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A Tarde Memória

Por Priscila Dórea*

ACERVO DA COLUNA
Publicado sábado, 29 de novembro de 2025 às 10:43 h | Autor:

Carneiro Ribeiro: O mestre responsável por formar outros intelectuais

Nascido em Itaparica, em 1839, baiano foi um dos primeiros a lutar pelo reconhecimento da variante da língua portuguesa falada no Brasil

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Professor Ernesto Carneiro Ribeiro nasceu em Itaparica em 1839 e foi mestre de intelectuais como Ruy Barbosa e Euclides da Cunha. Ele morreu em 1920
Professor Ernesto Carneiro Ribeiro nasceu em Itaparica em 1839 e foi mestre de intelectuais como Ruy Barbosa e Euclides da Cunha. Ele morreu em 1920 -

Em uma época em que o Brasil ainda vivia sob o peso da escravidão e da exclusão, Ernesto Carneiro Ribeiro, baiano nascido na Ilha de Itaparica, ergueu-se como símbolo da intelectualidade negra. Médico, filólogo e, acima de tudo, um educador, Carneiro Ribeiro atravessou o século XIX como um dos maiores nomes da educação brasileira. Mestre de várias gerações de intelectuais e com uma trajetória marcada pela força de quem rompeu barreiras sociais e raciais, ele se tornou um dos primeiros estudiosos sistemáticos da língua portuguesa no país e um pioneiro no estudo da linguística, mostrando que a língua é um instrumento de poder e cidadania.

Filho do escrivão José Carneiro Ribeiro e de Claudeana Ramos, Ernesto nasceu no dia 12 de setembro de 1839 e viveu durante a infância e parte da adolescência em Itaparica, seu local de nascimento, em um ambiente que valorizava a escrita e a educação. Em contato com o mundo das letras desde cedo por causa do pai, ele se formou na escola primária ainda na ilha e, aos 13 anos, se mudou para Salvador onde cursou a escola secundária no Liceu Provincial. Se formou em 1858 e logo depois foi convidado pelo médico Francisco Sebrão para lecionar filosofia no Colégio São João.

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Nessa época, começou seus estudos na Faculdade de Medicina da Bahia, no Terreiro de Jesus, onde se formou em 1864, aos 25 anos, com a tese 'Relações da Medicina com as Ciências Filosóficas'. Simultaneamente, ensinava inglês e francês no Ginásio Baiano. "Ele se notabilizou como professor e educador, iniciando sua trajetória no Ginásio Baiano de Abílio César Borges (Barão de Macaúbas), uma importante escola que era ocupada por estudantes das camadas elitizadas da Bahia, e ali também se tornou vice-diretor escolar", conta Ismael Pitanga, professor e mestre em História.

Em sua dissertação de mestrado intitulada 'Ernesto Carneiro Ribeiro: Trajetória Intelectual de um Professor Negro na Educação da Bahia (1839-1920)', Ismael Pitanga explica que o Ginásio Baiano possuía dormitórios para alunos e professores e “nesse espaço, Carneiro Ribeiro passou a residir e dedicar-se integralmente à escola e aos estudos". O historiador aponta ainda que, apesar de não ser de família necessariamente pobre, Carneiro Ribeiro teve de se autossustentar em Salvador, na busca por viver sem auxílio enviado de casa.

"Dar aulas em 'casas' era uma das atividades econômicas realizadas por professores durante o século XIX, uma vez que boa parte das aulas elementares não se localizava em prédios apropriados. Em sua maioria, estavam acomodadas em salas e espaços improvisados", explica Ismael.

Mestre rigoroso

Estudar e trabalhar não era uma rotina estranha para Carneiro Ribeiro, ainda adolescente, ajudava o pai no trabalho de escrivão. As aulas que ministrava no Colégio São João e no Ginásio Baiano, em simultâneo com os estudos da Faculdade de Medicina, permitiu que transitasse e construísse boas relações com parte da elite letrada que atuava na educação da Bahia, explica Ismael.

O historiador chama a atenção para a ascensão de Ernesto Carneiro Ribeiro enquanto homem negro em meio a elite branca em um momento complexo e cheio de contradições e tensões raciais. “Os discursos produzidos pela elite intelectual baiana enaltecendo a figura do professor Carneiro Ribeiro apontam para um bom trânsito dessa personalidade neste universo; ou, pelo menos, não deixaram à vista as tensões sociais e raciais vividas pelo professor em situações que faziam parte do cotidiano da Primeira República, fazendo transparecer um ambiente de harmonia social, aspecto idealizado no período”, argumenta Ismael em sua dissertação.

