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ARMANDO AVENA

Brasil 2025: o desafio não é o fiscal, mas a Trumponomics

Confira a coluna do economista Armando Avena

Armando Avena
Por Armando Avena
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O tão propalado déficit primário nas contas do governo vai fechar o ano abaixo de 0,1% do PIB, segundo o ministro Fernando Haddad, muito próximo ao déficit zero prometido no arcabouço fiscal e o melhor resultado nos últimos dez anos. É uma estimativa preliminar e não contabiliza os gastos extraordinários com o combate às enchentes no Rio Grande do Sul, mas ainda assim mostra, especialmente após a aprovação das medidas de corte de gastos pelo Congresso Nacional, que o fiscal não é o maior desafio do Brasil em 2025. O maior desafio será a alta taxa de juros e a política econômica de Donald Trump. Aliás, a famigerada Trumponomics poderá gerar muitas mais ma rolas na economia do que o governo gostaria.

A imposição de tarifas de importação a vários países é a principal preocupação e Trump já citou o Brasil e a Índia como países que taxam as importações americanas e que terão reciprocidade. Ou seja, é possível que produtos brasileiros como aço, alumínio, carne bovina, suco de laranja e outros sejam taxados. Esse movimento já ocorreu no primeiro governo Trump e foi amainado por negociações bilaterais, mas o momento é outro e inclui uma ação direta sobre a China já que a promessa de impor tarifas de até 60% aos produtos chineses é sempre reiterada por Trump. Isso causaria uma guerra comercial e não apenas entre China e EUA, mas entre os países em geral com efeitos imponderáveis no sistema global de comércio. Muitos países, inclusive o Brasil, poderiam ampliar suas exportações nesse vácuo, mas a China, por outro lado, tentaria inundar os países emergentes com seus produtos. Ao perder grande parte do mercado americano, a China pode também reduzir seus preços para tentar recolocar seus produtos em outras partes do mundo e aí estará instalada uma guerra comercial e poderia haver queda nos preços das commodities.

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Por outro lado, taxar produtos importados pode gerar inflação e isso, aliado ao impacto no mercado de trabalho da deportação de um milhão de imigrantes sem documentação, prometida por Trump, causaria uma crise ainda não dimensionada na economia americana. Com insumos e matérias-primas mais caras por causa do aumento de tarifas e o custo de mão-de-obra elevado por conta da deportação, o cenário de inflação alta e redução da produção e do consumo estaria dado, podendo resultar em estagflação. É verdade que Trump promete menos regulamentação e menos impostos, estimulando o setor produtivo, mas o gap entre o imediato aumento de custos e o lento aumento de produtividade será inevitável. Por isso, tenho dito em reuniões e palestras que o efeito econômico das medidas protecionistas talvez possa conter os arroubos protecionistas de Trump.

Além do impacto no comércio internacional, e nesse contexto, o acordo Mercosul/ União Europeia será estratégico, não está descartado o fortalecimento do dólar, o que fará o real se depreciar ainda mais, com efeitos inflacionários maiores. E o conflito comercial entre as duas potências, e a tensão nos mercados, podem reduzir o crescimento global e a demanda por commodities brasileiras, reduzindo a entrada de dólares.

Não vamos esquecer, no entanto, que o Brasil é uma das maiores economias do mundo, com enorme mercado interno, e já tem contratado pela inércia estatística um certo crescimento do PIB em 2025. Além disso, o Brasil vem fazendo reformas econômicas importantes, como a reforma tributária, tem uma democracia forte, baseada em instituições resilientes, e isso faz da nossa economia uma alternativa atrativa para investimentos, especialmente se o governo federal não cair na tentação de gastar mais para compensar o quadro desafiador. Ou seja, para enfrentar a Trumponomics será necessário uma política fiscal não expansionista para permitir a queda gradual da taxa de juros.

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