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A TARDE MEMÓRIA

A Bahia tem uma relação afetiva com a Osba desde os anos 1940

Orquestra é homônima e herdeira da primeira formação fundada por um padre

Priscila Dorea*
Por Priscila Dorea*
Ensaio da Osba em maio de 1988
Ensaio da Osba em maio de 1988 - Foto: Cedoc A TARDE/8.5.1988

A edição de A TARDE de 3 de agosto de 1944 anuncia que dali a três dias a Orquestra Sinfônica da Bahia faria “a sua grande estreia”. No decorrer daquela semana, o jornal também divulgou o programa do concerto inaugural, marcado para o dia 6, e trouxe a cobertura da noite de apresentação na edição do dia seguinte, 7. O que pouca gente sabe é que essa primeira Osba, criada pelo padre Luiz Gonzaga de Mariz, não é a mesma orquestra homônima fundada em 1982, como parte do corpo artístico do Teatro Castro Alves (TCA). Mas aquela orquestra dos anos 1940 está na gênese da nova Osba e é essa história que o A TARDE Memória desta semana vai contar a seguir.

Em 1944, o padre jesuíta Luiz Gonzaga de Mariz, professor do Colégio Antônio Vieira, reuniu músicos e estudantes para fundar a Orquestra Sinfônica da Bahia. O projeto teve início em meio aos impactos da Segunda Guerra Mundial, que ainda estava em curso. A Bahia era uma base militar estratégica no Nordeste, com presença de tropas federais e estrangeiras no litoral e um cenário de empobrecimento econômico. No entanto, antes dessa iniciativa, já havia registros de orquestras atuando no estado desde o século XVIII, sempre ligadas aos teatros, como revela o flautista Lucas Robatto, professor da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia (Ufba).

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"Quando o Teatro São João, que era o grande espaço de apresentações para as orquestras, pega fogo em 1923, Salvador fica um pouco órfã de atividades musicais. Então, quando essa orquestra de 1944 surge, passa a ocupar esse espaço aberto pela decadência dos teatros e, ao mesmo tempo, se alia a um novo movimento cultural que chegou ao Brasil naquela época, o de ter orquestras sinfônicas independentes", acrescenta o professor Robatto, que é membro da segunda Osba, a criada nos anos 1980, desde os 16 anos.

Apresentação da Osba no Teatro Castro Alves em 1984
Apresentação da Osba no Teatro Castro Alves em 1984 - Foto: Cedoc A TARDE/29.3.1989

Essa Osba que conhecemos hoje foi criada em 30 de setembro de 1982 como uma companhia estadual que compunha o elenco do TCA. O primeiro concerto, no entanto, ocorreu na noite de 15 de dezembro de 1982. Após a fundação, a nova Osba teve seu processo de publicização, ou seja, a transferência da execução de serviços não exclusivos do Estado para entidades privadas sem fins lucrativos. Esse processo foi consolidado em abril de 2017, quando a Associação Amigos do Teatro Castro Alves (ATCA) assumiu a gestão da orquestra. Hoje, a Osba é um corpo artístico público mantido com recursos do governo estadual, através da Secretaria de Cultura (Secult-BA).

Mas, voltando à primeira Osba do padre jesuíta, ela se alinhava a outros movimentos musicais do seu tempo, como a Sociedade de Cultura Artística da Bahia (SCAB), fundada pela cantora e agitadora cultural Alexandrina Ramalho. A SCAB, entre os anos de 1940 e 1950, difundiu a música clássica e outras artes em Salvador, estimulando o interesse da população. “Eles conseguiram trazer grandes artistas e orquestras para tocar na cidade durante esse período, o que só mostra o interesse do público, sobretudo a elite, que conseguia financiar esse tipo de iniciativa", explica Lucas Robatto.

O concerto de estreia da primeira Osba, em 6 de agosto de 1944, aconteceu no Gabinete Português de Leitura, local onde realizou apresentações posteriores. "Pelo êxito alcançado, artístico e social, não poderia ter sido melhor e mais expressiva a estreia, ontem, às 20:30 da Orquestra Sinfônica da Bahia. O excelente espetáculo efetuou-se no salão, inteiramente repleto, do Gabinete Português de Leitura", informa a edição de A TARDE de 7 de agosto de 1944.

