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ESTREIA

‘Um Completo Desconhecido’ dramatiza bem momentos definidores do jovem Bob Dylan

Obra traz o recorte entre janeiro de 1961

Por João Paulo Barreto | Especial A TARDE

28/02/2025 - 5:00 h
Cena de ‘Um Completo Desconhecido’
Cena de ‘Um Completo Desconhecido’ -

"Um artista precisa tomar cuidado para nunca chegar a um ponto em que ache que já viu tudo. Tem sempre que entender que deve ficar constantemente em transformação. E, enquanto puder permanecer nesse estado, as coisas vão funcionar", disse Bob Dylan, em entrevista ao diretor Martin Scorsese, por ocasião da gravação do documentário No Direction Home (2005), quando revisitou seus primeiros anos de carreira. Tal definição, exata em sua adequação à trajetória do cantor e compositor, norteou seus passos desde o começo, quando chegou a Nova York aos 19 anos de idade, em 1961, apenas com uma mochila e um violão.

É justamente esse momento que abre Um Completo Desconhecido, de James Mangold, adaptação do livro Dylan Goes Electric!: Newport, Seeger, Dylan, and the Night That Split the Sixties (Dylan se Torna Elétrico!: Newport, Seeger, Dylan e a Noite Que Dividiu os Anos 60), do músico e escritor Elijah Wald. O título delineia o processo de chegada de Robert Allen Zimmerman ao centro cultural dos EUA e sua consolidação como uma das mentes mais influentes do período.

Mangold, junto ao roteirista Jay Cocks, apresenta esse encontro de Dylan com a cidade e o modo como sua música passou a moldar uma época. Além disso, o longa tem na citada constante necessidade de transformação abraçada por seu protagonista seu mote e conflito central.

A obra traz o recorte entre janeiro de 1961, quando Dylan chegou a Nova York, e 1965, quando tocou pelo terceiro ano consecutivo no Newport Folk Festival. Na ocasião, um ponto de virada em sua carreira se apresentou, quando o jovem de 24 anos resolveu deixar para trás sua figura representativa da música folk e abraçar a guitarra elétrica como forma de criação. Após anos dedicados ao estilo herdado de nomes como Woody Guthrie e Peter Seeger, Dylan percebeu que sua criatividade queria ir além. No citado período criativo do compositor, encontram-se faixas de tributo como Song to Woody, de autoria do próprio Dylan em homenagem ao cantor que motivou sua saída do inóspito e frio estado de Minnesota rumo ao leste com o intuito de visitá-lo no hospital, bem como Talkin' New York, sua primeira impressão sobre a cidade que o acolhera. As duas faixas são centrais no homônimo disco de estreia do artista, que saiu em 1962.

Ventos da mudança

Tal encontro entre Woody e Dylan no hospital, surge de maneira inspirada em Um Completo Desconhecido de Mangold, que já tinha dirigido a adaptação da trajetória de Johnny Cash há vinte anos.

A ocasião, com a liberdade da adaptação literária do roteiro , traz a presença do cantor Peter Seeger, uma das principais vozes da música à época, a testemunhar aquela passagem de bastão. É a partir desse momento que o filme constrói, com sua licença poética, a presença de Seeger, um já estabelecido ícone do folk nos Estados Unidos, como guia de Dylan em seus primeiros passos na fama. E gradativamente, acompanhando as mudanças do tempo que a década de 1960 representou, esses passos do jovem compositor se tornam mais seguros.

A figura do ainda mancebo Bob Dylan encontra na presença física de Timothée Chalamet uma espécie de doppelgänger, uma vez que a semelhança do proeminente ator com Zimmerman, juntamente a seu esforço de recriar a voz única do cantor, mas sem necessariamente imitá-lo, impressionam. Ao assisti-lo cantar com um tom semelhante ao do poeta trovador, nota-se uma identidade própria naquela encarnação do autor de Like a Rolling Stone.

