FÔLEGO DE MENINO
Com três shows na folia, Paulinho Boca de Cantor fala das apresentações
Paulinho Boca de Cantor também relembra sua breve participação nos primórdios da axé music
Por Grazy Kaimbé*
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No ano em que a axé music comemora 40 anos, Paulinho Boca, um dos fundadores dos Novos Baianos, resgata sua conexão com o movimento. Ele fará três apresentações solo durante a folia em Salvador.
Os shows acontecem na sexta-feira (28), na Praça Castro Alves, às 19h; na segunda-feira de Carnaval, na Praça Pedro Arcanjo, no Pelourinho, às 23h; e na terça-feira, dia do encerramento da festa momesca, no Rio Vermelho, às 17h30, no palco do Largo da Mariquita.
O cantor preparou um repertório que transita por diferentes fases da música baiana. Entre os destaques, ele interpretará O que é que essa nega quer (Luiz Caldas e Paulinho Camafeu, 1985), Fricote (Luiz Caldas e Paulinho Camafeu, 1985), Ajayô (Carlinhos Brown, 1986) e Baianidade Nagô (Gerônimo e Vevé Calazans, 1987).
O show também incluirá Cometa Mambembe (Carlos Pita, 1986) e Sintonia (Moraes Moreira e Pepeu Gomes, 1986), além de clássicos dos Novos Baianos. Trazendo um gostinho do Carnaval de Pernambuco para o solo baiano e mantendo a tradição do frevo na folia, o cantor também traz ao palco Frevo Doido (Osmar Macedo, 1975) e a icônica Chame Gente (Moraes Moreira e Armandinho, 1986).
“Escolhi esse repertório porque ele reflete minha trajetória e minha ligação com a música baiana. Quero celebrar a axé music, que marcou a história do Carnaval, mas também manter vivas as raízes dos Novos Baianos e de outros movimentos que influenciaram minha carreira. Gosto de valorizar ritmos tradicionais, como o frevo baiano, trazendo essa conexão entre diferentes épocas da nossa música", detalha Paulinho.
Paulinho Boca tem uma relação de longa data com o Carnaval de Salvador. Ao lado dos Novos Baianos, foi um dos primeiros a colocar som de voz no trio elétrico, abrindo caminho para a evolução dos blocos carnavalescos.
“Em 1976, conseguimos levar o trio elétrico dos Novos Baianos para o Carnaval e seguimos com ele até os anos 1980. Depois, cada um trilhou sua carreira solo. A Baby tem o show dela, o Pepeu também. Muita gente pergunta sobre uma reunião, mas a questão logística e financeira torna isso mais complicado. Os Novos Baianos têm uma estrutura grande, com músicos vindos de diferentes lugares, o que nem sempre é viável. Ainda assim, nunca descartamos essa possibilidade para o futuro”, conta Paulinho.
Segundo a programação da prefeitura de Salvador, ambos os artistas dos Novos Baianos se apresentam no Centro Histórico. Pepeu Gomes fará um show especial na Praça Castro Alves, no dia 1º, com a participação de Baby. Além disso, a cantora deve levar às ruas o bloco "Os Arrebatados", inspirado em uma conversa sobre o apocalipse entre ela e a cantora Ivete Sangalo, no Carnaval do ano passado.
Paulinho e a axé music
Neste ano, o cantor celebra 50 anos de folia no Carnaval de Salvador e relembra uma conexão curiosa com o início da axé music: a gravação de Deboche, composta por Paulinho Camafeu (1948-2021) em 1985, antes mesmo do lançamento de Fricote, de Luiz Caldas e Paulinho, canção amplamente reconhecida como o marco inicial do gênero. As duas músicas possuem trechos de letra semelhantes, evidenciando a influência de Camafeu na sonoridade que viria a definir o ritmo musical.
Em um texto publicado nas redes sociais, o jornalista e historiador Nelson Cadena relembrou a semelhança entre as duas músicas compostas por Paulinho Camafeu.
“No verão de 1985, os baianos ouviram duas músicas, ambas composições com a participação de Paulinho Camafeu, o que explica a semelhança do ritmo e alguns trechos da letra idênticos. A primeira, Deboche, interpretada por Paulinho Boca de Cantor, e a segunda por Luiz Caldas. Os versos idênticos são: ‘Pega ela aí, para quê? Para passar batom, para quê’... O elo entre as duas músicas, como referido, é Paulinho Camafeu”, escreveu Cadena.
“A lógica dessa história sugere que Paulinho Camafeu tenha aproveitado um trecho da letra quando compôs o Fricote. O importante é que as duas músicas fazem parte do nascedouro da axé music, em 1985. Com o mérito dos compositores, intérpretes e arranjadores”, acrescentou o historiador.
À reportagem, Paulinho contou que a publicação de Cadena e uma ligação do jornalista o fizeram recordar de sua participação no surgimento da axé music. “O jornalista e historiador Nelson Cadena me lembrou que gravei Deboche, que, de certa forma, se conecta com Fricote. O maestro Alfredo Moura, responsável pelo arranjo de Fricote, disse que se inspirou na minha gravação”, conta o Boca.
“Não faço parte da axé music, mas, de certa forma, estive presente no início desse movimento”, acrescenta.
Ao longo dessas cinco décadas de carreira, Boca acompanhou as transformações da música baiana e brasileira. Testemunha do surgimento da axé music e da consolidação de diversos estilos, ele vê com bons olhos a nova geração de artistas, embora sinta falta de um cuidado maior com a composição e a musicalidade.
Para ele, cada época tem suas particularidades e seu impacto cultural, e a cena musical da Bahia segue forte e em constante renovação. "Acho que tudo tem seu tempo e seu espaço. Não gosto de falar que uma época era melhor que outra. A música sempre reflete o momento. O importante é que a música baiana segue viva e forte, com novos nomes surgindo", conclui Paulinho.
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.
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