Salvador é mundialmente conhecida como a "terra do trio elétrico". Mas se você fechar os olhos, ouvirá o eco de um surdo de marcação que, há 70 anos, ditava o ritmo do Carnaval da capital baiana.
A Bahia é diversa e, nela, o samba sempre terá um lugar de honra
Antes de Caetano Veloso anunciar que "atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu", milhares de baianos desfilavam em alas, com porta-bandeiras e enredos luxuosos, provando que a Bahia, berço do samba de roda, também sabia ser escola.
O despertar

Segundo o historiador e jornalista Nelson Varón Cadena, até a década de 1950, o que se via nas ruas eram "cordões" ou "batucadas" — grupos que desfilavam em linha reta, cercados por cordas.
"Houve uma escola de samba do Rio de Janeiro, do segundo grupo, que fez uma apresentação aqui. Isso mexeu com o brio dos sambistas baianos", revela Cadena.

A partir dali, o que era batucada virou espetáculo. Surgiram as "três grandes": Juventude do Garcia, Filhos do Tororó e Diplomatas de Amaralina.

Nesse cenário, o público era um observador pacato, conforme Cadena. "As pessoas colocavam cadeira na rua, ninguém roubava", relembra o historiador.

"A prefeitura baixava decretos proibindo as cadeiras, mas todo ano elas voltavam. Só acabaram na marra, quando os trios elétricos encurtaram o espaço e expandiram de uma forma que acabaram atropelando as cadeiras do povo", conta.
A voz do morro

No bairro do Engenho Velho de Brotas, um reduto de forte tradição cultural, crescia Vicente de Paula. Cantor e compositor de 77 anos, ele é a personificação da "concepção da literatura" das ruas.
Mesmo com pouco estudo formal, Vicente tornou-se um dos maiores cronistas do samba baiano.
"Eu tinha um interesse muito grande pelas coisas. Só andava no Tororó e fiz até samba de enredo: 'É carnaval, é carnaval, o fantástico show da vida... de norte a sul desse país, o carnaval é enriquecido pelas cores alucinantes do ritmo'", canta Vicente, com a memória lúcida de quem venceu pelo talento.
Ele recorda a rivalidade sadia com o Garcia: "Aquele povo do Garcia sempre foi tirado a 'gás com água' (metido), e eu não era. Eu tinha fé em mim".
Vicente logo foi para as ondas do rádio, trabalhando na Piatã e na Bandeirantes, provando que o samba de Salvador tinha alcance e audiência. "Eu não era linha de frente, mas eu ganhava para eles [os grandes]. Eu ganhei umas quatro vezes", diverte-se contando.

Metamorfose
O declínio das escolas não foi por falta de ritmo, mas por uma mudança de paradigma, de acordo com Cadena. Na década de 1970, o "Caetanismo" e a explosão midiática dos trios elétricos empurraram as agremiações para a margem.
Cadena explica que as escolas, para sobreviverem, tiveram que se reinventar no formato de Blocos de Índio, como os Apaches do Tororó.
“O luxo das plumas deu lugar à pintura de guerra e às vestimentas de palha, uma estética que se adaptava melhor à nova dinâmica das ruas”, exlpica o historiador.
Resistência

Se para alguns as escolas de samba são coisa do passado, para os irmãos Nailton e Binho Maia, elas são o futuro. Fundadores da Unidos de Itapuã em 2007, eles mantêm viva a chama em um dos bairros mais ancestrais da cidade.

"A gente entrou nesse mar que a gente não sabia, mas hoje o que mantém é a nossa resistência", afirma Nailton. Com 120 integrantes, a escola desfila na Lavagem de Itapuã e no Circuito das Águas, longe dos holofotes da Barra-Ondina, mas nos braços da comunidade.
"A luta é diária. A gente precisa mostrar para a Bahia toda que tem escola de samba em Salvador e fortalecer essa cultura", reforça Nailton.
Nessa frente de batalha cultural, surge a figura de Verena Assis, 30 anos, rainha de bateria da Unidos de Itapuã.
Para ela, o samba é uma afirmação de identidade. "A Bahia, antes de ser terra do trio elétrico, é terra do samba, samba de caboclo, samba raiz", defende.

Verena traz o glamour e a técnica para o asfalto de Itapuã, desafiando preconceitos e olhares descofiados de quem acha que o Carnaval de Salvador sempre foi trio elétrico.
"Dizemos que baiana também samba no salto 15, com muito orgulho e carisma. Meu coração é o samba. Salvador tem escola de samba, sim, e não deve nada a nenhum deles [Rio ou São Paulo]", afirma a rainha de bateria da Unidos de Itapuã.
Sobrevivente
Varios foram os relatos de que o samba em Salvador é um sobrevivente. Pois, resistiu à perseguição policial do século XIX, ao descaso da mídia no século XX e à hegemonia do Axé no século XXI.
Personagens como Vicente, Cadena, os irmãos Maia e Verena Assis são os elos de uma corrente que se recusa a romper.
Enquanto houver um batuque em Itapuã ou um compositor no Engenho Velho de Brotas, a frase de Verena continuará ecoando como uma verdade absoluta: “a Bahia é diversa e, nela, o samba sempre terá um lugar de honra”.
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