Busca interna do iBahia
HOME > colunistas > A TARDE MEMÓRIA
COLUNA

A Tarde Memória

Por Cleidiana Ramos*

ACERVO DA COLUNA
Publicado sábado, 22 de maio de 2021 às 11:41 h | Autor:

Chamado de frei, Antônio Jacu foi apontado como um novo Conselheiro

Ouvir Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no X Compartilhar no Email
Ilustração: Túlio Carapiá | Ag. A TARDE
Ilustração: Túlio Carapiá | Ag. A TARDE -
Após 15 anos da saga de Antônio Conselheiro em Canudos, a Bahia tinha um novo candidato a líder religioso carismático. Esse foi o alerta da reportagem de A TARDE publicada na edição de 23 de novembro de 1912. Mas o texto também trouxe o tom de alívio devido à prisão do homem considerado uma ameaça: Antônio Jacu, apontado como um frei, termo utilizado para designar um membro de grupos da ordem franciscana.
O caso foi noticiado a partir de Canavieiras, município localizado no sul do estado, mas há possibilidade de que ele tenha ocorrido em outra região: o hoje município de Capim Grosso. As informações para o registro do episódio são atribuídas a Manoel Pedro Bombinho, que foi testemunha da Guerra de Canudos e escreveu sobre ela, embora sua obra só tenha sido publicada há apenas 19 anos.
“Essa notícia no jornal é um registro breve, mas extraordinário do ponto de vista da cultura”, avalia o doutor em antropologia Claudio Luiz Pereira. Antropólogo, Pereira é autor dos trabalhos intitulados Seguindo a voz de Deus: narrativas e etnografia em um caso de sacrifício de crianças em Salvador (1977-2001) e Línguas de fogo, rios de água viva – etnografia da experiência religiosa pentecostal em Salvador.
Em 1912 tinha apenas 15 anos do fim da Guerra de Canudos, o movimento iniciado a partir da concentração em torno de Antônio Conselheiro, um personagem de muitas faces: beato, padrinho, milagreiro, curandeiro, santo, dentre outras. Ainda hoje é difícil estabelecer apenas uma perspectiva sobre ele. A guerra civil, no período inicial da República, teve desdobramentos políticos relevantes, afinal o Exército Brasileiro foi derrotado nas expedições de repressão aos chamados “fanáticos”. As derrotas humilharam a instituição que se considerava heroica por ter vencido quase 30 anos antes a Guerra do Paraguai.
A saga de Canudos ganhou ainda mais projeção com a publicação de Os Sertões, em 1902. No livro, Euclides da Cunha (1866-1909) analisou de forma ampliada o contexto da guerra, que acompanhou como repórter do Estado de S.Paulo.
As lideranças religiosas carismáticas como Antônio Conselheiro povoavam os sertões, entendidos como áreas afastadas do litoral, especialmente da capital Salvador. Um contexto formado por extensa pobreza, concentração de grandes propriedades rurais e exploração do trabalho ainda muito próximo dos moldes da escravização favoreciam essa espécie de fenômeno que trazia, para os envolvidos, algum tipo de esperança em um mundo espiritual, mas que podia começar pela terra.
“Messianismo é um conceito que reúne diversos elementos, como escatologia (o discurso relacionado ao fim do mundo); milenarismo, juízo final, crença em episódios de cura e milagres e uma liderança religiosa política e carismática. Como conceito, ele é até anterior ao cristianismo e está presente em diversas culturas”, explica Cláudio Pereira.
Dá, portanto, para entender o teor reconfortante da notícia da prisão de Antônio Jacu em A TARDE: “Frei Jacú estava assumindo proporções de Antônio Conselheiro, de ente sobrenatural e milagroso”. (A TARDE, 23/11/1912, p. 3).
Para apresentar detalhes do caso, vou seguir o modelo adotado por Euclides da Cunha em Os Sertões, mas não na mesma ordem.
Imagem ilustrativa da imagem Chamado de frei, Antônio Jacu foi apontado como um novo Conselheiro
| Foto: Arquivo A TARDE
Capa mostra a prisão de Antônio Jacu, ao lado dos seguidores e militares envolvidos na ação
O homem
Sobre Antônio Jacu, o texto de A TARDE aponta algumas características diretas e outras sobre as quais podemos especular para refletir. Dentre as afirmações do texto estão a sua condição de mineiro, a denominação de frei e, em um conteúdo posterior – o texto para uma foto publicada na capa da edição de A TARDE de 28 de novembro –, é apontado como monge. Foi também chamado de curandeiro e capaz de expulsar demônios. Estava há dois anos mobilizando pessoas, o que possivelmente passou a incomodar, em alguma medida, o sistema de poder local.
