MÚSICA
Bruno Capinan lança álbum inspirado nas sonoridades e raízes baianas
Nascido na Bahia, cantor e compositor é radicado em Toronto, no Canadá

Quem é da Bahia nunca esquece de onde vem. Para Bruno Capinan, isso é mais do que um fato. O cantor e compositor de 37 anos mora há mais tempo em Toronto, no Canadá, do que viveu em Salvador, o que não impediu de lançar, no mês passado, o sexto álbum de carreira, Tara Rara, que traz a Bahia do início ao fim.
Com 11 músicas autorais, o álbum já diz para o que veio logo na primeira faixa. Em Ode ao Povo Brasileiro, os toques da percussão são puxados nos segundos iniciais e avisam: ‘Sou sulamericano, eu sou de São Salvador / a Bahia já me deu e ninguém pode tirar’.
Para finalizar com a canção Bahia Brasil, Bruno entoa: “que a gente quer logo voltar / pro povo, pra terra, pro mar / pro mar da Bahia”.
“Tem Brasil no início e Bahia no fim. Você pode dar voltas mas tudo acaba na Bahia, foi onde tudo começou e onde tudo acaba. Embora tenha todas as dificuldades, todos os perrengues, tem um lado da dor que é luminoso, o céu e o Sol baiano, ali eu me sinto mais eu do que em qualquer outro lugar”, afirma Capinan, que sem perceber faz menção a outra faixa do disco.
Escolhida como primeiro single do Tara Rara, Qualquer Lugar fala de tudo menos de um lugar qualquer. Como pessoa não binária, preta e gay, Bruno exprime o desejo de ir para um local onde você pode ser quem é e volte a acreditar na bondade do mundo. Gravado na Chapada Diamantina, o videoclipe da canção exibe a intensidade da letra através dos cenários.
O Morro do Pai Inácio, a Gruta da Lapa Doce e a Fazenda Pratinha viram palco, e também personagens, da performance entre Bruno e o parceiro de cena, que rendeu ao clipe o prêmio de best audience impact (melhor impacto de audiência) da premiação norte-americana MVawards.
“Eu não tinha referências visuais, era captando aquilo ali, aquela natureza, e trazendo a mensagem da canção para as imagens, sobre estar por dentro do outro e ir para qualquer lugar para ser quem se é”, conta.
No entanto, Qualquer Lugar tem referências do trap, funk carioca e até mesmo da música baiana. É um passeio entre os ritmos que se espalhou na própria produção da canção, que aconteceu entre o Rio de Janeiro, Miami, Melbourne (Austrália), São Paulo e Toronto.
Produção itinerante
Não só o single, como todo o álbum foi produzido pelo mundo. Como reflexo de um trabalho realizado durante a fase aguda da pandemia, em julho de 2021, tudo aconteceu de forma virtual. As vozes foram gravadas em Salvador, instrumentos no Rio de Janeiro, São Paulo e Toronto, mixagem em São Paulo e masterização nos Estados Unidos.
A diversidade do Tara Rara também se estende às novas parcerias firmadas. Bruno convidou para a percussão o ritmista carioca Marcelo Costa – que já trabalhou com Lulu Santos, Caetano Veloso, Adriana Calcanhotto e Maria Betânia – e uma orquestra de músicos LGBTQI+, diretamente de Toronto.
O único companheiro de longa data é Bem Gil, que assume os violões. Todo esse fluxo de talento foi produzido pela paranaense Vivian Kuczynski, na época com 17 anos. Segundo Capinan, somente uma adolescente gay poderia redirecionar suas ideias para um lugar menos óbvio.
“É um disco de gerações. Tem o Marcelo de uma, depois vem eu e o Bem, e por último a Vivian, que é do universo eletrônico. São três gerações fazendo música brasileira e trazendo novas sonoridades”, declara.
Canadá
Da bossa nova, samba, trap, funk até a percussão baiana, a história de Bruno com a música é longa. Desde os 14 anos de idade já se arriscava nas composições, mas a certeza de que o caminho era no palco aconteceu através dos monólogos das aulas de teatro. No entanto, a maneira de falar e gesticular de Bruno incomodava algumas pessoas em volta.
“Eu fui embora para o Canadá por motivos de bullying, fora e dentro de casa, por ser gay, nem me assumi na época, mas por ser diferente. Já me sentia uma pessoa não binária, mas não sabia o que era na época. Depois de passar por um episódio violento saindo de uma balada em Salvador, aquilo me causou tanta dor que decidi sair. Falei para os meus pais que queria estudar fora, e quando cheguei eu falei que não voltava mais”, lembra Bruno.
Aos 18, quando se mudou para Toronto, estudou inglês e chegou a fazer um semestre de Relações Internacionais, mas a rota mudou completamente no momento em que começou a tocar e cantar em bares da cidade. “Os bares de pop, rock e eu lá tentando tocar Garota de Ipanema, era terrível, mas as pessoas falam que tava incrível e eu fui acreditando”, conta Capinan.
O primeiro disco veio em 2010, nomeado Gozo. Seis anos depois, Divina Graça chegou como terceiro e mais aclamado trabalho do cantor.
Na época, uma matéria do jornal britânico The Guardian descreveu a interpretação feita por “uma voz acrobática, sensual, tão angelical quanto profana”.
O que a Bahia tem
Com a trajetória até o mais novo lançamento, Bruno enxerga uma evolução não só vocal, mas de posicionamento artístico. “Tenho sorte de ter construído uma estrada com discografia, o legal é que todos (os álbuns) tem uma história, mas esse tem história e o ato, porque não adianta só falar e não fazer, não adianta ser politizado e não fazer. Se você for falar alguma coisa, ande conforme a música, e eu tô fazendo isso agora”, assegura.
Para Capinan, Tara Rara é o álbum que mais o representa. Ele nasceu de um sonho que teve onde dois homens negros escravizados se apaixonaram em um navio negreiro. Depois de ficar com a ideia por muito tempo na cabeça, entendeu que neste novo trabalho a presença da percussão era essencial.
Radicado no Canadá, dá para perceber que a Bahia não saiu e nem sairá do mundo de inspirações de Bruno. Com o lançamento, o cantor e compositor não quer deixar a geração atual esquecer os nomes que explicam o povo baiano, como Virgínia Rodrigues, Dorival Caymmi e Carybé.
“Quem é da Bahia tem um apego que fora dela, a saudade exacerba, e quando volto para Salvador eu me sinto mais eu do que em outro lugar”, diz Capinan, que define Tara Rara como “um disco Bahia mística de uma gay nostálgica”. Disponível em todas as plataformas musicais, as canções do álbum já entraram em shows do artista em Toronto e Cabo Verde (África). Em outubro pretende desembarcar aqui no Brasil.
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.
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