A TARDE MEMÓRIA
Em 1937, Capitães da Areia ardeu na fogueira e renasceu como clássico
Mais de 1500 livros, a maioria de Jorge Amado, foram queimados em praça pública, em Salvador


A queima de livros é praticada há séculos por regimes ditatoriais para controlar o pensamento crítico e apagar ideias consideradas impróprias. Na Salvador de 1937, nos primeiros dias do Estado Novo de Getúlio Vargas, mais de 1.500 obras foram incineradas nas imediações do II Distrito Naval, no Comércio. A maioria dos exemplares era do escritor Jorge Amado, incluindo volumes do recém-publicado Capitães da Areia. O episódio foi uma tentativa de silenciar o autor. Mas acabou despertando ainda mais interesse pelo livro, que com os anos se transformou em um dos maiores clássicos da literatura brasileira. No Dia Nacional do Escritor, A TARDE Memória relembra esse episódio.
Para centralizar o governo, controlar a sociedade por meio da censura e propaganda, além de impulsionar a industrialização sob forte atmosfera nacionalista, o Estado Novo foi instaurado por Getúlio Vargas em 10 de novembro de 1937, após um golpe de Estado apoiado por militares e justificado pelo temor de uma suposta ameaça comunista. Nos primeiros dias do regime, o Congresso foi fechado, partidos políticos extintos, as eleições foram suspensas, uma nova Constituição autoritária começou a ser escrita e, em Salvador, nove dias depois do golpe de estado, livros foram queimados.

Em 19 de novembro de 1937, o militar Antônio Fernandes Dantas, que havia assumido interinamente como interventor federal na Bahia no dia 11 daquele mês, confiscou 1552 livros de diversas livrarias da capital. "Queimou-os em cerimônia que denominou de ‘cívica’, em praça pública, defronte da Escola de Aprendizes Marinheiros. A cerimônia contou com a presença dos membros da Comissão Executora do Estado de Guerra", explica a biografia de Antônio Fernandes Dantas no portal da Biblioteca Virtual Consuelo Pondé, da Fundação Pedro Calmon.
Entre os 1552 livros queimados, a maior parte era de Jorge Amado, logo seguido por José Lins do Rego. Arderam na fogueira: 15 exemplares de Doidinho, 26 de Pureza, 13 de Bangüê, quatro de Moleque Ricardo e 14 de Menino de Engenho, todos de Rego. De Amado, foram 1427 livros como Cacau (89), Suor (93), O País do Carnaval (214), Mar Morto (223) e Capitães da Areia (808), considerado o mais perigoso de todos por seu forte caráter de denúncia social e contra a brutalidade do Estado. Completaram a lista outros 125 títulos de autorias diversas.
"A queima de livros é, até do ponto de vista da metáfora, algo muito significativo, pois aniquila, acaba, transforma em pó. O que se pretendeu não era simplesmente que aquele material não circulasse mais, mas que aquelas ideias e pensamentos que iam de encontro a ditadura instalada na época não circulassem", afirma Ângela Fraga, presidente da Fundação Casa de Jorge Amado.