“Aos sabbados, dia marcado para as cantorlas, ouvia-se a grande distância o rufo dos tambores e o barulho dos atabaques. O Jacu era um ‘ente’ divino e todos lhe obedeciam como a um sultão. Sempre as queixas appareciam, mas as autoridades de então eram surdas”. (A TARDE, 23 de novembro de 1912, p. 3).
A presença de instrumentos como tambores e atabaques pode indicar algum vínculo de Antônio Jacu com práticas próximas das religiões afro-brasileiras? Difícil saber, afinal muitas das descrições sobre estes movimentos ocorriam por “ouvir dizer” ou por suposições que partiam das análises a partir do que era a prática do catolicismo ortodoxo.
“Muitas dessas lideranças andavam de túnica, com o cordão de São Francisco. O título de frei e monge pode realmente indicar que Antônio Jacu pertenceu ao quadro da igreja católica, como aconteceu com o padre Cícero, por exemplo. Os freis capuchinhos faziam muitas pregações pelos sertões. Ou apenas pode ser a forma como se referiam a ele”, diz Pereira.
Antônio Jacu, ao que se pode depreender dos registros publicados em A TARDE, tinha boas relações. Preso, teve um habeas corpus impetrado em seu favor e de seus colaboradores mais diretos pelo advogado Helvécio Araújo. O habeas corpus foi acatado pelo juiz Álvaro Pedreira de Cerqueira. Araújo, segundo Cláudio Pereira, tornou-se, em seguida a este episódio, conselheiro em Canavieiras. O posto tem uma equivalência com a condição de vereador da atualidade. O juiz também tem uma trajetória interessante: atuou em Juazeiro de 1907 a 1909; em Canavieiras até 1913; chegou a Cachoeira em 1914; e finalmente foi transferido para Salvador.
“Tem outra questão que me parece relevante nesse caso. A notícia desse episódio foi publicada poucas semanas após uma eleição ocorrida naquele ano para escolhas dos intendentes, um cargo equivalente ao prefeito de hoje. As disputas políticas podem ter influenciado na repressão a Antônio Jacu e sua gente como também nos desdobramentos relacionados à concessão da sua liberdade”, analisa Cláudio Pereira.
De acordo com o antropólogo, no contexto político da Bahia, movimentos religiosos podiam tensionar ainda mais as disputas políticas. Canudos desgastou o governador Luiz Viana. Já Severino Vieira, que governou a Bahia de 1900 a 1904, foi acusado de proteção ao curandeirismo quando houve a repressão ao milagreiro conhecido como Doutor Faustino, a quem era atribuído o poder de curar com a imposição das mãos.
A luta
A ação policial para prender Antônio Jacu e seu grupo parece ter sido bem planejada. “Jacú ia adquirindo importância e importância legítima e a não ser a sagacidade com que se houve a polícia, por certo que não levaria a efeitto tão importante diligência”. (A TARDE, 23/11/1912, p. 3).
O texto menciona, além do flagrante, um auto de resistência. Além disso informa que, entre os presos, denominados “fanáticos”, há dois com processos por homicídio: Deoclecio, denunciado em Itabuna, e José Francisco, em Jequié.
Apesar de pouca nitidez devido à técnica do período para registro de imagens – o clichê –, a edição de 28 de novembro mostra um número expressivo de militares. São, por exemplo, quatro capitães, inclusive identificados.
Sentado à frente dos militares que estão em pé, aparece, segundo a descrição da imagem, Antônio Jacu, neste texto denominado como “o monge milagroso”. Também foram identificados o que é apontado como seu secretário agora chamado de Deocleciano e não Deoclecio, grafia usada no texto do dia 23; e o ajudante, Francisco. Estes dois últimos são os que foram apontados como denunciados em casos de homicídios.
“Apesar da falta de nitidez dá para observar que o homem apontado como Antônio Jacu está de túnica, o que é condizente com o papel de liderança que lhe apontam. Além disso são 15 militares, entre capitães e soldados, o que demonstra uma mobilização policial indicativa de preocupação”, diz Cláudio Pereira.
A terra