Em relação ao hino, o momento de sua gravação, com a famosa introdução do guitarrista Al Kooper nas teclas do órgão (surpreendendo Dylan, inclusive), é representado em uma das melhores cenas do filme. Já o Peter Seeger de Edward Norton traz a serenidade e a maturidade de quem entende as mudanças do tempo propostas por aquele que decidiu apadrinhar, mas não deixa de se chocar com o modo alto e elétrico como elas chegam ao palco do festival de música folk que ele organiza em Newport.

"Judas!"

A participação do músico no festival em três de suas edições, acompanhou o lançamento dos seus seis discos iniciais. O segundo, de 1963, trazia o olhar crítico de Bob em relação àquela sociedade que o cercava de maneira ainda mais pungente. Tratava-se de The Freewheelin' Bob Dylan, no qual o músico, em seu íntimo, conseguiu um resultado melhor do que o que encontrou para si mesmo no álbum de estreia. E não é para menos.

Tal momento é trazido por Mangold de forma simbólica, apresentando tanto as canções pilares, quanto o registro de sua capa. Por trás de sua notória foto, que traz o cantor ao lado de uma de suas musas, Suze Rotolo, está o hino de uma geração, Blowin' in the Wind, a abri-lo e delineá-lo. Um Completo Desconhecido apresenta esse momento tanto amoroso de Dylan (Suze, aqui, foi rebatizada como Sylvie Russo, e conta com o rosto angelical de Elle Fanning) quanto criativo justamente ao destacar o triângulo romântico/artístico daquele momento na vida do poeta.

A terceira parte desse triângulo é representada pela parceria vocal e amorosa entre o rapaz de Minnesota e Joan Baez, símbolo feminino da nova geração de cantores folk. A química entre ambos esbarra, no entanto, com uma insatisfação de Dylan em se ver rotulado unicamente como, também, um representante do estilo, e em sua busca por novos caminhos musicais. Ainda no citado disco, a faixa de alerta A Hard Rain's A-Gonna Fall, que traduziu com exatidão a angústia de todos durante a crise dos mísseis da Baía dos Porcos, entre Cuba e EUA, e a iminência de uma atômica nova guerra mundial, que quase se concretizou em abril de 1961, constrói um dos mais belos momentos do longa. É quando, diante da incerteza de um futuro, Baez e Dylan se entregam aos impulsos amorosos após ele deixar o palco do Cafe Wha?, em Nova York.

A mudança e a revolução começam a acontecer já com o disco seguinte, The Times They are A-Changin', quando essa consolidação como a voz de uma geração dentro da música folk, e através dos citados duetos com Baez, se confirmou. Vale pontuar nesse momento a presença de Monica Barbaro, que vive Baez de forma impressionante ao entregar seu talento vocal, bem como a denotar sua decepção com a mudança de postura do companheiro.

Another Side of Bob Dylan, Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited, seus três discos seguintes, juntamente com uma turnê pela Inglaterra, em maio de 1966, foram a confirmação da ideia de constante movimento pela qual o homem ansiava. Lá, a apresentação de Like A Rolling Stone em Manchester, quando o grito de “Judas!” foi entoado por um fã revoltado com a passagem do artista para um perfil elétrico de música, já entregava isso. Tal momento, inclusive, o filme toma a incômoda liberdade de mesclar com o dia acontecido quase um ano antes, em julho de 1965, ocasião da última participação de Dylan no Newport Folk Festival. A data foi o marco que já norteava desde então o futuro de Robert Zimmerman. Foi quando ele apresentou àquela plateia uma nova faceta do artista por trás da revolução cultural sessentista que, junto a outros quatro britânicos, liderou.

Um Completo Desconhecido pode até terminar com um gosto estranho diante da mudança geográfica e temporal de momento tão marcante da história da música, mas não é o caso de desmerecer tal obra como um recorte bem construído da trajetória inicial do maior compositor musical ainda vivo.

Um Completo Desconhecido (A Complete Unknown) / Dir.: James Mangold / Com Timothée Chalamet, Monica Barbaro, Edward Norton, Elle Fanning, Pete Seeger, Boyd Holbrook, Will Harrison, Charlie Tahan / Salas e horários: cinema.atarde.com.br

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