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ESTREIA

‘Sing Sing’ foge do maniqueísmo barato e mostra força dramática

Filme conta história real de grupo de detentos em um presídio que descobre no teatro um caminho para a redenção

Por João Paulo Barreto | Especial A TARDE

16/02/2025 - 0:00 h
Imagem ilustrativa da imagem ‘Sing Sing’ foge do maniqueísmo barato e mostra força dramática
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Existem duas formas de se analisar um filme como Sing Sing. Uma é pelo viés comparativo entre os sistemas carcerários brasileiro e estadunidense. Tal forma, no entanto, corre o risco de escapar do teor analítico de dois diferentes universos que, de um lado, possui um investimento estatal maior e uma organização social mais ampla (porém, não menos racista) pendendo a balança de forma, obviamente, injusta para com o falido sistema brasileiro.

Seguindo por essa forma de se adentrar na proposta dessa obra baseada em fatos reais, corre-se o risco de se abraçar um desnecessário cinismo ao lembrarmos dos depósitos de gente que as prisões do nosso país, infelizmente, representam.

Importante salientar que a definição "falido", aqui, não é utilizada de maneira displicente ou sem um embasamento. Em entrevista a este escriba no ano de 2017, o diretor Aly Muritiba, que antes de se tornar cineasta, trabalhou como agente penitenciário e realizou três excelentes filmes sobre o tema, demonstrou toda desesperança que sentia ao comentar sobre as engrenagens prisionais brasileiras e sua quase total incapacidade de ressocializar cidadãos. Dentro de uma realidade praticamente ignorada pelo poder público e regida por uma corrupção interna que envolve tanto carcereiros quanto detentos munidos de poder dentro e fora dos presídios, qualquer ideia de que exista possibilidade de tais pessoas serem ressocializadas torna-se inexistente.

A outra forma de se analisar Sing Sing vem de um conceito de importante poder nesse processo. Trata-se do conceito transformador da arte como ponto catalisador de mudanças. O mesmo, aliás, sobressai-se de qualquer ideia baseada no cinismo crítico diante de uma realidade corrompida pela violência. E se a análise desse conceito através do cinema, aqui, possui uma origem em fatos reais reencenados pelos próprios beneficiados por tais mudanças, bom, aí a coisa muda de figura por escapar de qualquer proposta exclusivamente romântica, ingênua ou maniqueísta.

Passa-se a possuir, então, uma confirmação da possibilidade de alterações das vidas dentro do cárcere para melhor. E é com essa sensação de que há esperança que Sing Sing nos deixa como espectadores.

Arte redentora

O título do filme refere-se ao nome do presídio de Sing Sing, instituição de segurança máxima localizada no estado de Nova York. Lá, um grupo de detentos organiza um programa interno de aulas teatrais e montam espetáculos. Todo o filme, dirigido por Greg Kwedar, conta com a presença dos próprios detentos representando a si mesmos, o que ratifica o que foi pontuado anteriormente acerca da não romantização falsa de acontecimentos reais. O poder transformador das artes é concreto para aquela pessoas.

Liderando o elenco de atores não profissionais, está Colman Domingo, ator cuja presença em diversas produções e atuação constante nos palcos, define bem a ideia de ator/operário. Em Sing Sing, ele representa John ‘Divine’ G. Whitfield, o detento real e um dos fundadores do programa de teatro dentro do presídio.

Domingo, com sua postura de homem comum, o chamado "everyday man", transmite bem a presença necessária diante de atores não profissionais com os quais atua. Em suas cenas, principalmente aquelas junto a Clarence Maclin, que interpreta a si mesmo, encontram, por escolha do próprio Domingo, uma igualdade necessária de pares.

Válido salientar que, mesmo tendo em Sing Sing seu primeiro filme (e, já de cara, uma indicação ao Oscar), Maclin não fica para trás e entrega, ao lado do experiente ator protagonista, uma presença em cena que não se reduz somente a uma animosidade ou marra advinda de seu personagem presidiário.

Domingo, sendo o protagonista do filme e interpretando um dos líderes daquele grupo, sabe disso. E é perceptível o cuidado do ator em elevar a atuação de seus pares em cena, permitindo que cada um deles brilhe de forma igual na preparação para as figuras clássicas tanto da literatura quanto da cultura pop que eles vão viver na futura montagem que preparam após o êxito obtido com Sonho de Uma Noite de Verão. Muito disso, óbvio, é mérito, também, do diretor Greg Kwedar.

Reconstrução humana

Em seu processo de filmar cada ator individualmente na labuta da criação de seus respectivos personagens tanto dentro da peça a ser encenada quanto no filme no qual atuam (lembrando que eles interpretam a si mesmos), o diretor de Sing Sing cria um brilhante exercício de metalinguagem ao colocar seus próprios profissionais revivendo momentos-chave em suas vidas dentro daquela premissa de ressocialização. Então, quando o filme os traz experimentando figurinos e testando elementos físicos de cenário para criar a ilusão cênica no palco (as ondas do mar oriunda de metros de plástico encantam), e sabendo que aquilo se trata de uma dramatização de fatos reais, é difícil não se contagiar. E em Colman Domingo como figura central naquela busca pela quitação de suas dívidas para com a sociedade, o longa tem seu farol.

Vivendo um personagem cuja acusação criminal se torna dúbia como percebemos durante o filme, Domingo, na pele do real John Whitfield, cria uma figura em busca da prova de sua inocência e que, no processo, encontra no tablado um foco para não enlouquecer.

Sua vocação teatral é genuína e o ator consagrado que vive aquele detento/ator condenado a um crime que busca provar não ter cometido, sabe usar aquele peso de esconder em um sorriso o desespero. Na cena em que explica a um agente de condicional o que busca no programa de teatro co-criado por ele, por exemplo, a importância que aquela arte tem para si próprio resplandece em sua fisionomia. E quando uma pergunta cínica lhe é trazida de maneira a fazê-lo desmoronar em sua descrença, o ator entrega exatamente o citado desespero de se ver encarcerado por um crime que busca provar não ter cometido.

Que bom que podemos ver esse sentimento de peso se tornar algo mais sublime em um último momento, quando até a percepção do ar respirado por um homem livre é mais leve. Talvez o mesmo ar que o nutria em cima do palco ou durante os ensaios. O ar da liberdade contido na arte.

Sing Sing (Idem) / Dir.: Greg Kwedar / Com Colman Domingo, Clarence Maclin, Divine G, Paul Raci, Sean San Jose, Johnny Simmons, Sean Dino Johnson, Brent Buell, Jon-Adrian Velazquez / Salas e horários: cinema.atarde.com.br

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