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A Tarde Memória

Por Andreia Santana e Priscila Dórea*

ACERVO DA COLUNA
Publicado | Autor:

Baianos acamparam no Observatório Antares para ver o Halley

Passagem do cometa em 1986 foi esperada com expectativa em todo o Brasil e contribuiu para popularizar a astronomia e os temas ligados ao universo

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Baianos tentaram avistar o Halley nos telescópios do Observatório Antares
Baianos tentaram avistar o Halley nos telescópios do Observatório Antares -

Barracas de camping alteraram a paisagem nos arredores do Observatório Astronômico Antares, em Feira de Santana, em abril de 1986. As atenções estavam voltadas para o céu, onde a visita de um ilustre corpo celeste era aguardada com expectativa pelas pessoas que se deslocaram das cidades vizinhas só para não perder a oportunidade de uma vida, ver a passagem do Cometa Halley, um fenômeno que só ocorre a cada 75 ou 76 anos.

Na Bahia, o principal ponto de avistagem do cometa era o Antares, inaugurado em 1971 e incorporado à Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) em 1992. Um dos fundadores do Antares, o matemático e professor César Orrico, atualmente consultor científico do Planetário da UFBA, explica que o Observatório, o primeiro montado no Estado, teve uma missão importante de aproveitar a comoção gerada com a passagem do Halley para divulgar a astronomia, uma área da ciência até então pouco conhecida.

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Baianos usaram até binóculos para tentar enxergar o cometa
Baianos usaram até binóculos para tentar enxergar o cometa | Foto: Cedoc A TARDE/11.4.1986

"E nós nos estruturamos para isso: além dos equipamentos profissionais que tínhamos, conseguimos telescópios para atender a comunidade. As pessoas chegaram com até 48 horas de antecedência e acamparam no terreno do Observatório. Muitas diziam, ‘tenho de ver, só passa a cada 76 anos, não estarei mais vivo quando vier de novo’", recorda César Orrico.

O ponto alto do brilho do Halley no céu foi em 11 de abril de 1986. Na edição do dia 10, A TARDE publicou instruções de como as pessoas poderiam chegar até Feira de Santana e ter acesso ao Observatório: "Ao chegar ao 'Antares', o visitante deve comprar o ingresso na bilheteria, ao preço de Cz$20,00 (Vinte Cruzados). Geralmente não há fila para entrar, pois existem dois portões. Não há limite de tempo para permanecer no 'Antares', onde, além de poder observar o cometa (existem oito telescópios para o público), orientado por funcionários treinados, o visitante poderá comprar objetos alusivos ao Halley".

Também foram organizados, pela então Nordeste Linhas Aéreas, voos para ver o cometa. A aeronave utilizada foi um turbo-hélice Bandeirante, de fabricação nacional que, segundo reportagem de A TARDE, decolou às 21h de 11 de abril. Quem se prontificou a pagar a passagem de Cz$500,00 (Quinhentos Cruzados), teve direito a serviço de bordo durante o sobrevoo. O problema é que o cometa não colaborou e o show foi pouco mais que um fiasco.

“O céu estava limpo e estrelado, num espetáculo que só não teve mesmo a presença do astro tão esperado: o cometa Halley. Ele simplesmente não apareceu, apesar dos binóculos e lunetas atentos que esquadrinhavam o infinito, deixando frustrados os passageiros do Vôo do Cometa", relata a edição de A TARDE do dia seguinte, 12 de abril.

Imagem da Nasa do Cometa Halley
Imagem da Nasa do Cometa Halley | Foto: Cedoc: A TARDE 04-12-1985

Brilho distante

Desde o início de abril, as edições de A TARDE traziam reportagens quase diárias sobre as expectativas pela passagem do Cometa Halley. Ainda no dia 11, o jornal orientava: "Se você tem à mão uma luneta, binóculo ou telescópio, direcione o equipamento para a Constelação do Cruzeiro do Sul (a mais conhecida pelos leigos em astronomia) e ali bem perto, acima e à esquerda, verá o mais brilhante dos cometas, o Halley".

Apesar do astro em si ter um brilho bastante intenso, a distância e outros fatores não permitiram que ele demonstrasse todo o seu potencial naquele ano. A distância mais próxima que o Halley chegou da Terra em 1986 foi de 63 milhões de quilômetros, o que não permitiu que a aparição proporcionasse o show que muita gente esperava.

