Sobre a guerra, os juros e o fiscal
Confira a coluna de Armando Avena

A guerra nutre a si mesma, dizia o historiador Tito Lívio. Por isso é difícil fazer qualquer previsão sobre o conflito no Oriente Médio. O impacto na economia brasileira vai depender do tempo do conflito e de quanto vai aumentar o barril de petróleo. O Brasil está bem posicionado no mercado internacional: é exportador de petróleo, tem reservas cambiais de porte e não tem dívida externa. Mas isso não significa que não vai ser afetado.
Tudo vai depender da dosimetria: há muito petróleo no mundo e se o aumento ficar na faixa dos US$ 85 os efeitos são administráveis, mas se superar de forma continuada a marca dos US$ 100, aí a coisa complica. Outro impacto será na cotação do dólar que vinha caindo no mundo inteiro, mas com a guerra os investidores correm para o dólar e para os títulos do Tesouro americano que, mesmo com a desastrada administração de Donald Trump, ainda é o porto mais seguro do mundo.
O aumento do preço do petróleo tem, por outro lado, um efeito positivo na balança comercial, pois o Brasil é exportador líquido de petróleo e o preço alto significa mais dólares entrando no país. E pode melhorar o cenário fiscal, pois vendendo mais a Petrobras pode distribuir mais dividendos para a União e para as pessoas e mais royalties para estados e municípios
Se o preço do petróleo subir muito, haverá algum impacto na inflação, mas se a alta do petróleo for controlada, o impacto será pequeno e o Banco Central poderá dar início ao ciclo gradual de queda nos juros. Aqui é visível o erro do Banco Central, que não baixou os juros quando o cenário era benigno e, agora sequer pode aumentá-los, se os preços do petróleo forem parar nas estrelas.
Ou alguém acha que o país aguenta juros maiores de 15% por mais tempo? Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, nomeado pelo Presidente Lula, conseguiu ser mais ortodoxo do que Roberto Campos Neto, nomeado por Jair Bolsonaro, e o que conseguiu foi reduzir o crescimento do PIB e deixar o país com a maior taxa de inadimplência dos últimos anos e a maior dívida pública. Coisas do Brasil!
A guerra do Irã pode ser o pretexto para o Banco Central não dar início ao ciclo de queda nas taxas de juros, mas ainda não há elementos que deem sustentação a esse recuo. O melhor é manter a programação e reduzir os juros agora, mesmo que, se a guerra se prolongar e a inflação aumentar, seja necessário, lá na frente, voltar ao patamar de 15% ao ano. Aqui é preciso dizer que o desequilíbrio nas políticas fiscal e monetária permanece e, como não será possível resolver essa questão num ano eleitoral, é preciso preparar o país para fazer isso em 2027.
E a polarização também estará dada neste quesito, pois será necessário que a população escolha que ajuste fiscal vai querer: um ajuste fiscal gradual ou um ajuste fiscal abrupto. No primeiro caso, o gradualismo pode levar a ineficácia, no segundo, os cortes abruptos, de uma só vez, podem desestruturar a economia e aumentar o nível de pobreza num primeiro momento, como ocorreu na Argentina.
Seja qual for o presidente eleito ele terá de fazer um ajuste fiscal, pois a manutenção da dinâmica das despesas obrigatórias é insustentável.
Aqui, vale lembrar, que o ajuste fiscal estimula a queda de juros, mas, num cenário no qual se paga um trilhão com o serviço da dívida, fazer superávit fiscal com juros de 15% ao ano por longo prazo é enxugar gelo e gera o ciclo vicioso de aumento automático da dívida pública.
Mas o leitor deve estar atento, pois se o conflito no Oriente Médio demorar muito, se se alastrar pelos países do Golfo Pérsico, o preço do petróleo pode chegar a inimagináveis US$ 130 o barril, como chegou logo após a guerra do Iraque. E aí, o problema não será mais no fiscal e nos juros, será em toda a economia.
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