Fama, hiato e fama

Sob a regência do padre Mariz, a Osba de 1944 promoveu concertos em muitos espaços e eventos de Salvador. A orquestra, no entanto, não durou muito. Fosse por falta de orçamento, contratação apenas de músicos freelancer ou a pouca constância de ensaios, a primeira orquestra acabou desaparecendo aos poucos, deixando um vazio no cenário musical erudito baiano.

Os primeiros passos para mudar esse cenário foram dados em 1955, com a implantação dos Seminários Livres de Música, a atual Escola de Música da Ufba, e a criação da Orquestra Sinfônica da universidade (Osufba). Sob a liderança do alemão Hans-Joachim Koellreutter, radicado no Brasil, a formação da Osufba era composta, em sua maioria, por músicos europeus, e rapidamente foi reconhecida como de alto nível ao reunir professores e alunos.

Osba de volta ao TCA para a série Concertos para a Juventude
Osba de volta ao TCA para a série Concertos para a Juventude - Foto: Cedoc A TARDE/30.3.1988

Entre os nomes que marcaram esse período estão Moisés Mandel, Djalma Corrêa e Walter Smetak, além de jovens talentos que mais tarde se tornaram grandes referências, como o maestro Isaac Karabtchevsky. Essa formação viveu seu auge entre o final dos anos 1950 e a década de 1960 e, junto a criação do Quarteto de Cordas da Bahia, na época também bastante ligado a Ufba, foram fundamentais para sedimentar a tradição sinfônica baiana.

O cenário musical promovido pela universidade preparou o terreno para a fundação da nova Orquestra Sinfônica da Bahia, em 30 de setembro de 1982. Foi a partir daí também que a sigla Osba passou a ser adotada oficialmente. "Foi uma mudança muito impactante, porque era uma orquestra que pagava muito bem e isso atraiu muita gente do Brasil e do exterior. Muita gente participou do primeiro concurso da Osba, influenciando todo o cenário da música de concerto da Bahia, dando uma injeção de ânimo na própria Escola de Música da Ufba", complementa o professor Lucas Robatto.

Vários músicos que entraram na Osba como funcionários ingressaram na universidade, inclusive na docência. O próprio Lucas Robatto, na época com 16 anos, se tornou um dos membros mais novos da orquestra. Estruturada pelo maestro Erick Vasconcelos Magalhães, a nova Osba inicialmente era composta por 53 músicos, a maioria de Salvador, mas também com alguns de Belo Horizonte (MG), Campinas (SP), Brasília (DF), São Paulo (SP) e João Pessoa (PB), com o regente planejando chegar a 80 membros.

"A criação desta orquestra está ligada à ideia de formação de novas frentes de desenvolvimento artístico-cultural na Bahia. Sua existência representa uma abertura de mercado para os músicos, com uma relativa oferta de trabalho. No campo artístico, preenche um certo vazio que havia de concertos de orquestras sinfônicas no cenário baiano [...]. Fisicamente, a orquestra ocupará os espaços do TCA, que está sendo reformado para possibilitar os ensaios. Os instrumentos que a compõem são considerados das melhores marcas", diz a edição de A TARDE de 15 de setembro de 1982, dia da estreia da nova Osba.

A programação do concerto contou com composições do alemão Ludwig van Beethoven e do tcheco Antonín Dvořák. "A Orquestra Sinfônica da Bahia estreou ontem à noite, no Teatro Castro Alves, recebendo calorosos aplausos do enorme público que lotou o teatro, mesmo antes de ser iniciada a programação, quando a platéia ovacionava, de pé, o maestro Erick Magalhães e os 53 músicos que a compõem, inclusive nove mulheres. A cada apresentação, os aplausos se sucediam, demonstrando a satisfação do povo", informa a edição de A TARDE de 16 de dezembro de 1982.

Erudita e popular

A partir da estreia em 1982, a segunda e definitiva Osba se mostrou cada vez mais versátil. Em 44 anos, a orquestra se reinventou e ampliou o seu papel na cultura baiana. Avançando além dos concertos clássicos, criou formatos inovadores que dialogam com diferentes públicos e linguagens. Entre eles está o Cine Concerto, que une cinema e música ao vivo, proporcionando uma experiência imersiva; o Baile Concerto, que mistura a tradição sinfônica com o espírito festivo da Bahia; e o Sarau Osba no MAM, que aproxima os músicos da plateia nas apresentações no espaço intimista do Museu de Arte Moderna. Ainda nos anos 1980, a Osba já se apresentava em locais diferentes como praças e supermercados, mostrando que a música não tem barreiras.

