Epidemia de varíola aterrorizou Salvador logo após gripe espanhola

A doença, em forma diferente da agora chamada “dos macacos”, causou pânico a construção de cemitério e procissões de penitência pela cidade

Publicado sábado, 06 de agosto de 2022 às 05:30 h | Atualizado em 05/08/2022, 23:39 | Autor: Cleidiana Ramos
Doença que costuma produzir irritações na pele, como erupções cutâneas, a varíola assusta
Doença que costuma produzir irritações na pele, como erupções cutâneas, a varíola assusta -

Com algumas notícias em dias alternados e mais constância em seguida, A TARDE registrou o pânico que se espalhou por Salvador devido ao aumento dos casos de contaminação e morte por varíola em 1919. O contexto era parecido ao atual surto da chamada varíola dos macacos em sequência à pandemia de covid.  Naquele período a cidade estava ainda traumatizada pelos danos da gripe espanhola. 

Do final de outubro e por quase todo o mês de novembro de 1919 foram publicadas 21 reportagens principalmente na capa do jornal com pedido por vacinas, denúncia de descaso em relação à varíola por parte do governo de Antônio Moniz, tensão nos cemitérios e os apelos ao sagrado com procissões para o Senhor do Bonfim, São Roque e São Francisco Xavier, padroeiro de Salvador. Já para as práticas adotadas no âmbito das religiões como o candomblé e o espiritismo coube, por parte do jornal, a denúncia e equiparação com o charlatanismo.     

Segundo Ricardo dos Santos Batista, doutor em História pela Universidade Federal da Bahia (Ufba) e pós-doutorando na Casa Oswaldo Cruz da Fiocruz-Rio de Janeiro, a Bahia, de meados do século XIX até a metade do século XX teve sucessivas ondas epidêmicas de cólera, febre amarela e varíola. Isso em um contexto em que o atendimento à saúde era limitado. 

“Naquele momento, vivíamos um modelo liberal no Brasil, no qual cabia ao Estado intervir apenas em casos de calamidade pública. Isso contribuiu para que os poucos hospitais existentes em Salvador, como o Hospital Militar e o Hospital da Santa Casa de Misericórdia não comportassem o número de enfermos que os procuravam. A responsabilização do Estado pela construção de instituições públicas de saúde só começou a partir de 1920, com uma legislação federal que respeitava as prerrogativas do federalismo, implantado com a Constituição de 1891”, explica Ricardo Batista.  

O tom utilizado nas reportagens sobre os casos de varíola era alarmante: “Comprehende-se, que dado o momento horroroso, como esse que estamos atravessando em que num dia foram enterrados na Quinta dos Lázaros 39 cadáveres de bexigentos, só um governo de capacidade de acção poderia preencher as lacunas naturaes da organização primitiva das repartições de saúde. Como a situação dominante é de nullos, da incompetência erigida em estômagos cuidando apenas de fartar-se, nem uma medida até hoje foi posta em pratica na altura do perigo, crescente da calamidade publica, cada vez mais assustadora”. (A TARDE, 1/11/1919, capa). 

Edições de 1919 mostraram diversas nuances do pânico causado por uma epidemia
Edições de 1919 mostraram diversas nuances do pânico causado por uma epidemia |  Foto: Cedoc A TARDE
 

Nesta mesma reportagem há o anúncio de que um campo de futebol localizado em Brotas seria utilizado como local para os sepultamentos dos mortos por varíola. O texto considera a escolha como uma vingança contra os maus resultados eleitorais obtidos na localidade por Antônio Moniz, integrante do grupo de Seabra e adversário da ala em que estava Ernesto Simões Filho, fundador de A TARDE. Em forma de aviso, o texto relembra da revolta conhecida como Cemiterada, ocorrida em 1836, e que resultou na depredação do Cemitério Campo Santo. 

