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A Tarde Memória

Por Andreia Santana*

ACERVO DA COLUNA
Publicado sábado, 05 de abril de 2025 às 6:00 h | Autor:

Acervos valorizam legado e olhar de Pierre Verger sobre a cultura baiana

Cedoc A TARDE reconta a trajetória do fotógrafo francês que viveu 50 anos na Bahia

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Pierre Verger viveu na Bahia de 1946 a 1996
Pierre Verger viveu na Bahia de 1946 a 1996 -

“No ano de 1946, vindo de todos os caminhos e encruzilhadas do mundo, chegou à Bahia um Exú dos melhores. Chegou com seus olhos cor de mormaço cheios de perguntas, um baú de lata e uma roleiflex pendurada no pescoço”. Carybé, em um dos textos de apresentação do livro ‘Retratos da Bahia’ (Editora Corrupio), descreve o desembarque de seu amigo Pierre Verger em Salvador ressaltando a curiosidade e o olhar encantado do fotógrafo e etnólogo francês sobre a cultura e a gente local.

No mesmo livro, Jorge Amado conta que Mãe Senhora, ialorixá do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá entre 1945 e 1967, dizia que Verger, seu filho de santo, era ‘feiticeiro’. “Tanto amor habita o coração de Pierre Verger a ponto de lhe conferir o dom da feitiçaria. Não por acaso, ele é Oju Obá, os olhos de Xangô. Olhos para ver e fixar a verdade, o drama e a beleza da cidade, a poesia, a força e a dignidade do povo da Bahia”, acrescenta Jorge Amado no texto onde além de falar de Verger, também celebra o próprio Carybé. Os três cultivaram uma longa amizade de décadas.

O olhar encantado e atento do fotógrafo e antropólogo resultou em um acervo fotográfico de milhares de imagens que registram a cultura, a religiosidade e os modos de ser dos baianos de Salvador e do interior. Nas cinco décadas em que Verger fez de Salvador a sua terra, ele sempre foi o Oju Obá atento e zeloso em retratar as pessoas comuns na lida diária, as grandes ialorixás das casas históricas de candomblé, as festas, as ruas e os mistérios, principalmente da bucólica Bahia dos anos 1940/50. Ele viveu em Salvador até 1996, ano de sua morte e, antes disso, ainda em 1988, criou a fundação que leva seu nome para ser a guardiã do seu legado histórico e cultural.

Além da fundação, a herança intelectual do fotógrafo, escritor e pesquisador também está presente no Espaço Pierre Verger de Fotografia Baiana, que funciona no Forte de Santa Maria, construção do século XVII, no Porto da Barra. A exposição permanente no local abriga mais de cinco mil fotografias de Verger e de outros 100 fotógrafos.

Fora do espaço desses equipamentos culturais, a herança de Verger também sobrevive no Centro de Documentação (Cedoc) de A TARDE, por meio de imagens e reportagens sobre o fotógrafo. Um dos mais antigos registros no jornal sobre ele data de 1959, uma reportagem anunciando uma mostra da Bahia dentro da Bienal de Artes Plásticas de São Paulo, que ocorreria em setembro daquele ano.

“A Bienal de Artes Plásticas terá um pavilhão dedicado à Bahia. Esta exposição inaugurar-se-á em 31 de setembro de 1959. Fica aberta até dezembro. Trata-se de uma grandiosa amostra da vida social de Salvador, incluindo aspectos do cotidiano e religião, tudo apresentado com grande profundidade crítica. A parte fixa constará de fotos em tamanhos variados, de até dois metros, feitas por Pierre Verger, sobre a cidade do Salvador. Um levantamento crítico de sua vida, seus costumes, suas religiões, seus hábitos cotidianos”, diz o texto publicado em 21 de setembro de 1959.

A reportagem ainda anuncia que além das fotos de Verger, a Bienal de Artes Plásticas iria receber esculturas de artistas baianos e apresentações de tradições culturais baianas. “Também estará presente um grupo de tocadores e jogadores de capoeira, três baianas festivamente vestidas, levando seus tabuleiros com acarajés e abarás, seis baianas com suas roupas mais bonitas e seus adornos legítimos e dois jogadores de Pernada. Esta gente, com a exibição de roupas e de suas danças, darão a côr baiana à exposição”, enumera o repórter.

Pierre Verger autografando um dos seus livros O primeiro que ele publicou no Brasil foi Retratos da Bahia
Pierre Verger autografando um dos seus livros O primeiro que ele publicou no Brasil foi Retratos da Bahia | Foto: Cedoc A TARDE 01-10-1986

Samba e documentário

Em ‘Retratos da Bahia’, primeiro livro de Verger publicado no Brasil, em 1980 - antes ele havia publicado mais de 70 obras no exterior -, o próprio etnólogo, que recebeu o nome religioso no candomblé de Fatumbi, descreve sua chegada à Bahia na madrugada de 05 de agosto de 1946. “Cheguei na Bahia a bordo de um pequeno vapor da Companhia de Navegação Costeira, o Comandante Capella. Era um navio muito velho e vagaroso, que fazia sua última viagem. [...] Do convés do navio, vimos nascer, na madrugada, os primeiros reflexos do sol, destacando-se desse fundo luminoso, as silhuetas das torres das igrejas da Cidade Alta”, conta Verger, que na época estava com 41 anos. Ele nasceu em 04 de novembro de 1902, em Paris, e até então havia trabalhado como fotojornalista, inclusive cobrindo guerras pelo mundo.