Em 1883, quando a sociedade do Ginásio Baiano foi desfeita, Carneiro Ribeiro começou a dar aulas particulares na própria casa. A sua fama como professor, principalmente após ter lecionado em duas das escolas de maior prestígio da Bahia, dava à sociedade confiança quanto a sua capacidade para educar e dirigir um internato. No ano seguinte, fundou o Ginásio Carneiro Ribeiro, dirigindo a instituição com grande rigor moral. O 'Velho Carneiro', como alunos o chamavam, exigia dos estudantes postura exemplar e obediência às regras.

"Por ser a moral constitutiva de um projeto civilizatório, a escola, por sua vez, servia como um instrumento propagador dessa ideologia. A relação entre as práticas de educar, de internar e de disciplinar para civilizar eram indissociáveis no modelo de internato e o Ginásio Carneiro Ribeiro estava estruturado para cumprir tais diretrizes", explica Ismael.

O amplo conhecimento e reconhecimento de Ernesto Carneiro Ribeiro ainda lhe rendeu outros importantes cargos na sociedade baiana, como diretor e professor do Liceu Provincial; diretor da Instrução Pública, cargo equivalente à atual função de Secretário de Educação, e membro fundador da Academia de Letras da Bahia, onde foi o primeiro presidente.

Um homem de prestígio

O mestre Carneiro Ribeiro era muito prestigiado pela sociedade baiana e até sua morte, em 1920, figurou com destaque nas páginas de jornais como A TARDE. De datas festivas, como o seu aniversário, a eventos em que era homenageado ou palestrante, o educador era notícia recorrente. "O anniversario natalício do dr. Ernesto Carneiro Ribeiro não deve passar somente entre as alegrias de sua família e de seus discípulos. Poucos homens, têm tanto, como o velho educador, direito a todas as homenagens da Bahia, cuja existência tem sido toda consumida na árdua e benemérita tarefa de educar a mocidade. (...) A Tarde considera um cumprimento de dever deixar, nesses conceitos, as suas homenagens ao illustre ancião", parabenizou o jornal na edição de 12 de setembro de 1913, nos 74 anos do intelectual e professor.

Outras publicações frequentes eram os anúncios que sinalizam onde adquirir os livros de Carneiro Ribeiro. Em 17 de junho de 1915, A TARDE anunciou com destaque que uma obra de grande sucesso havia acabado de "sahir dos prelos. Serôes Grammaticaes ou Nova Grammatica Portugueza, pelo Dr. Ernesto Carneiro Ribeiro (lente jubilado do Gymnasio da Bahia) 2ª Edição. Aumentada e cuidadosamente revista pelo autor". O livro custava 15$000 (quinze mil cruzeiros) e estava à venda na Catilina, uma das primeiras livrarias do Nordeste, localizada em Salvador. Além de Carneiro Ribeiro, a Catilina publicou obras de outros autores baianos renomados, como Castro Alves e Ruy Barbosa. Esse último teve o intelectual itaparicano como mestre e, anos mais tarde, protagonizaria uma polêmica gramatical com o antigo mentor.

Centro Educacional Carneiro Ribeiro, conhecido como Escola Parque, foi idealizado por Anísio Teixeira, em 1950, e recebeu seu nome em homenagem a Ernesto Carneiro Ribeiro
Centro Educacional Carneiro Ribeiro, conhecido como Escola Parque, foi idealizado por Anísio Teixeira, em 1950, e recebeu seu nome em homenagem a Ernesto Carneiro Ribeiro

Formador de várias gerações de pensadores que ajudaram a moldar o Brasil do começo da República, Carneiro Ribeiro influenciou a formação também de políticos baianos ao longo do século XIX e início do século XX. "Sua contribuição para a formação desses pensadores intelectuais fica evidente a partir das homenagens proferidas após a sua morte, em 1920. Na ocasião do centenário do seu nascimento [1939], essas homenagens se intensificaram nas instituições públicas da Bahia, principalmente na Academia de Letras, onde diversos intelectuais, como Bernardino de Souza, oferecem e proferem homenagens ao Carneiro Ribeiro, acentuando a sua importância enquanto educador", acrescenta o professor Ismael Pitanga.

Língua portuguesa do Brasil

Muitos dos seus alunos seguiram carreira de destaque em medicina, educação, direito e outras áreas, como o escritor e jornalista Euclides da Cunha, autor do clássico Os sertões, sobre a Guerra de Canudos, e o médico e político Rodrigues Lima. Porém, a história com seu ex-aluno do Ginásio Baiano, o político e jurista Ruy Barbosa, é uma das mais memoráveis.

