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Força afro já é marca do Carnaval em 2024

Preparativos dos blocos afro e afoxés ganha novo fulgor após exaltação da cultura negra baiana

Publicado domingo, 21 de janeiro de 2024 às 06:00 h | Atualizado em 21/01/2024, 09:07 | Autor: Priscila Dórea
O Mais Belo dos Belos, primeiro bloco afro do Brasil, comemora 50 anos em 2024
O Mais Belo dos Belos, primeiro bloco afro do Brasil, comemora 50 anos em 2024 -

Saindo de um ano onde a cultura negra baiana foi exaltada nacional e internacionalmente – foi Salvador Capital Afro, Afropunk, Liberatum, premiere de Beyoncé em Salvador…–, os preparativos dos blocos afro e afoxés para em 2024 parece ter ganhado um novo fulgor. Comemorando 50 anos do Ilê Aiyê, o Mais Belo dos Belos e primeiro bloco afro do Brasil – quiçá do mundo –, o Carnaval de Salvador em 2024 tem tudo para ficar marcado na história.

“Comemorar os 50 anos do Ilê é reafirmar a existência de todos os blocos afro”, aponta Antônio Carlos dos Santos, o Vovô do Ilê, fundador do Ilê Aiyê. Os blocos afros resistem diante das dificuldades, mas elas não surgem por pouco preparo, aponta Vovô, e sim por falta de incentivo e apoio. Os holofotes se voltaram para a Bahia em 2023 com tantos festivais e movimentos, mas ainda é preciso tornar esse reconhecimento sólido e benéfico a longo prazo.

“É como sempre digo, os empresários não são capitalistas e sim racistas, convenientes. Aconteceu muita coisa no ano passado, mas nós ainda não vimos o real fruto disso. Porém, diante das conversas que temos tido com o poder público, acredito que estamos no caminho de um apoio duradouro”, aponta Vovô. O Ilê Aiyê desfila em 2024 sob o tema “Vovô e Popó, com a benção de Mãe Hilda Jitolu. A invenção do Bloco Afro. Ah, se não fosse o Ilê Aiyê!”, mas não será o único a homenagear os 50 anos do Mais Belos dos Belos.

O próprio governo do estado, que disponibilizou quase R$ 15 milhões (o dobro de 2023) para o edital Carnaval Ouro Negro – que beneficiou 132 blocos e grupos afro, e afoxés –, tem como tema este ano “Nossa energia é ancestral”. Assim como o Cortejo Afro, que este ano completa 26 anos, e que irá às ruas com o tema “Meio Século dos Blocos Afro: Ah, se não Fosse o Ilê Aiyê”, conta o artista plástico, fundador e diretor do Cortejo, Alberto Pitta.

“O Cortejo Afro é o único bloco afro sem um nome, pois ele é um pouco de todos os outros, então é de imensa importância homenagear o Ilê, o precursor de todos nós. Hoje se fala muito sobre afrofuturismo como algo recente, mas sempre fomos afrofuturistas. Foi afrofuturismo o que aqueles jovens fizeram 50 anos atrás ao criarem o Ilê. Não podemos reembalar uma coisa para classificar o que a gente já faz”, afirma Alberto Pitta.

Antropólogo, professor da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), e pesquisador de culturas negras e relações raciais, Ari Lima ressalta que os afoxés e blocos afro-carnavalescos baianos são um importante repositório de inúmeros saberes dos povos africanos. “Todos os blocos e afoxés são um desdobramento de experiências comunitárias, religiosas e artísticas concebidas e transmitidas oral e coletivamente”, ressalta. 

“Sem desmerecer a força e importância de todas as outras entidades carnavalescas que inspiraram ou foram inspiradas pelo Ilê Aiyê, a meu ver o Ilê Aiyê se tornou o nosso maior patrimônio cultural, e também uma referência política importante no que diz respeito à contestação e proteção contra o racismo antes, durante e depois do Carnaval, valorizando e atualizando o legado dos nossos ancestrais africanos”, explica o antropólogo.

Força da matriz 

É importante ainda ressaltar a força das religiões de matrizes africanas que conduzem, regem e movem os blocos afro, aponta a professora da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), mestre em dança, e especialista em história social e cultura afro-brasileira, Vânia Oliveira. Ela explica que, “em uma sociedade onde ainda se vive muito a violência e o racismo religioso”, os terreiros de candomblé são a cumilheira e a mola dos blocos afro. 

“Falar sobre eles, é falar sobre respeito à ancestralidade, aos mais velhos, aos cultos e aos orixás. Mas, sobretudo, é entender que da porteira do terreiro para fora, a gente continua revigorando e enaltecendo esse movimento, com os blocos afro e afoxés desfilando nas ruas potencializando a presença viva dos terreiros”, explica Vânia Oliveira, que já foi Rainha do Malê Debalê (2000 e 2006) e Princesa do Ilê Aiyê (2001 e 2014).

E essa é só mais uma das tantas razões do porque é inegável que esse novo olhar que a cultura afro vem ganhando, especialmente em Salvador, é mais do que merecido, afirma o presidente do Afoxé Filhos de Gandhy – que em 2024 completará 75 anos e terá como tema “Beleza Pura”, uma homenagem a Caetano Veloso – Gilsoney de Oliveira. “Nós vivemos na maior cidade negra fora da África. É mais do que pertinente ter esse reconhecimento e fortalecimento das identidades que melhor representam a cultura afro-brasileira”.

E mudanças assim acontecem até mesmo dentro dos próprios blocos afro, como bem exemplifica o presidente do Olodum, Marcelo Gentil. Quando foi criado, há 45 anos, o Olodum, que desfila em 2024 sob o tema Wodaabe, o povo do sorriso, uma história de beleza, diversidade e poder feminino, era apenas um bloco de carnaval. “Foi João Jorge que mudou isso. Quando ele foi convidado para ser presidente, disse que só aceitaria se o Olodum se comprometesse com a qualidade de vida do entorno da sede, em especial as crianças e adolescentes, enfrentando o racismo e trabalhando na criação social. Foi assim que ele transformou o Olodum nesse vulcão do Pelô”, afirma.

E em meio a todo esse trabalho ligado ao social e cultural feito 365 dias por ano nos blocos afro e afoxés, existe o apoio do poder público, que vem crescendo nos últimos tempos. “A prefeitura de Salvador e o governo do estado estão travando uma espécie de competição saudável onde todos ganham: eles e nós, blocos, afoxés e artistas negros. É importante que eles continuem empenhados e dedicados assim daqui para frente, assim ganhamos todos nós”, acredita Marcelo Gentil.

Presidente da Liga de Blocos Afro e Afoxés e do Malê Debalê  – que também completa 45 anos em 2024 e desfilará sob o tema Nordeste É Tudo de Bom”  –, Claudio Araújo explica que hoje o enfrentamento cultural de Salvador pulsa no Brasil. e a escolha por esse tema, afirma ele, visa esse momento em que a Bahia está possibilitando que o Brasil viva a sua cultura.

“É ter em Palmares um jovem presidente (João Jorge) que faz muito pelos fazedores de cultura. É ter Margareth Menezes abrindo horizontes para a cultura do Brasil. Não é soberba, é puro merecimento. Com tudo que aconteceu em 2023, a nossa agenda tem estado ocupada e isso é sensacional, mas o nosso sonho agora é que esse momento de mídia realmente dê um retorno financeiro para todos”, aponta.

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