A trajetória riquíssima da vida de Verger foi tema de samba-enredo e de documentário. Nas duas ocasiões, A TARDE deu destaque às homenagens, que foram anunciadas cerca de um ano depois da morte do fotógrafo, ocorrida em 11 de fevereiro de 1996. Em 1998, o tema da Escola de Samba União da Ilha foi Fatumbi. O anúncio do tema foi publicado em 04 de maio de 1997, em reportagem de página inteira do Caderno 2.

“Levar Pierre Verger para a avenida é fazer a ponte entre África e Brasil na grande festa de rua brasileira. Ele tem tudo a ver com o conhecimento das nossas raízes, a compreensão da negritude e por isso, tem tudo a ver com Camaval”, afirmou, na ocasião, o carnavalesco Milton Cunha, responsável pelo desfile.

Já o documentário foi noticiado na edição de 21 de dezembro de 1997 da Revista da TV de A TARDE. A reportagem conta que a ideia do documentário, da produtora Conspiração Filmes, surgiu durante as gravações de outro documentário, ‘Tempo Rei’, sobre Gilberto Gil. O cantor tinha vindo a Salvador gravar uma participação de Verger em Tempo Rei e a produtora responsável resolveu transformar o fotógrafo em tema de outro projeto. “Pierre Verger tem uma história de vida incrível. Durante anos percorreu o mundo fotografando. Ao chegar em Salvador, em 1946, apaixonou-se por seu povo e sua cultura. Procurou, desde então, resgatar as raízes da cultura negra, o que o levou a ser considerado uma das maiores autoridades do mundo no assunto”, justificou, na época, Lula Buarque, da Conspiração Filmes.

As filmagens para o documentário sobre Verger ocorreram em Salvador e no continente africano, mais especificamente, na região do Golfo do Benin. Verger foi muitas vezes para a África, principalmente para a Nigéria, pesquisar as origens dos povos africanos que desembarcaram na Bahia por conta do tráfico negreiro que alimentava a indústria da escravização negra, nos tempos coloniais. O candomblé, que ele conheceu na Bahia, o levou a essas pesquisas e a buscar entender as correlações entre os terreiros baianos e as religiões africanas.

Instalação recria oratório e celebra a religiosidade popular baiana no Espaço Pierre Verger de Fotografia
Instalação recria oratório e celebra a religiosidade popular baiana no Espaço Pierre Verger de Fotografia | Foto: Priscila Dórea | Ag. A TARDE

Exposição permanente

“Verger é muito conhecido por retratar aspectos culturais e antropológicos em relação às sociedades, como também se dedicou muito a fotografar sobre os candomblés de Salvador e em outros locais, como no interior da Bahia. Ele teve uma dedicação muito grande em retratar muitas das culturas e vivências do candomblé, obviamente, com todo um processo de respeito, mas também porque se dedicava muito à pesquisa em si, muito incentivado pela Mãe Senhora”, afirma Tamiles Doralício, a mediadora cultural do Espaço Pierre Verger de Fotografia Baiana.

Segundo Tamiles Doralício, a partir das imagens no acervo, é possível relacionar o passado de Verger, a partir dos anos 1940 até os anos 1980, com a Salvador de hoje em dia. Ao todo, são mais de 10 mil fotos, sendo cinco mil só de Verger. Embora tenha trabalhos de outros 100 fotógrafos, são os eixos temáticos cobertos pelo fotógrafo francês que determinam a divisão da mostra pelo espaço do museu. “Nós temos retratos e temos recortes em relação a Salvador, a cidade em si, com fotografias relacionadas às paisagens, cultos afro e o interior baiano”, enumera a mediadora.

Retrato de Mãe Senhora feito por Verger e um dos destaques do Espaço Pierre Verger de Fotografia
Retrato de Mãe Senhora feito por Verger e um dos destaques do Espaço Pierre Verger de Fotografia | Foto: Priscila Dórea | Ag. A TARDE

O museu recebe visitas de diversos públicos, tanto moradores de Salvador e do interior do estado, quanto turistas do restante do Brasil e do exterior. Também há projetos voltados para a educação. “Nós recebemos públicos mais voltados também às escolas, a esse processo de educação patrimonial. Afinal, a gente tem um patrimônio histórico, que é o Forte de Santa Maria. Também temos nesses locais, nesses espaços culturais, a possibilidade de contar a nossa história, o passado e o que a gente está vivendo hoje. Estar dentro desses locais, desses espaços, é basicamente valorizar a nossa cultura, a nossa vivência”, acredita Tamiles Doralício.

O acervo no Forte de Santa Maria pode ser visitado de quarta à segundo, incluindo sábados, domingos e feriados, sempre das 9h às 17h, com entrada e venda de ingressos [R$ 20 e R$ 10] até 16h. Nas terças-feiras o espaço não abre.

Em 1997, A TARDE destacou que Pierre Verger seria tema de desfile de escola de samba no Rio de Janeiro

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Também em 1997, o jornal noticiou que Verger seria tema de um documentário

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Reportagem do Cad2+ de A TARDE de 2016 anuncia criação do Espaço Pierre Verger de Fotografia Baiana

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*Colaboraram Priscila Dórea e Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época

*Material elaborado com base em edições de A TARDE e acervo do CEDOC/A TARDE

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