Apresentação da Osba no pátio do II Distrito Naval
Apresentação da Osba no pátio do II Distrito Naval - Foto: Cedoc A TARDE/27.4.1988

A orquestra mantém também grandes concertos temáticos, como o Concerto da Folia, celebrando o Carnaval; o Concerto das Cidades, que dá voz às periferias e ao interior; o Concerto Afro, exaltando a cultura negra como matriz da arte baiana; e o Concerto do Amor, dedicado às múltiplas formas de afeto. Além disso, já se apresentou com grandes nomes da música clássica internacional, como Luciano Pavarotti e Montserrat Caballé, e da Música Popular Brasileira, como Gilberto Gil, Maria Bethânia e João Gilberto.

A diversidade de formatos e de palcos mostra como a Osba se consolidou como uma orquestra profundamente conectada à identidade cultural da Bahia, capaz de transformar toda apresentação em uma celebração coletiva. "Uma das grandes lições que a Osba me ensinou, e que deveria ser difundida cada vez mais, é a de que uma orquestra tem diferentes funções na sociedade. Apesar de ter nascido com o repertório europeu como objetivo principal, aos poucos foi descobrindo sua identidade ao se tornar uma orquestra da Bahia. Hoje, consegue representar e promover tanto o repertório sinfônico internacional quanto as culturas musicais locais, o que a tornou uma orquestra versátil e conectada à sua terra. Dizem que feliz é uma cidade que tem uma orquestra. E nós somos felizes por ter a Osba. Mais ainda, o Estado é feliz, porque a Osba atua muito além da capital", afirma Lucas Robatto.

Fãs de carteirinha

Um dos aspectos mais fascinantes da Osba não está apenas na sua excelência musical, mas na devoção apaixonada dos fãs. Ao longo dos anos, a orquestra construiu uma comunidade que acompanha cada concerto com entusiasmo contagiante. São pessoas que não apenas lotam a plateia, mas também demonstram amor de forma vibrante, como fãs de bandas e cantores de ritmos mais pop: vestem camisas estampadas com frases como “Viva Osba”, se levantam para dançar ao ritmo da orquestra e se emocionam ao ver os músicos de perto. A energia coletiva transforma cada apresentação em uma celebração, mostrando que a Osba se tornou patrimônio afetivo da Bahia.

"Conseguimos lotar facilmente a Concha Acústica com cinco mil pessoas, assim como vender concertos consecutivos que esgotam rapidamente, tanto para uma programação de música barroca, quanto para uma de música contemporânea e experimental. Os Osba-fãs ou, como diz o nosso maestro Carlos Prazeres, os Orquestra Crush, vêm desse hábito criado aqui das pessoas frequentarem a orquestra pela orquestra. Não é tão importante qual repertório vai ser tocado, pois a orquestra tem uma identidade atrativa. E ter isso é um sonho. Hoje em dia, o desafio das orquestras sinfônicas, em termos internacionais, inclusive, é exatamente criar uma fidelidade de público assim", analisa o professor Lucas Robatto.

Apresentação do Quinteto de Metais da Osba em um supermercado em 1989
Apresentação do Quinteto de Metais da Osba em um supermercado em 1989 - Foto: Cedoc A TARDE/29.3.1989

O flautista explica que, mesmo com mais de quatro décadas na OSBA, ou talvez justamente por estar lá esse tempo todo, é difícil escolher um momento que mais o marcou. "Poderia falar das apresentações com outros artistas, como a turnê com Gilberto Gil, os concertos menores, como o de música barroca, que toca muito próximo de minha alma, ou algum dos muitos outros momentos de riqueza e intensidade musical. Na realidade, acredito que os concertos que mais me emocionaram foram aqueles em que o público esteve engajado, quando se levanta para dançar. Vi isso acontecer e isso é algo que é novo. Não deveria ser, pois está na origem da música. Mas é muito bonito de ver, muito emocionante. São nesses momentos que a gente sente que tudo vale a pena", afirma Lucas Robatto.

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*Com a colaboração de Andreia Santana e Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.

*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE

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cultura baiana História da Música Erudita Lucas Robatto Movimentos Culturais Orquestra Sinfônica da Bahia teatro castro alves

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