Dress code' ou o racismo e machismo de todo dia?

Este debate precisa ser feito em todas as esferas, não só em empresas e estabelecimentos

Publicado sexta-feira, 17 de dezembro de 2021 às 12:55 h | Atualizado em 17/12/2021, 13:10 | Autor: Marta Rodrigues

O episódio envolvendo o cantor Jau e um colega da banda, no dia 2 de dezembro, quando ambos foram 'barrados' por não estarem conforme o 'dress code' de um estabelecimento em Salvador, não é algo incomum.

Alguns casos chamam mais atenção, boa parte relacionados ao racismo religioso, como uma aluna proibida de entrar na escola municipal da capital baiana por estar com roupas de santo, em julho deste ano. Outro mais grave, que chocou o Brasil, foi o 'código da Zara' do Ceará pra pessoas negras ou com 'roupas simples'. E quantas vezes mulheres foram impedidas de entrar em lugares, quando não assediadas, abusadas e violentadas sob a justificativa das roupas que usavam?

A verdade é que quase toda a população vivencia situações similares cotidianamente, seja em estabelecimentos, lugares públicos, instituições e no mercado de trabalho. Esta é, infelizmente, uma realidade principalmente das populações negra, de mulheres, de indígenas, de pessoas trans, LGBTQIA+, PCDs, quilombolas e todos aqueles chamados de 'grupos minoritários'.

Desde muitos anos que a vestimenta vem sendo uma forma de imprimir valores e culturas de um determinado local, espaço ou comunidade. Durante a escravidão no Brasil, quem tinha poder e dinheiro na estrutura social portava mais vestes e adereços, roupas, vugantes, paletós, golas, enquanto os escravizados usavam roupas simples de algodão ou de tecidos reutilizáveis, quando não trapos e restos.

A antropologia e a história nos mostram que os hábitos e códigos de vestimenta surgiram para estabelecer poder sob o outro, formar hierarquias, diferenciar classes sociais e persistir com o machismo. Esse sistema se perpetua até hoje com uma 'estética burguesa' onde diversos grupos não tem, nem querem ter, suas imagens nem seus corpos como mercadorias. Por isso, não cabe aceitarmos estes 'dress codes'.

Salvador tem 80% da população negra e pobre, de maioria de mulheres, e abarca toda essa diversidade identitária e cultural. Estamos cada vez mais empoderadas, onde prezamos a liberdade de se vestir como representatividade e valorização da nossa identidade e cultura.

O 'dress code' nada mais é que a estrangeirização de uma estrutura organizada para imprimir valores racistas, machistas, padronizar discursos, corpos e identidades, além de definir quem entra, ou não, em determinados espaços. Um termo que tenta omitir a manutenção destes preconceitos em todos os âmbitos, seja institucional ou social.

Numa sociedade da luta antirracista, da equidade de gênero e da aceitação das identidades culturais, este debate precisa ser feito em todas as esferas, não só em empresas e estabelecimentos, mas também na instituição pública. Salvador, capital mais negra do país, rica em sua diversidade, não pode se render e ficar de fora desta discussão.

Marta Rodrigues é vereadora de Salvador pelo PT e presidente da Comissão de Direitos Humanos e de Defesa da Democracia

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