Governo versus Banco Central: crescimento ou desaceleração?
Confira a coluna do economista Armando Avena

A economia brasileira está entre duas forças opostas, uma impulsionando o crescimento, outra induzido uma forte desaceleração.
Ao fazer uma intervenção aguda na economia, elevando a taxa Selic em 3% em apenas três meses, o Banco Central introduziu na economia uma cunha monetária de tal magnitude que a queda da inflação e a recessão, ou uma forte desaceleração, pareciam inevitáveis. Aliás, o aperto monetário foi de tal magnitude que a questão fiscal ficou em segundo plano, e ninguém fala mais dela.
O problema é que o choque de juros vem tendo resultados pífios em relação ao controle da inflação. No primeiro trimestre do ano, o IPCA-15 acumula uma alta de 1,99%, acima da taxa de 1,46% registrada no mesmo período de 2024. A inflação cresceu 1,23% em fevereiro e 0,6% em março, mas os preços seguem em alta.
A razão é que o cenário inflacionário ao longo dos últimos meses foi resultado de fatores pontuais e dos preços dos alimentos, que não respondem rapidamente a aumentos de juros. Ninguém deixa de comer ovo ou tomar café porque os juros subiram.
Mas os preços dos alimentos devem cair com a super safra deste ano, que vai aumentar a oferta; o problema é que não vão cair tanto, pois a demanda por alimentos no mundo deve aumentar as exportações agrícolas.
O Banco Central parece não perceber que a inflação de alimentos vem crescendo desde o fim da pandemia e que apenas juros altos não são capazes de contê-la. Além disso, para os produtores e para outros setores, juros são custo e podem ser repassados aos preços.
A inflação brasileira deve cair nos próximos meses, mas gradualmente, ainda acima da meta, e, se o Banco Central continuar focado no centro da meta, vai ter de subir novamente os juros, como já anunciou a última ata do BC e a situação vai se complicar.
O choque de juros adotado pelo Banco Central deveria ter reduzido drasticamente a atividade econômica, mas isso não aconteceu. O IBC-Br, que é uma prévia do PIB, teve alta de 0,9% em janeiro sobre o mês anterior, bem acima das previsões do mercado, que apostava em queda ou no máximo um crescimento de 0,2%. Com esse resultado, o PIB cresceu 3,8% no acumulado em 12 meses, mais do que no ano passado, e a economia parece já ter contratado crescimento positivo no 1º trimestre de 2025.
O que fará o Banco Central? Vai aumentar ainda mais os juros para reduzir a atividade econômica? O problema é que o aquecimento da economia tende a aumentar, pois o governo está injetando dinheiro no mercado através de vários programas e ampliando o crédito ao consumidor, o que, fatalmente, vai aumentar o consumo das famílias.
A economia brasileira está no modo “cabo de guerra”, com o Banco Central estimulando a recessão e o governo estimulando o crescimento, ou, em bom economês: a política monetária é contracionista e a política fiscal expansionista.
Ou seja, enquanto a ata do Banco Central anuncia um novo aumento dos juros, ainda que em menor, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária, o governo segue aprovando programas de aumento da renda do trabalhador. E isso, com o presidente do Banco Central tendo sido indicado pelo governo. Para completar, há o cenário internacional marcado pela desestruturação da economia mundial levada a cabo com idiota pertinácia por Donald Trump. Não há hipótese de dar certo.
O fato é que tanto o Banco Central quanto o governo parecem aferrados às suas rígidas políticas ortodoxas e heterodoxas, respectivamente, sem perceber que o cenário econômico pós pandemia está trazendo novas realidades, a exemplo dos preços dos alimentos em alta constante e da economia brasileira rodando em modo “crescimento” mesmo com a maior taxa de juros real do mundo.