Tudo começou quando o então presidente da república, Campos Sales, resolveu elaborar um Código Civil dentro do novo regime republicano. O texto foi redigido por dezenas de pessoas e quando chegou às mãos de J. J. Seabra, então deputado, este afirmou que o projeto precisava ter seu português revisado e foi atrás de Carneiro Ribeiro para que o velho mestre revisasse a gramática dos 1832 artigos que formavam o código.

Essa história quem conta é a mestra em língua portuguesa Mariléa Giacomini Arruda na dissertação 'A polêmica gramatical entre Rui Barbosa e Ernesto Carneiro Ribeiro sobre a redação do Projeto do Código Civil', Segundo Mariléa, mesmo hesitante, Carneiro Ribeiro fez a revisão gramatical e literária em quatro dias e algumas horas, contribuindo com 77 emendas. Porém, quando o projeto chegou na Comissão Especial do Senado, sob a presidência de Ruy Barbosa, a “batalha” gramatical começou. "RB [Ruy Barbosa] não se ateve só à matéria jurídica, mas foi além, modificou a redação de vários dispositivos que lhe pareciam obscuros, malsoantes, e até mesmo gramaticalmente defeituosos", escreve Mariléa.

Ruy Barbosa afirmou que a obra precisava de revisão profunda, enquanto Carneiro Ribeiro não se conformou com as correções do jurista. Em sua tréplica, o Velho Carneiro comentou cada uma das pontuações das 'Ligeiras Observações' de Ruy Barbosa, assim como as ementas idealizadas pelo senador, afirmando que "umas há que são justas; outras, injustas e infundadas; algumas erradas", aponta a dissertação de Mariléa. Carneiro Ribeiro respondeu com firmeza, defendendo sua revisão e acusando Barbosa de exagero.

No fim, a Comissão da Câmara acabou tendendo para o lado de Ruy Barbosa e esse episódio se transformou em uma das maiores polêmicas intelectuais da história brasileira, repercutindo entre literatos, escritores e jornalistas. Esse embate não foi apenas técnico, mas simbolizou a disputa entre duas visões da língua: uma normativa e elitista, outra mais pragmática e voltada ao uso social. A polêmica, no entanto, não diminuiu a importância de Ernesto Carneiro Ribeiro. Muito pelo contrário, o consolidou como um dos grandes mestres na história da língua portuguesa e da educação.

Quando defendeu os "brasileirismos" e enfrentou o "purismo" de Ruy Barbosa no projeto do Código Civil, Carneiro Ribeiro não estava apenas discutindo gramática, estava afirmando que a língua é viva e pertence ao povo. Sua coragem intelectual o tornou uma figura respeitada e muito querida, mesmo com todo o rigor que conduzia o seu modo de educar.

A influência de Carneiro Ribeiro fez com que intelectuais e políticos fizessem registros em diferentes espaços públicos, como escolas, praças públicas, ruas e avenidas com o seu nome. Ele ganhou um busto, em 1932, idealizado por ex-alunos. Entre as escolas que homenageiam o velho mestre, lembra Ismael Pitanga, destaca-se o Centro Educacional Carneiro Ribeiro ou Escola Parque, instituição idealizada por Anísio de Teixeira em 1950, quando o mesmo exercia a função de Secretário de Educação do governo de Otávio Mangabeira.

A Escola Parque fazia parte de um projeto para reformular o ensino na Bahia a partir de centros populares de educação em todo o estado, o primeiro foi construído em Salvador, no bairro da Liberdade, e era voltado para crianças e adolescentes até 18 anos. A ideia era que os centros forneceriam educação integral, alimentação, higiene, socialização e preparação para o trabalho e cidadania, valores defendidos por Carneiro Ribeiro ainda no século XIX.

Carneiro Ribeiro morreu na manhã de 13 de novembro de 1920, aos 81 anos. As mensagens, homenagens e agradecimentos por seus ensinamentos duraram semanas. A TARDE noticiou a morte do intelectual na capa da edição do mesmo dia, no alto da página e com uma fotografia do professor, destacando logo na abertura do texto: “Mestre da mocidade há mais de meio século, mestre, portanto, de muitos velhos de hoie, o dr. Ernesto Carneiro Ribeiro é uma dessas figuras imponentes, que atravessam épocas”.

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*Com a colaboração de Andreia Santana e Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas

*Material elaborado com base no acervo do CEDOC/A TARDE

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