“Mas não se iludam os srs. Monizes. E talvez não saibam, mas nós lhe vamos contar um episódio edificante. Há meio século ocorreu nesta capital a cemiterada. Simplesmente isto: Foi edificado o cemitério do Campo Santo, e, de um dia para outro, sem um preparo prévio da opinião, tentou-se interromper a velha praxe do enterramento nas egrejas. O povo em massa dirigiu-se àquella necrópole e, superior à força pública demoliu-a pedra por pedra. É o que fará Brotas”. (A TARDE, 1/11/1919, capa). 

Agitações

A cobertura de A TARDE posterior ao Dia de Finados foi de péssimas notícias. As pessoas foram proibidas de entrar nos cemitérios pela polícia; padres percorriam a cidade para dar a unção dos enfermos e as críticas ao governo continuavam ácidas. A edição de 3 de novembro foi em uma segunda-feira. Na chamada da capa anunciou-se 44 mortes no sábado e até às 8 horas de segunda já haviam acontecido sete enterros. 

“De toda parte, dos quatro angulos da cidade, um grito angustiado de dor e de supplica  chega à A Tarde. São lares humildes em que se desfecha o raio da epidemia- uns com cadáveres em decomposição, outros com seus entes queridos queimando à febre da varíola, que nos pedem a intervenção perante o poder público para um carro, o caminhão fúnebre, o bonde 18, de transporte de mortos e de enfermos. Que havemos de fazer? Essas afflicções sugerem-nos um recurso- Dirijam-se ao palácio da Aclamação. Peçam ao governador”. (A TARDE, 3/11/1919, capa).   

Além das denúncias que vinha fazendo, A TARDE abrigou um posto de vacinação contra a varíola. Na época, a sede do jornal funcionava na Rua Manoel Vitorino, no Centro Histórico de Salvador. 

De acordo com Ricardo Batista, a epidemia de varíola de 1919 na capital baiana começou com o retorno de militares que atuavam na região de Barreiras. Eles chegaram no mês de junho e apresentaram sintomas compatíveis com a doença. “Segundo os professores Christiane Souza e Gilberto Hochman, no mês seguinte ela atingiu bairros como Brotas e Pilar. Em agosto, começou a se alastrar pela cidade e infectou os moradores dos distritos centrais – Paço, Taboão, Santo Antônio, Santana e Sé –, alcançando, posteriormente, o subúrbio de Salvador”, completa o historiador. 

Embora a varíola atingisse mais duramente quem vivia em habitações precárias, com pouco espaço para distanciamento e facilitando o contágio, a doença chegou até as elites. Militares em serviço no palácio de governo, como o tenente coronel Paulo Bispo, por exemplo, morreram da doença, conforme notícia da edição de 7 de novembro. 

“Houve dias em que foram enterrados mais de 68 corpos no cemitério da Quinta dos Lázaros. Embora já se utilizasse um tipo de vacina para a varíola desde pelo menos o início do século XIX, ela estava em falta na Bahia no pico da epidemia de 1919”, diz Ricardo Batista. 

Apelo ao sagrado

A estrutura hospitalar disponível na cidade não foi suficiente para dar conta da emergência. Com a superlotação do Isolamento de Monte Serrat, o futuro Couto Maia, uma das saídas foi a reabertura do Hospital de S. Lázaro, no hoje bairro da Federação. A unidade, próxima ao santuário dedicado a São Lázaro, e que já havia funcionado como um lazareto no século XVIII foi reaberta na base do improviso, como apontam as declarações do diretor Glycerio Velloso dadas à reportagem de A TARDE:  

“Aqui não há água encanada. Temos uma grande cisterna, mas esta não tem a respectiva bomba para puxar o precioso liquido. De sorte que tenho dois empregados exclusivamente para esse fim. Comduzem em animaes, de uma fonte um pouco distante, que fica situada na Quinta de Ondina, porém é água potável, muito superior à da cisterna”. (A TARDE, 5/11/1919, capa). 

Essa proximidade com o Santuário de São Lázaro de um hospital especializado em doenças infecciosas reforçou, reiteradamente, os vínculos com as tradições afro-brasileiras. As características da vida desse santo, que é um personagem de uma parábola contada por Jesus e não um com dados historiográficos como São Roque, posteriormente cultuado no local, coincidem com os cultos a divindades que dominam os mistérios sobre as doenças e a cura para elas especialmente as de pele e infecciosas como a varíola. São divindades como Sakpata e Azoany, da tradição dos povos jeje, que vieram da área onde hoje está o Benim; Kavungo, da tradição angola-congo, herdeira das culturas dos países homônimos, e Obaluaê e Omolu dos nagôs, território da atual Nigéria. 

Os elogios do jornal são para as procissões realizadas para implorar ao Senhor do Bonfim, São Roque e São Francisco Xavier. No caso deste último, conforme noticiado na edição de 6 de novembro de 1919 houve um reencontro com o acontecimento que o tornou padroeiro de Salvador. 

“Já o escrevemos várias vezes e o repetimos hoje e o repetiremos amanhã: Só Deus salvar-nos-á. E é para invocar a sua misericórdia que domingo, por deliberação do sr. arcebispo d. Jeronymo, desfilará da Cathedral a Procissão da Penitência, conduzindo em andor a imagem de S. Francisco Xavier, o grande apóstolo da Índia”. (A TARDE 6/11/1919, p2.).

Em 1636, São Francisco Xavier, santo jesuíta, foi invocado para combater uma epidemia de varíola chamada então de “bicha”. A Câmara de Salvador pediu autorização à coroa portuguesa para que ele se tornasse o padroeiro da cidade, como é até hoje. A procissão para São Roque também foi grandiosa conforme mostra a imagem publicada na capa da edição de 1º de novembro de 1919. 

Já parte da população, especialmente a mais pobre, estava próxima a  práticas de origem africana e espírita. Mas estas receberam as críticas de A TARDE.  Na edição de 12 de novembro de 1919, na capa e na página dois, em tom de denúncia, o jornal noticiou que em uma casa da Rua do Tijolo, Centro Histórico da cidade, funcionava um hospital clandestino que oferecia cura por meios mágicos. Na descrição de elementos está o uso da pipoca, utilizada no culto a Omolu e divindades semelhantes.    

“Contaram-nos que prescrevem também o milho feito pipoca que deve ser collocado na cama do varicoloso até que ele se restabeleça”. (A TARDE, 12/11/1919, capa). 

O discurso condenatório do jornal é bem próximo da forma como a medicina encarava o que considerava crime chamado de curandeirismo. 

“Em alguns casos, os representantes da medicina oficial, que ainda se encontrava em construção, tentaram perseguir os praticantes do candomblé, reivindicando um conhecimento científico sobre a enfermidade. Mas a crença da população afro-brasileira naqueles a quem sempre recorriam para solucionar problemas espirituais e físicos era mais forte”, acrescenta Ricardo Batista. 

Questionada, Sinhazinha, a responsável pela casa de cura Grupo Espírita Luz e Caridade e que tinha como guia espiritual atuante o chamado Irmão Alfredo, deu como resposta à investida daqueles que ela não sabia ser repórteres uma máxima que resume bem o ambiente do qual cuidava: 

“Só trato pelo espiritismo, portanto só acceito enfermos que sejam crentes”. (A TARDE, 12/11/1919, p.2). 

São muitas, portanto, as nuances vividas em situações que causam apreensão e até pânico em cenários de epidemias, contexto que ao que parece continuarão sendo recorrentes: 

“Os altos índices de desmatamento contribuem para que micro-organismos inofensivos a outros animais, que viviam isolados de nós, se tornem verdadeiras ameaças à nossas vidas, nos impondo uma série de restrições. Se não houver uma reflexão e novas ações para estabelecer um reequilíbrio do nosso ecossistema, poderemos viver permanentemente reféns de vírus e bactérias que se tornarão epidêmicos e pandêmicos”, avalia o historiador Ricardo Batista. 

Cleidiana Ramos é jornalista e doutora em antropologia

*A reprodução de trechos das edições de A TARDE mantém a grafia ortográfica do período.

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