Jornada de trabalho, responsabilidade nacional e maturidade da classe produtiva
Confira a coluna ACB em Foco

O debate sobre a mudança da jornada de trabalho, especialmente em torno da escala 6x1, precisa ser conduzido com responsabilidade. Quando propostas dessa magnitude surgem em meio a tensões políticas e próximas de disputas eleitorais, sem discussão técnica consistente sobre impactos econômicos e sociais, é natural que surjam preocupações.
Uma transformação desse porte não pode ser tratada como slogan ou solução simples para problemas complexos. Sem estudos que considerem a realidade brasileira, especialmente das micro e pequenas empresas, o debate corre o risco de se tornar precipitado.
A estrutura produtiva brasileira é diferente da de países que já adotaram jornadas reduzidas. Nossa produtividade média ainda é baixa, a carga tributária é elevada e muitas empresas operam com margens estreitas, enfrentando dificuldades para manter empregos e inovar em um ambiente regulatório complexo.
Mais de 99% das empresas do País são micro, pequenas ou médias. São padarias, oficinas, pequenos comércios, restaurantes e prestadores de serviço que sustentam a base da economia nacional e geram grande parte dos empregos.
Por isso, qualquer mudança estrutural nas regras do trabalho precisa considerar essa realidade. Caso contrário, o que nasce para melhorar a qualidade de vida pode acabar pressionando justamente trabalhadores e pequenas empresas que dependem da continuidade das atividades produtivas.
Nesse ponto surge uma reflexão maior sobre a maturidade social da classe produtiva brasileira.
O país possui uma ampla rede de associações empresariais, federações e confederações que representam milhões de empresas. Essa estrutura foi construída ao longo de décadas para promover diálogo e defender um ambiente econômico equilibrado.
Mas se essa mesma classe produtiva estiver alinhada em torno de responsabilidade social, cooperação e desenvolvimento nacional, poderá contribuir ainda mais para a construção de soluções equilibradas para o país.
Isso passa pelo fortalecimento da autoestima cidadã produtiva, para reconhecer que quem gera riqueza e empregos também tem papel relevante na construção de propostas que conciliem desenvolvimento econômico e bem-estar social.
Mais que unidades de produção, empresas são ambientes humanos onde convivem empresários, trabalhadores e famílias. Quando se fortalece o pertencimento e todos compreendem que fazem parte do mesmo projeto, o ambiente de trabalho se transforma.
Essa visão inspira iniciativas como a certificação C-Gescon, da Fundação Paulo Cavalcanti, que estimula uma cultura baseada na função social da empresa e no respeito às pessoas.
Se essa consciência estivesse mais disseminada, empresários, trabalhadores e sociedade poderiam discutir juntos modelos mais inteligentes de organização do trabalho, considerando a diversidade econômica do país e a preservação dos empregos.
O Brasil precisa avançar.
Mas avançar com segurança exige diálogo, visão de longo prazo e a responsabilidade de reconhecer que o futuro do Brasil é da nossa conta, e ele começa agora.
*Presidente do Conselho Superior da Associação Comercial da Bahia
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