O Carnaval vai bombar, mas tem de sair da Barra
Confira a coluna de Armando Avena

Imagine o leitor se o desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro acontecesse em Copacabana. E o mais famoso ponto turístico da cidade maravilhosa fosse interditado por uma semana ou mais, para a colocação de arquibancadas, a construção de camarotes, a mobilização de ambulantes, etc.
É inimaginável, mas é isso que acontece na Barra, o mais famoso ponto turístico de Salvador, que fica interditado no seu ir e vir por 15 dias para sediar o Carnaval.
Nada contra o Carnaval, pelo contrário, a festa tem um impacto significativo na economia soteropolitana, gerando emprego, renda e oportunidades de negócios.
Em 2025, o Carnaval de Salvador registrou uma movimentação financeira de cerca de R$ 1,8 bilhão e a cidade recebeu cerca de 850 mil turistas, segundo dados da Prefeitura. E a taxa média de ocupação hoteleira foi de 94%, com picos de 100 % próximos aos circuitos oficiais da festa.
Em 2026, o Carnaval vai bombar e a estimativa é que mais de 1,2 milhão de turistas visitem a cidade entre os dias da folia, gerando uma movimentação financeira de cerca de R$ 2,6 bilhões. O impacto no mercado de trabalho é da ordem de 150 mil postos, incluindo vagas temporárias, trabalho informal e todas as atividades ligadas à folia.
Então, absolutamente nada contra o Carnaval que, além de alegria, traz para o povo soteropolitano emprego, renda e oportunidades de negócios. Mas tudo contra a manutenção do Carnaval na Barra, responsável, em última instância, pela desvalorização e pela marginalização do bairro.
O Carnaval desvaloriza a Barra porque os proprietários deixam os imóveis se degradando, mas no fim do ano ganham muito alugando-os para os camarotes. Desvaloriza o bairro porque hotéis e pousadas e o setor imobiliário não podem investir num local que durante quinze dias é interditado, sem que possa sair ou entrar, abrigando mais de um milhão de pessoas.
É por isso que enquanto a Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, é tomada por apartamentos milionários e hotéis cinco estrelas, a Avenida Oceânica é o palco de casas abandonadas, restaurantes e pousadas de quinta categoria, agências bancárias e estacionamentos. E tudo piora à medida que se chega ao Porto da Barra, quando a barra começa a ficar pesada e as sub-habitações se misturam ao tráfico de drogas.
A Barra é e sempre será um bairro com características residenciais e turísticas, nunca teve tradição carnavalesca, e é um absurdo ocupar esse bairro, que tem hospitais, clínicas, escolas e que abriga milhares de pessoas e de idosos com um mega Carnaval de trios elétricos que requer a montagem de uma estrutura gigantesca. O Ministério Público deveria estar atento aos transtornos que a festa causa a doentes, idosos e residentes, pois é um caso típico de projeto que prejudica a população e os investimentos, para beneficiar apenas um pequeno grupo de empresários que se mantém resistente à transferência.
A Prefeitura de Salvador tem consciência da necessidade de transferir a festa para outro local, e já se dispôs a fazê-lo várias vezes, mas precisa tomar a decisão imediatamente após a festa – e esta é a razão deste artigo –, pois que senão, ao longo do ano, o interesse de grupos localizados se amplificam e abortam a mudança.
Transferir o Carnaval de Salvador para outra área não trará qualquer prejuízo para a cidade, pelo contrário, vai gerar uma onda de investimentos na região. E não afetará a economia da folia, já que os milhares de turistas que vem à Salvador para curtir o Carnaval continuarão vindo, não importa onde ele seja realizado. Os hotéis continuarão cheios em toda a parte, os blocos seguirão desfilando e os mesmos os donos de camarotes continuarão colocando suas mega estruturas em outro lugar.
O Carnaval vai bombar em 2026 e continuará bombando no palco da festa, que é a Avenida, e em outro local mais adequado para onde precisa ser transferido o circuito que hoje ocupa a Barra.
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