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SOTAQUE AFRICANO

Axé music extraiu sua essência vital da África

Está na África a ‘raiz de todo o bem’, fonte que mantém a axé music pulsante até hoje

Por Priscila Dórea

26/02/2025 - 2:00 h
Força da cultura afro é sentida em toda a cena da axé music
Força da cultura afro é sentida em toda a cena da axé music -

Ao celebrar continuamente a riqueza cultural da Bahia e do Brasil, a axé music é fruto de uma mistura diversa de ritmos que têm suas raízes fincadas na cultura afro-brasileira. Letras, composições, arranjos, danças, roupas e a estética de forma geral - a cultura afro está presente em cada um desses aspectos da axé music, desde a sua criação até hoje. Afro-baiano e afro-nacional, o gênero é único, peculiar e tão culturalmente misturado quanto o próprio brasileiro.

“A axé music é um movimento que bebeu de várias fontes. A guitarra tem um sotaque africano que não esconde que as manifestações e movimentos que vieram antes dele são sua inspiração. Bailes, afoxés, escolas de samba, blocos de índio e blocos afro, a axé music bebeu de tudo isso, de todos esses carnavais”, explica o mestre em educação musical e professor de música do Centro Cultural Oficina Reciclável (CCOR), Mário Pam, percussionista regente do Ilê Aiyê e coordenador da Associação Cultural Tambores do Mundo.

Assim, o axé seguiu um rito cultural que se tornou comum na cidade de Salvador. “Ele evoluiu musicalmente ao misturar os elementos rítmicos e estéticos da rua. Porém, muitos desses ritmos e suas composições não eram tocados nas rádios, eram cultivados nos bairros e ganhavam o povo, que os cantavam no Curuzu e no Pelourinho, por exemplo, independente do que estava na mídia. Isso não dá para conter ou esconder, e essa musicalidade resistente fez parte do manifesto da axé music”, explica Mário Pam.

Aassim como o Carnaval de rua de Salvador, o axé começa nas comunidade negras dos bairros da cidade, aponta o pesquisador, percussionista e compositor Jorjão Bafafé, Ogan do Terreiro de Jagum (Engenho Velho de Brotas), um dos fundadores do afoxé Badauê (extinto) e do bloco afro Okànbí. “As culturas afro-brasileira e afro-baiana estão sempre incluídas em tudo, pois a mistura africana ancestral dos primeiros que chegaram aqui permanece e não deve ser escondida. E nem tem como, né? Um pouco de África sempre estará presente”, defende.

Isso mostra o quanto a afro-brasilidade resulta da sofisticada resistência das populações não-brancas no País. “Temos um fenômeno de exclusão pulverizada, em que a possibilidade de identificar o racismo na estrutura das nossas vidas, principalmente das gerações antes da minha, foi complexa. Esses sofisticados modos de organização produziram a verdadeira cultura brasileira e baiana, como a culinária brasileira de origem africana e indígena, os ritmos, a capoeira e todas as vestes que herdamos desse período de resistência colonial”, explica a doutora e professora Carol Barreto.

Professora do Departamento de Estudos de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a artista, ativista e criadora do conceito de Modativismo, Carol Barreto, explica que esses são elementos de resistência produzidos com a mesma finalidade. “Falar da nossa cultura, reacender a nossa identidade, auxiliar a população baiana, não somente brasileira, na construção de um imaginário de baianidade e, consequentemente, de brasilidade. Nos habituamos aos modos de segregação e discriminação, mas acredito na importância da produção desse imaginário positivo”, afirma.

Carol cita pessoas como Margareth Menezes, Márcia Short e Mariene de Castro, que constroem essa baianidade positiva através de suas músicas. “Margareth canta Egito e faz a gente lembrar que esse Egito é preto, que está em África e não nas produções hollywoodianas ou qualquer outra produção cinematográfica que coloque atrizes brancas e atores brancos de cabelo liso. Essa é uma grande contribuição para que a gente se veja com o valor que vai muito além da subalternidade que o racismo desenhou”, explica.

