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‘Super/Man - A História de Christopher Reeve’ traz a noção precisa de resiliência

Além de símbolo da cultura pop, Christopher Reeve se tornou um emblema da fé em si mesmo

João Paulo Barreto
Por João Paulo Barreto
Clark Kent
Clark Kent - Foto: Reprodução

“Acredito que é o trabalho de um ator – e eu uso a palavra ator e não atriz, porque a palavra atriz não faz sentido – é trabalho do ator evitar impedimentos ao seu desempenho. É função do ator lutar por cem por cento de eficácia. Naturalmente, nunca conseguimos, mas é a busca que é significativa”. A citação acima é da personagem infantil de Trudi Fraser, pequena atriz (ator?) que interpreta a garotinha tomada como refém por Rick Dalton em Era uma vez... em Hollywood (2019), jovem clássico de Quentin Tarantino. Ler essa citação pode causar certa indignação pelo modo como o roteirista se refere à palavra “atriz” (segundo ele, a palavra ator engloba a labuta como um todo), mas a intenção aqui não é provocar, mas, sim, perceber o que ele chamou de “busca"”.

Dito isso, é muito provável que algumas das críticas que serão publicadas sobre Super/Man - A História de Christopher Reeve salientem o aspecto relacionado à sintonia exata entre personagem e ator que, não com muita frequência, o cinema permite criar a partir de uma escolha perfeita de elenco e da citada busca pelos 100% no trabalho de atuação. Os exemplos não são muitos, mas, os que existem, trazem com admiração e assombro aquilo que a criação de um papel a partir do esforço da pessoa que vai encarná-lo o torna eterno.

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Exemplos como o Marlon Brando e Robert De Niro na pele de Don Corleone. Meryl Streep transformada em Sophie Zawistowski. Al Pacino sendo Scarface. Brad Pitt encarnando o anárquico Tyler Durden. Heath Ledger vivendo o Coringa. Personagem e ator em simbiose tão precisa que o rosto do seu interprete se torna a nova face daquela figura fictícia – observe que excluo dessa seara papéis baseados em pessoas reais uma vez que a base de criação é outra.

Símbolo pop e de luta

Seguindo a ideia de equilíbrio quase esquizofrênico entre duas pessoas em um só corpo, o jovem Christopher D'Olier Reeve, aos 26 anos, em 1978, alcançou essa perfeição a partir de um personagem não somente fictício, mas alienígena e oriundo das páginas dos quadrinhos. Outros atores já haviam vivido o Super-Homem, mas nenhum deles conseguiu trazer ao espectador o convencimento de que era possível de que apenas um par de óculos, uma postura curvada, um cabelo empapado de gel e um tom de voz levemente acelerado e inseguro o tornassem outra pessoa.

Até que surgiu aquele jovem com 1m e 93cm de altura, beleza e talento em uníssono, bem como um carisma que o tornaria um astro após anos de treinamento na prestigiada escola Julliard, em Nova York, e outros tantos em busca do sucesso em produções modestas de teatro e encenadas em palcos off-Broadway.

Mas seria a figura do Superman, um papel emblemático para cultura pop, que, para o bem ou para o mal, o tornaria algo além de um ator. O tornaria um símbolo. Tal símbolo, inicialmente, representaria uma ideia heróica e ideológica que muitos acusam de vender a nefasta influência estadunidense e imperialista pelo mundo. Cá pra nós, podem até soar demagogos os momentos em que, no filme, vemos o personagem de capa vermelha e collant azul falar sobre o American Way of Life, mas o conceito de esperança e fé no bem que o herói criado por Joe Shuster e Jerry Siegel em 1938, ainda no começo da Era de Ouro dos quadrinhos, traz em sua essência é algo que acabaria se mesclando à própria natureza de Christopher Reeve.

O símbolo cultural se tornaria símbolo de luta, resiliência e generosidade após o notório acidente de hipismo que o ator sofreu em maio de 1995 e que o deixaria paralisado do pescoço para baixo.

Desconstrução do mito

Super/Man, o documentário, ilustra, logo de cara, essa ascensão de Reeve ao estrelato como Super-Homem e, logo em seguida, nos mostra a mudança drástica que sua vida iria ter, 17 anos depois da estreia do filme. A partir dessa apresentação, o filme de Ian Bonhôte e Peter Ettedgui segue uma estrutura bem convencional de documentário, inserindo falas das pessoas próximas ao ator, e utilizando imagens de arquivo para ilustrar sua fase inicial, ainda nos anos 1970, quando lutava no estágio preliminar de sua carreira.

Mas a riqueza do tema e o fascínio trazido pela (re)construção da vida de Reeve após a tragédia que quase o matou, torna o documentário magnético. Existe a luta do ator em busca de outros papéis que comprovassem ainda mais o seu talento para além da capa vermelha. Existe a desconstrução do mito, quando o vemos falar sobre seu problema em assumir compromissos afetivos. Neste momento, com o depoimento da sua primeira esposa, o documentário fica bem próximo do sensacionalista. No entanto, consegue recuperar sua dignidade.

É o foco nos nove anos seguintes após seu acidente com o cavalo e os dias que antecederam sua morte em 2004, que torna o filme gigante.

Com o olhar voltado para a evolução da Fundação Christopher Reeve, que conseguiu aprovar leis junto ao governo dos Estados Unidos que viriam a beneficiar pessoas que viviam com o mesmo problema do ator, bem como arrecadar doações que aceleraram o financiamento e o desenvolvimento das pesquisas que permitiriam dar esperanças àqueles que desejavam voltar a andar, o documentário abre uma discussão mais ampla.

Em certo momento, vemos o longa abordar as críticas recebidas por Reeve ao topar fazer um comercial no qual um modelo digital seu caminhava normalmente. Para muitas pessoas paralisadas, o ator estaria reforçando a ideia de que só seria realmente feliz aqueles que conseguissem se movimentar de novo. Ciente de seu propósito, ele afirma que a inércia nunca faria dele uma vitima. Mas sua esposa, Dana Reeve, admitiu os problemas acerca da questão e afirmou que a fundação passaria a investir, também, em programas de qualidade de vida.

À medida que o filme se aproxima de seu final, quando já sabemos como se encerrou, aos 52 anos, a vida do ator, a carga dramática à qual o espectador tem acesso é densa. Principalmente ao vermos como sua vida passou a ser dura depois daquele maio de 1995. Em Superhomem - A Canção, mestre Gilberto Gil fala sobre o alienígena "restituir a glória, mudando como um deus o curso da história", em uma referência ao filme de Richard Donner, quando o herói faz o tempo voltar ao alterar a rotação da Terra para salvar sua amada Lois Lane.

Em um acalentador exercício de imaginação ao sair do cinema, impossível não pensarmos na mesma possibilidade de mudar o passado e salvar a integridade física de Christopher Reeve ao impedi-lo de sofrer aquela queda há quase três décadas.

Os bons partem cedo.

Super/Man: A História de Christopher Reeve (Super/Man: The Christopher Reeve Story) / Dir.: Ian Bonhôte, Peter Ettedgui / Com Glenn Close, Jeff Daniels, William Reeve, Matthew Reeve/ cinema.atarde.com.br

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