Por anos, o episódio da queima dos livros ficou quase esquecido, pois na época, os jornais foram censurados. Dois anos depois, inclusive, em 27 de dezembro de 1939, foi criado o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), para controlar jornais, revistas, teatro, cinema e música, proibindo qualquer crítica ao governo.
Em 3 de agosto de 2002, A TARDE relembrou a história a partir de um artigo em página dupla assinado pela escritora Myriam Fraga e seguido de uma reportagem que resgatava um registro raro feito pelo jornal O Estado da Bahia, décadas antes. Além de reproduzir um trecho da sentença de condenação dos livros queimados “por determinação do interventor interino”. porque as obras eram consideradas “como propagandistas do credo comunista”, A TARDE também trouxe o texto da ordem verbal para a incineração, lida em 1937 pelo Capitão de Corveta Garcia D’Ávila Pires de Carvalho e Albuquerque, que presenciou o ato:
"Aos dezenove dias do mez de Novembro do anno de mil novecentos e trinta e sete, em frente à Escola de Aprendizes Marinheiros, nesta cidade do Salvador e em presença dos senhores membros da commissão de buscas e apprehensões de livros, nomeada por offício número seis, da então Commissão Executora do Estado de Guerra, composta dos senhores capitão do Exercito Luiz Liguori Teixeira, segundo tenente intendente naval Helzio Auler e Carlos Leal de Sá Pereira, da Polícia do Estado, foram incinerados por determinação verbal do sr. coronel Antonio Fernandes Dantas, commandante da Sexta Região Militar, os livros apprehendidos e julgados como sympathisantes do credo communista".
Fogueiras da história
A incineração das obras de Jorge Amado, José Lins do Rego e outros autores em Salvador não foi a primeira vez em que um regime autoritário recorreu a esse expediente para controlar narrativas. Na China do século III a.C., o imperador Qin Shi Huang mandou destruir obras de filosofia e história. Na Europa medieval, textos foram queimados pela Igreja para preservar a ortodoxia religiosa. Em Florença, em 1497, o frade dominicano Savonarola organizou a chamada ‘fogueira das vaidades’, onde obras literárias e artísticas foram destruídas em nome da moralidade. Em 1933, na Alemanha nazista, estudantes e militantes queimaram em praças públicas cerca de 25 mil livros de autores judeus, marxistas e modernistas para ‘purificar’ a cultura alemã. Na América do Sul, a Argentina passou por esse ato de censura entre o final da década de 1970 e início de 1980. Houve ainda a destruição de obras no Chile, durante a ditadura de Pinochet.
Segundo Ângela Fraga, para um autor como Jorge Amado, profundamente ligado à Bahia e cujas obras apresentavam as contradições da sociedade baiana, ver seus livros queimarem era frustrante, mas de certa forma, também atiçava ainda mais o espírito rebelde do autor, que tinha 25 anos em 1937. Para o escritor, a tentativa de acabar com as suas obras e de outros autores era uma reafirmação do poder da literatura na formação do pensamento crítico na sociedade.
Embora o objetivo dos regimes ditatoriais seja o aniquilamento das ideias que consideram impróprias, subversivas ou perigosas, esse tipo de violência cultural costuma transformar os escritores que sofrem a censura em símbolos de resistência. O outro efeito colateral é o de aumentar o interesse da população em acessar as chamadas ‘obras malditas’ ou proibidas.
"A queima dos livros fez com que as pessoas quisessem entender o que estava escrito ali. Que pensamento era aquele, que motivação era aquela que ele trazia nos romances e que incomodava tanto a ditadura", pontua Ângela Fraga.

Capitães eternos
Capitães da Areia narra a vida de meninos que viviam em situação de rua na Salvador dos anos 1930, sobrevivendo de pequenos furtos. O grupo é liderado por Pedro Bala, adolescente corajoso e carismático, que é acompanhado pelo Professor, o apaixonado por livros; o Sem-Pernas, que é desconfiado e irônico; Boa-Vida, que é alegre e boêmio; Gato, o mais sedutor e esperto; Volta Seca, que sonha em ser cangaceiro; Pirulito, que está dividido entre a fé e a vida nas ruas; e Dora, a única menina do grupo e que faz o contraponto, como a Wendy de Peter Pan (J.M. Barrie). A obra revela tanto a dureza da marginalização quanto a humanidade dos personagens, tornando-os símbolos de uma infância perdida.
A queima expressiva de exemplares de Capitães da Areia em 1937, pontua Ângela Fraga, refletiu na sobrevivência posterior da obra. "Capitães é o livro mais editado, mais procurado e mais lido de Jorge Amado, principalmente pelos jovens. A simbologia da queima dos livros se tornou uma chama que fez Capitães da Areia ainda mais interessante", reflete.

