de uma live que fizemos com Livia, a gente viu que nos entendemos bem no palco”, detalha.

Por sua vez, Livia Nery relembra a live com a Bagum e de como se surpreendeu com a banda quando eles apareceram com o disco dela na ponta da língua, já “desconstruído”.

“Quando gente fez a live juntos pro Goethe Institute, a gente conversou muito tentando entender se seria uma apresentação minha tendo a Bagum como banda base ou um show da Bagum e eu, ou seja, misturando músicas, eu entrando nas músicas deles e eles nas minhas. Naquela ocasião, eles trouxeram meu disco, Estranha Melodia, já todo reimaginado, arranjado. Mas a gente queria fazer algo que não fosse a Bagum me acompanhando. Eu entendo os meninos como identidade, como banda que tem uma linguagem desenvolvida, e eles dialogam com meu som”, observa Livia.

A cantora argumenta que, apesar de cada aresta do triângulo ter peculiaridades, o envolvimento é algo que faz sentido: “Para mim, tem alguma coisa em comum muito clara. Talvez seja porque a gente conversa muito e troca muita referência musical. Eu vejo que eu e a Bagum temos afinidades musicais muito próximas. Elementos do rock alternativo e do hip-hop instrumental existem no meu trabalho e na Bagum”.

“E Vandal é um cara com uma atitude hardcore de vida. Ele não se restringe ao rap. Ele é muito fiel ao hip-hop no sentido da comunidade, ele é um cara que realmente representa a rua, e ao mesmo tempo ele expande. Ele consegue fazer rima com a música da Bagum… A gente conversa muito, apesar de não ser muito óbvio à primeira vista. É uma conversa de atitude e respeito ao som, à composição. Admiramos uns aos outros”, completa Livia.

Tempo de colaborar

Nos bastidores, os ensaios para a apresentação têm sido o laboratório pessoal dos artistas. “Os ensaios acabam sendo tão interessantes quanto a apresentação, pelo menos para nós, artistas. É o processo, né, véi?”, diz Gabriel.

“Tem a troca musical de cada um aprender um pouco com o outro, além da animação. É um muito bom estar com dois artistas locais ali, isso nos faz exercitar a interpretação, como dar um apoio instrumental, pensar em interpretar com o que o show pede”, diz o baterista.

Para ele, trabalhar com Livia e Vandal implica em não apenas ouvir as músicas deles e, sim, pesquisar os backgrounds musicais, quem os inspira a fazer o som que fazem – coisa de quem quer realmente se aprofundar em universos musicais diversos.

“A gente tem uma influência muito grande do free jazz, e trabalhar tanto com Livia quanto com Vandal faz a gente entender o que o som de cada um deles tá chamando. A gente faz essa busca histórica do que o som deles traz, pegar e fazer nossa pesquisa disso, e trazer tudo pro show”, explica o baterista.

Livia Nery também acrescenta que esses momentos de ensaio servem para experimentar e ver quais ideias funcionam. Para eles, esse momento de retorno aos palcos é agridoce.

“Não tem como romantizar o que foi uma situação desastrosa”, lamenta Gabriel.

“Estamos tentando nos adaptar, entender as novas realidades, dar e ser suporte. Ficamos muito tempo remodelando formas de contato, e fazer música ao vivo é uma das melhores coisas do mundo. Digo isso como músico e como plateia, ainda mais com uma galera que nem a daqui de Salvador, que é de verdade, que se entrega ao som”, observa.

Já o contrabaixista Pedro louva o espírito de coletividade que une a banda e os dois artistas solo neste momento de retomada dos shows em palcos presenciais.

“Essa coisa dos três artistas diferentes no palco não é algo inédito, mas neste momento diz muito, não só sobre nossa vontade de nos reconhecer e estar juntos, mas também sobre fortalecer esses três artistas. É um momento precário, difícil. Querendo ou não, diz sobre uma saída que a gente vem pensando para essa precaridade, e que bom que é juntos!”, reflete.

Livia concorda com esse pensamento e diz: “A gente não vai se levantar sozinha, é algo que vai além do fortalecimento afetivo do coletivo”.

Ela conta que se preocupa com uma possível recessão no setor artístico: “Estamos tentamos entender a sustentabilidade de ser um artista no pós-pandêmico em Salvador. As pessoas estão com muita sede de palco, mas ao mesmo tempo a pandemia quebrou muita gente. As casas de show quebraram. Não tem casa de show pra 100, 200 pessoas. A Commons fechou, o Portela Café fechou, e não há opções novas no lugar. Essas casas eram muito importantes para a cena porque ninguém novo vai começar tocando no palco do Pelourinho, ou em estádio tocando para 500 mil pessoas. É uma perna que quebrou muito sensível pra nossa economia da cultura”.

No entanto, Livia defende que o caminho para fora da crise se dará através da união: “Com menos casas e palcos disponíveis, o quadro está mais fechado agora. Mas eu sempre trabalho com o pensamento de que não podemos criar um clima de hostilidade entre os artistas. Tem que ter a colaboração mesmo”.

* Sob a supervisão do jornalista Luiz Lasserre

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