Precursora da axé music, a cantora e vocalista da Banda Mel, Márcia Short explica que o gênero é como uma árvore: foi plantado, adubado, cuidado e cresceu cheio de frutos. “Surgiram a Banda Reflexu’s, Durval, Ivete e a própria Banda Mel, e muito foi extraído da axé music. Extraíram pra caramba, mas esses frutos amadurecem, alguns foram perdidos, enquanto a raiz não foi alimentada. É daí que muitos tiram a ideia de que o axé está morto ou chegando ao fim, mas a verdade não é essa. O que precisamos fazer é voltar a fazer o dever de casa, voltar a Ramiro Musotto, a Neguinho do Samba. Nós por nós”, afirma.

Axé vivo

A relação do público com a axé music permanece mais viva do que nunca. “Um bom exemplo disso é a Banda Mel. Tem 40 anos de história, mas estamos voltando depois de anos parados. Então, no Carnaval de 2024, quando desfilamos na segunda-feira no circuito Osmar, fiquei muito nervosa, achando que o público não iria vir, não iria brincar com a gente. E qual não foi a minha surpresa quando uma multidão seguiu cantando junto? É o tipo de resposta que só faz a gente agradecer e ansiar pelo próximo encontro. Me emocionei em muitos momentos”, recorda Márcia Short.

A singularidade que advém da diversidade a partir da qual a axé music foi criada talvez seja o que mantém o ritmo tão presente e vivo mesmo hoje, quando outros estilos musicais, como o chamado pagodão baiano, estão ganhando força no Carnaval. A axé music continua se adaptando e bebendo de novas fontes. Um bom exemplo disso é a moda. A professora Carol Barreto aponta que é importante ampliar a compreensão de moda para além do vestuário para perceber o poder e significado das roupas que vestimos, pois isso é comportamento e diagnóstico da mentalidade de um tempo.

“A partir daí, produzimos cultura e aparatos discursivos, pois o nosso corpo discursa alegria, pele, e fala de movimento, algo muito específico da baianidade e do Nordeste, nos diferencia de dentro para fora. Então tudo aquilo que aparece, que está na nossa aparência em termos de escolha vestimentar, estética e cosmética é resultado daquilo que a gente constrói como sociabilidade, principalmente como a gente lida com o nosso corpo numa cidade litorânea, onde mostrar a pele e se bronzear por muito tempo, por exemplo, já significou algo negativo. E hoje todas as comunidades de outros estados vem em busca disso, de um pouco da nossa alegria de viver”, explica Carol.

Para saber mais

Filme Axé: Canto do Povo de um Lugar (2017) – Com direção de Chico Kertész e pesquisa do jornalista James Martins, o documentário traça uma linha genealógica e cronológica do movimento, a partir de entrevistas com os principais cantores, compositores e empresários que ajudaram a construí-la ou que dialogaram com a cena, como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Também traz muitas imagens e uma trilha sonora que dá vontade de sair dançando. Disponível na Netflix.

Exposição Axé: A Força Sonora e Visual de um Movimento Em cartaz na Caixa Cultural, a mostra destaca as atuações do artista visual Pedrinho da Rocha, criador do abadá e responsável por boa parte da identidade visual das marcas, artistas e blocos; e do empresário Wesley Rangel, que comandou o estúdio WR, fundamental para fomentar a carreira dos principais cantores e grupos da axé music. Visitação até 16 de março, na Rua Carlos Gomes, de terça a domingo, das 9h às 18h.

Especial Axé, 40 Anos de Magia: Com coordenação e o roteiro assinados pelos jornalistas Alexandre Lyrio e Camila Marinho, o programa mistura linguagem de documentário e reportagem, e reconstrói, inclusive com o uso de Inteligência Artificial, instantes marcantes do surgimento e consolidação da axé music. Dentre eles, o local exato em que Luiz Caldas e Paulinho de Camafeu compuseram a primeira parte da letra de Fricote ou a reunião dos cantores originais da Timbaladas, para refazer o clip de Beija-Flor. Disponível no Globoplay.

Ana Cristina Pereira

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