Jorge Amado tem uma bibliografia vasta, de mais de 40 obras publicadas, entre romances, poesia, contos, biografias, memórias, registros de viagens e infanto-juvenis. Mas, mesmo que outros romances do autor tenham alcançado fama internacional, Capitães da Areia permanece como o seu livro mais lido, com mais de 5 milhões de exemplares vendidos pelo mundo.
Para Ângela Fraga, mais do que uma memória cruel de um ato de censura, a queima dos livros em 1937 é um alerta para as atuais gerações sobre algo que não deve se repetir na história. "Temos que privilegiar o livro, a escrita e o livre-arbítrio, sobretudo no Dia Nacional do Escritor. A arte liberta e ter acesso a ela é um direito e uma escolha. Não se pode aniquilar o pensamento de alguém apenas por ele não estar de acordo com os de outra pessoa. Ter essa memória sempre ativa serve de exemplo e alerta, sobretudo para os mais jovens", afirma.
Refletindo sobre a censura
No artigo A Intelligencia e os Totalitarismos, assinado por Afrânio Coutinho, na edição de A TARDE de 13 de março de 1939, o autor aponta que o totalitarismo levou a inúmeras tentativas de silenciamento de inteligências ao longo da história. Esse artigo bem pode ser lido como uma das formas da imprensa se posicionar contra atos como o ocorrido em 1937.
Ainda segundo Coutinho, não foram poucos os intelectuais das mais diversas áreas que foram exilados por causa de opiniões e escolhas políticas ou que tiveram obras destruídas.
Jorge Amado não foi para o exílio logo após a queima de seus livros na Cidade Baixa em 1937. Mas esse episódio sempre o colocou na mira da censura e das polícias secretas que atuaram durante os períodos ditatoriais no Brasil. Militante do PCB e com obras tidas como ‘subversivas”, entre 1941 e 1942, ainda na vigência do Estado Novo, o autor se exilou no Uruguai e na Argentina.
Mesmo longe do país natal, o autor continuou produzindo literatura e se manteve ativo em eventos políticas e culturais que o tornaram uma figura importante internacionalmente, principalmente quando se exilou outra vez, em 1948. O motivo, mais uma vez, foi a perseguição política contra os comunistas no Brasil, que àquela altura havia se agravado por causa da Guerra Fria. Nesse período, Amado ficou, principalmente, na França, mas também circulou por outros países do Leste Europeu, conhecendo e convivendo com outros intelectuais e escritores.
Em 1952, após quase quatro anos fora, voltou ao Brasil, mas embora tenha desembarcado teoricamente sem incômodos, estava sob rigorosa vigilância, como destaca a edição de A TARDE de 8 de maio de 1952: "O Sr. José Picorelli, delegado da Divisão de Polícia Política, informou que o sr. Jorge Amado, cujo regresso está previsto para segunda-feira, poderá desembarcar livremente, pois não responde a qualquer processo. As autoridades, entretanto, estão de sobreaviso. Anuncia-se que sua bagagem será confiscada e revistada, posteriormente, pela Divisão da Ordem Política e Social", diz o texto.
No livro Fahrenheit 451, romance distópico de Ray Bradbury e publicado em 1953, durante o período de censura à arte nos Estados Unidos, o protagonista Guy Montag é um bombeiro que tem como principal função atear fogo em livros, que são objetos proibidos. No decorrer da história, ele começa a se questionar sobre as regras e leis que segue. Com esse romance, o autor mostra que quem não constrói, queima; e que livros são peça-chave para tirar o mundo da ignorância. Em uma de suas passagens, o texto de Bradbury provoca: "Entende agora por que os livros são odiados e temidos? Eles mostram os poros no rosto da vida".
Em Salvador, há quase 90 anos, Capitães da Areia colocou lentes de aumento nos poros da velha cidade da Bahia e, embora tenham tentado apagá-lo da história, renasceu das cinzas ainda mais forte, instigante e provocador.
*Com a colaboração de Andreia Santana e Tallita Lopes
*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.
*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE