Coleta de sangue na Bahia foi feita com garrafões de vidro até os anos 90
Fundação Hemoba foi criada em 1983 para coordenar a política de sangue e garantir atendimento hematológico especializado no Estado

Na Bahia, houve um tempo em que a coleta de sangue era feita com o uso de garrafões de vidro, em vez das bolsas plásticas, como na atualidade. Isso ainda ocorreu até os primórdios da criação da Fundação de Hematologia e Hemoterapia da Bahia (Hemoba), nos anos 1980, para coordenar a política de sangue e garantir atendimento hematológico especializado. É a história do Hemoba que o A TARDE Memória dessa semana vai contar.
A origem da fundação remonta ao antigo Centro de Hematologia e Hemoterapia da Bahia, criado a partir de um movimento nacional liderado pelo Ministério da Saúde na busca por estruturar hemocentros em todo o país. Em 1981, um grupo de técnicos do MS e outros especialistas liderados pelo professor e médico hematologista Luís Gonzaga dos Santos, fundador do primeiro hemocentro do Brasil, em Pernambuco, convidaram os médicos Aurelino Santana e Maria Conceição Barbosa Coelho, ambos do Hospital Geral Roberto Santos (HGRS), para compor o grupo de trabalho que implantaria o Hemocentro Coordenador do Estado da Bahia.

Esse centro iniciou suas atividades em janeiro de 1983 em uma área adaptada de 590m² do HGRS, com o médico hematologista Aurelino Santana como primeiro diretor geral. Em 26 de julho de 1989, a personalidade jurídica da instituição mudou para o nome que conhecemos, Fundação de Hematologia e Hemoterapia da Bahia (Hemoba). O objetivo era exercer tanto as atividades de hematologia e hemoterapia, quanto desenvolver ensino e pesquisa.
Um mês antes da instituição se tornar fundação, a farmacêutica bioquímica Rita de Cassia Cabral passou a integrar a equipe, ficando a partir dali encantada com a hematologia. "Fui para ficar por apenas seis meses, terminei permanecendo por 35 anos e contínuo ligada à hemoterapia", afirma.
Política de sangue
Nas décadas de 1980 e 1990, o Brasil avançava na implantação das diretrizes do Programa Nacional de Sangue e Hemoderivados (Pró-Sangue), visando reestruturar o serviço hemoterápico do país. "Um fato que deve ser lembrado é que a disseminação do vírus da Aids foi propulsora da busca por melhorias não só no Brasil, mas em todo o mundo", aponta Rita de Cassia.
Um dos passos importantes foi o investimento de 1 bilhão e 190 milhões de cruzeiros em obras, equipamentos e formação de recursos humanos no Programa Nacional de Sangue e Hemoderivados (Planashe), que controlava o funcionamento de 113 unidades hemoterápicas espalhadas por todas as unidades da federação. O Planashe cuidava desde os hemocentros e núcleos hemoterápicos, até as centrais sorológicas.

“Para a Bahia, foram destinados Cr$36,2 milhões para a [fundação] Hemoba", informa edição de A TARDE de 28 de janeiro de 1991. Meses depois, em setembro, a planta da sede do Hemoba foi apresentada ao governo do estado. As obras, iniciadas em novembro, tiveram investimentos de Cr$962 milhões. "O diretor da Fundação Hemoba, Aurelino Santana, destacou que a construção da nova sede do hemocentro é o marco inicial para a interiorização do programa de sangue", explica A TARDE, na edição de 12 de setembro de 1991.
A nova sede da fundação, na Avenida Vasco da Gama, onde funciona até hoje, foi entregue no dia 15 de março de 1993, com 3.400m² distribuídos em um prédio de quatro pavimentos, ao lado do Hospital Geral do Estado (HGE) e do Centro Estadual de Oncologia (Cican). "A multiplicação da área e a entrada em funcionamento dos novos equipamentos viabiliza um aumento da coleta mensal de sangue de 1.700 bolsas para cinco mil bolsas. Funcionarão, entre outros equipamentos, um centro de capacitação profissional destinado ao treinamento de mão-de-obra que irá ampliar a rede pública de bancos de sangue e o primeiro centro de atendimento de hemofílicos da Bahia e um dos poucos do país", explicou A TARDE, na edição de 16 de março de 1993.
A nova sede da Hemoba passou, ainda, a tratar portadores de anemia falciforme e outras doenças de sangue. Esse período também foi marcado pelas mudanças nos equipamentos e utensílios usados na coleta, saíram de cena as garrafas de vidro citadas no início da reportagem.
"Mudamos das agulhas metálicas e coleta em frascos de vidro para a implantação de coleta com agulhas e bolsas plásticas descartáveis, bem como ampliação gradativa da testagem do sangue doado para as principais doenças transmitidas pelo sangue, de acordo com cada legislação vigente. Hoje, contamos com modernas técnicas de coleta, aparelhagem de ponta para triagem sorológica, processamento e fracionamento do sangue doado", explica a farmacêutica Rita de Cássia Cabral.
O fantasma da Aids
Enquanto o investimento nos hemocentros crescia nos anos 1990, a Aids se espalhava. Se, por um lado, a doença que teve o primeiro caso do Brasil em 1982 motivou investimentos em pesquisa e estrutura dos hemocentros do país, o crescente número de casos prejudicou a cadeia de doação, que já era permeada por desinformações e tabus. "Desde que a Aids passou a preocupar seriamente a sociedade, doar sangue, recebê-lo por transfusão ou simplesmente tomar uma injeção transformou-se em mais um motivo de inquietação", dizia a edição de 7 de abril de 1991 de A TARDE.
O Hemoba criou processos mais rigorosos de segurança no controle de qualidade, fracionamento, armazenamento e na distribuição de sangue e seus derivados. Mas, a propagação de informações falsas, já naquele tempo era um obstáculo para profissionais de saúde. Por isso, a presença da equipe do Hemoba nas páginas dos jornais para desmistificar as fake news era constante. Em 1994, a então gerente de assistência da fundação, Conceição Coelho, explicou ao A TARDE que a desinformação e os tabus eram um dos principais fatores para o não alcance dos números ideais de sangue armazenado. "Doação não engorda, não emagrece, não altera o estado de saúde anterior", enfatizou a médica na edição de 15 de novembro.

Entre os tabus daquela época, havia a ideia de que se a pessoa doasse uma vez, teria de doar para sempre, que a doação afinava o sangue, engrossava as veias e até atletas supunham que a doação prejudicava o desempenho. Diante de tanta desinformação, um dos primeiros desafios de Rita de Cassia na chegada ao Hemoba no final dos anos 1980 foi convencer as pessoas a doarem sangue de forma altruísta.
"Os medos de agulha, de 'pegar doenças', de 'ficar fraco', 'emagrecer', entre outros, dificultavam e ainda dificultam o processo. Hoje, diversas ações vêm sendo realizadas para incentivar a doação de sangue, principalmente através de campanhas específicas, com esclarecimento e a conscientização da população, para diminuir a desinformação, pois o doador de sangue é um agente fundamental nesse processo", enfatiza.
Reforço nas campanhas
Doação de sangue, vale ressaltar, salva inúmeras pessoas. Desde as que estão com hemorragia grave e anemias severas até as que fazem tratamentos oncológicos, têm doenças do sistema sanguíneo (leucemia, aplasia medular e síndromes mielodisplásicas), deficiências de coagulação (como hemofilia) e disfunções plaquetárias. O Hemoba também coleta plaquetas e faz parte do sistema nacional de registro e coleta de medula óssea.
"Doar sangue é um ato de amor. Muitos mais do que isso. Ao doar uma cota de sangue, salva-se uma vida", foi com essas hoje bem conhecidas frases que o Hemoba criou, em 1993, uma de suas campanhas mais populares, a Semana do Doador. Na edição de A TARDE de 14 de novembro daquele ano, o jornal apontou a escassez de bolsas de sangue e número de doadores, enquanto anunciava a campanha que aconteceria entre os dias 22 e 25 de novembro. A escolha da data foi estratégica, pois além do dia 25 de novembro ser o Dia Nacional do Doador de Sangue desde 1964, os dias de campanha precediam as festas e feriados de fim de ano, quando o número de doadores diminui.
Com o passar dos anos, a campanha ficou mais popular, com outros hemocentros participando e alcançando números altos de doações. Na Semana do Doador de 2025, o Hemoba coletou 4.977 bolsas, número superior a 2024, 4.630. Outras campanhas estratégicas, como nas Festas Juninas, Carnaval e em outras datas comemorativas, foram ganhando força, atraindo mais e mais doadores e educando a sociedade como um todo.
Em 1995, quando a fundação comemorou dois anos, aconteceu uma campanha para engajar agentes de saúde na conscientização das suas comunidades, onde eles aprenderam a captar e fidelizar doadores. Hoje, os hemocentros possuem equipes de captadores altamente especializada. “A necessidade de adquiri sangue para estoque se respalda ainda no fato de a maioria dos que se apresentam no Hemoba serem os chamados doadores de reposição, ou seja, vão apenas para suprir a necessidade de parentes ou conhecidos", explica A TARDE na edição de 25 de novembro de 1995.

Aquele também foi o ano em que o Hemoba começou a levar as campanhas para a rua, indo aos shoppings e praias de Salvador. Deu tão certo que as equipes começaram a planejar a criação de uma unidade móvel que fosse aos bairros, levando não só um posto de coleta, mas também informações sobre a doação. Anos depois, em 2009, o Hemóvel começaria a percorrer as ruas de Salvador e, pouco depois, toda a Bahia. Hoje, dois ônibus costumam circular pela capital. Os horários e locais onde os veículos estarão durante a semana podem ser conferidos no site do Hemoba.
Além de ter sido parte da equipe da fundação por 35 anos e conhecer boa parte da história do Hemoba, Rita de Cassia Cabral também já se viu do outro lado da doação, ao se tornar receptora de sangue. “A gente a princípio se vê como profissional e não pensa que podemos estar do outro lado. Em 2001, no auge da carreira, fui acometida de grave hemorragia pós-parto e que bom que algumas pessoas tinham doado sangue voluntariamente. Que bom que o Brasil estava com processos hemoterápicos modernos e tecnologia de ponta. Que bom que existe legislação muito efetiva e eu pude ser atendida e salva”, afirma.
*Com a colaboração de Andreia Santana e Tallita Lopes
*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas
*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE
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