"A passagem do cometa Halley tem gerado uma série de expectativas no cidadão comum, que, apesar da intensa divulgação feita pelos meios de comunicação, teme ser surpreendido pela decepção de constatar que todo o brilho anunciado pode não passar de um pontinho no céu", dizia o jornal em outra reportagem sobre o cometa, essa de 9 de abril de 1986.

Observatório Antares, em Feira, atraiu pessoas de várias cidades baianas
Observatório Antares, em Feira, atraiu pessoas de várias cidades baianas | Foto: Cedoc A TARDE/11.4.1986

As pessoas que gastaram os Cz$500,00 no Voo do Cometa, por exemplo, não viram quase nada. Mas, quem levou sua barraquinha para o terreno do Antares teve mais sorte e gastando bem menos. " A previsão meteorológica ajudou bastante e com o equipamento, muita gente conseguiu ver e até fotografar. mesmo que ele ficasse bem pequeno nas fotos. No telescópio ele ficava um pouquinho maior", relembra César Orrico.

Poeira do universo

O astrônomo Alberto Silva Betzler, professor da Ufba, explica que em 1986, a própria luminosidade urbana atrapalhou o avistamento do cometa. “Mais de 70% da população já vivia em cidades com um nível de poluição luminosa muito alta, então ele até podia ser visto no auge de seu brilho, mas esse brilho estava espalhado numa área mais ou menos do tamanho da lua cheia, muito esvanecido para se ver em um céu poluído como o de [cidades como] Salvador, Rio de Janeiro ou São Paulo".

O professor Alberto explica que os cometas são resíduos da origem do Sistema Solar formados basicamente de gelo de água e poeira "mais ou menos parecida com a poeira comum que temos em casa, de silício”. Ainda de acordo com ele, o Halley é o mais famoso dos cometas e foi também o primeiro a ser identificado. “Esses objetos são primordiais e podem nos dar um panorama de como o Sistema Solar se formou e evoluiu, do ponto de vista químico e dinâmico, dos movimentos dos corpos [celestes]", acrescenta.

Estudos indicam que existem registros do Halley desde 239 a.C., mas só em 1705 ele ganhou lugar definitivo na história da astronomia. Naquele ano, o astrônomo e matemático inglês Edmond Halley calculou a trajetória de 24 cometas e percebeu que aqueles que haviam aparecido em 1456, 1607 e 1682 seguiam a mesma órbita, retornando a cada 76 anos.

Panfleto com campanha do Antares para a espera do Halley
Panfleto com campanha do Antares para a espera do Halley | Foto: Cedoc A TARDE/20.10.1985

"O cientista inglês concluiu, então, que se tratava do mesmo objeto celeste e previu sua volta para o ano de 1759. Embora de forma 'póstuma' - o astrônomo morreu em 1742 - Halley estava certo e seu nome passou para a história, associado ao cometa por ele descoberto e estudado", explica A TARDE na edição de 16 de outubro de 1982.

Medo e desinformação

Antes de 1986, as outras passagens do Halley pela Terra apavoraram a humanidade. Segundo relata reportagem de A TARDE de 8 de abril de 1986, o cometa chegou a ser excomungado por um papa na Idade Média, que determinou que ele “voltasse para as profundas do Inferno de onde havia saído”. Ainda de acordo com a reportagem, a passagem do Halley mais bem documentada da história ocorreu já no século XX, em 1910, com os jornais da época ressaltando o medo da população com a aproximação do cometa.

A reportagem de 1986 mergulhou em edições de periódicos baianos anteriores à existência de A TARDE e ouviu pessoas, na época, com mais de 80 anos e que lembravam dos eventos de 1910, quando parte da população acreditava que a Terra passaria pela cauda do Halley, supostamente formada por gases venenosos, e que isso levaria ao fim de toda a vida no planeta.

Entre os entrevistados para a reportagem de 1986 estava o professor Antônio Dias, que compartilhou com muito bom humor suas lembranças da passagem do Halley no início do século XX. Segundo ele contou ao repórter, antes das 7 horas da noite, seu pai levou os filhos para um lugar descampado, onde viram o cometa. Em outro trecho, ele revelou que perto das 8 horas, ninguém saía de casa e olhava para o céu. “Foi disso que se aproveitou um gaiato da Rua do Jenipapeiro para apavorar o bairro. Quando deu 8 horas em ponto, o gaiato soltou uma espada, dessas que hoje se fazem nas batalhas no São João. Quando se ouviu o foguete chiando na rua foi um pânico dos maiores", relatou.

Ainda em 1910, várias pessoas tiveram ataques, algumas se atiraram na frente das imagens de santos que tinham em casa e outras precisaram de atendimento médico. "O professor Antônio Dias lembra-se de que um senhor teve tanto medo, que saiu gritando pelas ruas, pedindo perdão a Deus por seus pecados. Ficou apelidado de 'Gata Prenha', pela forma como gritava, semelhante a uma gata tendo os filhotes", acrescenta a reportagem.

Em 1910, o Halley passou a cerca de 20 milhões de quilômetros da órbita terrestre e seu avistamento aconteceu mais cedo, diferente da passagem em 1986, quando o auge do brilho do cometa era no meio da madrugada. "Há ainda a questão de como a população estava distribuída. Em 1910, a maioria da população mundial morava no campo, em lugares com um nível de iluminação muito pequeno, fazendo o cometa se destacar muito no céu”, pontua o astrônomo Alberto Betzler.

Halleymania

O professor Alberto tinha apenas 13 anos quando o Halley apareceu em 1986. Mas, como ele mesmo conta, era um adolescente muito interessado em ciências e astronomia, principalmente por causa da série Cosmos, de Carl Sagan, exibida na TV, e por filmes como Star Wars. Ele lembra, no entanto, que foi uma das pessoas que na época não conseguiu boa visualização do cometa. Mesmo morando em uma área do Rio de Janeiro com um nível baixo de poluição luminosa, ele ainda não sabia como encontrar o Halley no céu e o fato do cometa aparecer mais brilhante só na madrugada era um empecilho.

"Não tinha condição de me deslocar com minha família para um observatório público, então não cheguei a observar o Halley, mas toda a Halleymania que surgiu depois fez com que as pessoas percebessem que estamos inseridos no universo e foi um catalisador para que eu mantivesse esse interesse e me tornasse um astrônomo profissional", conta.

Público usa telescópios do Antares para Observar o Halley no céu da Bahia
Público usa telescópios do Antares para Observar o Halley no céu da Bahia | Foto: Cedoc A TARDE/11.4.1986

A Halleymania a que o professor se refere atingiu ainda outra área bastante peculiar para os brasileiros, os registros civis. Entre 1980 e 1989 houve um boom de nascimentos de Halleys. Hoje, o Brasil tem 855 Halleys, de acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE.

Na esfera da cultura, uma revista em quadrinhos chamada A Era do Halley foi publicada pela editora Abril entre 1985 e 1986. O cometa também ganhou um musical especial na TV Globo, em 1985. E, em Salvador, no bairro de Fazenda Grande II (Cajazeiras), foi aberto o Espaço Cometa Halley, um bar que organizava shows ao vivo.

Hoje, afirma César Orrico, vivemos um outro momento da astronomia, na era super tecnológica e com a possibilidade dos sobrevoos à Lua serem acompanhados em tempo real, no canal da Nasa no Youtube.

"Na última vez que o cometa Halley passou a astronomia era uma coisa muito distante. O próprio Halley despertou a vocação de muitas pessoas e são justamente esses corpos que vêm dos confins do Sistema Solar, principalmente os cometas, que atiçam a curiosidade. Assim como os lançamentos, a exemplo da Artemis II, que acabou de ser lançada, e outras missões que estão por vir. Isso faz com que as pessoas observem o céu e o universo. E isso é muito bom, pois encanta, inspira e desperta vocações", afirma.

A próxima passagem do Halley pela órbita da Terra deve acontecer em 2061, provavelmente no mês de julho.

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Reportagem relembra pânico com a passagem do cometa Halley em 1910 1554.04kb
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Baianos se dividiram sobre a espera pela passagem do Halley em 1986 1493.24kb

*Com a colaboração de Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.

*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE

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