A alegria da visita
Artigo de Dom Sergio da Rocha, Cardeal Arcebispo de Salvador e primaz do Brasil
Visitar e ser visitado tende a ser sempre motivo de alegria, especialmente, quando reencontramos pessoas amigas ou familiares que há muito tempo não vemos. No mundo marcado pelo ritmo frenético de atividades, já não se tem tempo para visitas. Aos poucos, as pessoas e famílias vão perdendo o hábito de visitar. Muitas são as pessoas que não se encontram há bastante tempo. Algumas, por motivo de longas distâncias geográficas; outras, por falta de tempo; outras, ainda, pela falta de dinheiro para o transporte ou de condições de saúde. Contudo, pior do que isso é o distanciar-se por falta de amor, de fraterna estima ou pela recusa do encontro e da reconciliação.
É necessário regastar a dimensão do encontro, da acolhida e da proximidade face a face. O distanciamento social, por motivo de saúde pública durante a pandemia, não deveria implicar em fechamento sobre si. Visitar é um ato humano e humanizador. A visita pressupõe, de um lado, sair ao encontro, e de outro, acolher fraternalmente. Por isso, enolve proximidade, encurta distâncias e permite o exercício da amizade. Numa sociedade marcado pelo predomínio do indivíduo, do seu interesse e da sua liberdade, é forte a tendência ao fechamento sobre si, numa perspectiva de 'mesmidade', conforme denominam alguns pensadores contemporâneos, em contraposição à "alteridade, que pressupõe a abertura ao outro, o encontro e a acolhida.
É preciso encontrar tempo para visitar. Há diversos tipos de visita: a visita espontânea a amigos ou familiares; a visita solidária a pessoas queridas que sofrem, como os enfermos e os enlutados; a visita fraterna para celebrar juntos a alegria de um aniversário ou outro momento festivo; a visita missionária, portadora da fé e da esperança que vêm de Deus. É muito bom visitar, é bom demais receber visitas. Nos evangelhos, encontramos muitas visitas recebidas ou realizadas por Jesus Cristo. Ainda no ventre da sua Mãe, ele foi visitar Isabel e João Batista, levando-lhes alegria. Quando pequeninho, recebeu a visita de humildes pastores e de sábios do Oriente. Mais tarde, recebeu a visita de Nicodemos, acolheu junto a si os pobres, os enfermos e os pecadores, que vinham ao seu encontro em busca de vida nova. Jesus também realizou visitas, entrando na casa de Levi e de Simão Pedro, seus discípulos; de Zaqueu, o pecador; de Lázaro, Marta e Maria, seus amigos em Betânia; e até mesmo, na casa de Simão, o fariseu.
Nós somos chamados a refazer hoje, com Jesus e como Jesus, a experiência da visita portadora de alegria, de esperança e de paz. Com os cuidados exigidos nesta fase da pandemia, é importante aproveitar o tempo da visita de Jesus Menino, representado pelo Natal, para ir ao encontro do próximo, especialmente de quem mais sofre.
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