O informante, o advogado de Antônio Jacu e autoridades, como o juiz Álvaro Pedreira, atuam a partir de Canavieiras, município localizado no sul da Bahia, a pouco mais de 400 quilômetros de Salvador. Mas algumas referências no texto da reportagem de 23 de novembro podem colocar algumas dúvidas sobre essa localização, especialmente no que é apontado como um risco para que o movimento liderado por Antônio Jacu ganhasse as proporções de Canudos: a presença de formação rochosa que permitisse uma estratégia de resistência. No local do movimento também havia esperança de se encontrar ouro.
“E caso houvesse fracasso (da diligência policial) torna-se-ia ali um segundo Canudos mais temível ainda porque existem recursos naturaes, e depois são as ‘Pedras Altas’, situadas numa zona ainda não explorada, onde há ouro em abundância e, além disto, com fortificações temíveis”. (A TARDE, 23/11/1912, p. 3).
Na região de Capim Grosso, município localizado a 295 quilômetros de Salvador e vizinho a Jacobina, uma das fontes de exploração de ouro na Bahia, há uma localidade conhecida como Pedras Altas. O tipo de topografia local condiz com o temor de que se tornasse um local para quem desejava se esconder em um conflito.
Tem outro dado interessante relacionado a Capim Grosso e levantado em uma pesquisa para este caso por Cláudio Pereira: um time de futebol amador na região denominado “Fanáticos de Pedras Altas”, o termo utilizado pela reportagem para caracterizar o grupo de Antônio Jacu. Fiz algumas tentativas para levantar mais informações sobre o time, mas não obtive sucesso. Capim Grosso está muito distante de Canavieiras, onde se desenrolaram as questões policiais e jurídicas do caso. Pode ser o caso de proximidade entre os territórios no âmbito da organização judicial em 1912. Mas esta questão entra para o grupo das que necessitam de maior aprofundamento.
Imagem ilustrativa da imagem Chamado de frei, Antônio Jacu foi apontado como um novo Conselheiro
| Foto: Arquivo A TARDE
Texto do jornal anuncia a prisão do Frei Antônio Jacu, comparado a Antônio Conselheiro
O informante
A história e a imagem sobre Antônio Jacu chegaram ao jornal por meio de Manoel Pedro Bombinho. Natural de Sergipe, Bombinho reaparece volta e meia no contexto de descrições sobre Canudos e agora em um movimento que ele mesmo apontou ter semelhanças com o que viu na região do Vaza Barris.
Na coluna publicada no jornal Folha de S.Paulo, em 17 de outubro de 2002, o jornalista Elio Gaspari dá destaque à obra que Bombinho escreveu sobre Canudos em versos. Delegado e rábula mais tarde, na época da Guerra de Canudos, Bombinho trabalhou como tropeiro. De acordo com Gaspari, o texto de Bombinho intitulado Canudos: história em versos foi descoberto em 1967 pelo repórter Nertan Macedo. A obra foi copiada por dois professores: João dos Santos Filho e Luís Antônio Barreto, o que acabou se tornando um golpe de sorte, pois o manuscrito original desapareceu em 1995 de uma biblioteca pública. A referência feita por Gaspari foi por conta da publicação do texto de Bombinho, organizada pelo historiador Marco Antônio Villa.
“Antônio Bombinho conta elementos que faltaram em Os Sertões, como detalhes da degola de sertanejos. E Bombinho volta e meia aparece em dissertações e teses. Olha ele aqui reaparecendo 109 anos depois desse relato que enviou para o jornal A TARDE”, destaca Cláudio Pereira.
O relato de Bombinho revelou Antônio Jacu. Frei, monge ou curandeiro, ele integra o grupo de personagens que pelo interior da Bahia lideravam grupos de sertanejos organizados em um movimento de fé, mas ao mesmo tempo político porque denunciava, ao seu modo, a exclusão que lhes foi dispensada historicamente pelo Estado brasileiro em diferentes formas de governo.
*Cleidiana Ramos é jornalista e doutora em Antropologia
*A reprodução de trechos das edições de A TARDE mantém a grafia ortográfica do período.
Fontes: Edições de A TARDE, Cedoc A TARDE.

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.

Participe também do nosso canal no WhatsApp.

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Email Compartilhar no X Compartilhar no Facebook Compartilhar no Whatsapp

Assine a newsletter e receba conteúdos da coluna O Carrasco