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A TARDE MEMÓRIA

Há 170 anos, Bahia enfrentou surto de cólera que quase dizimou Recôncavo

A doença entrou em Salvador pelo porto, entre 1855 e 1856, na esteira das rotas comerciais marítimas vindas da Ásia, e se espalhou por todo o Estado

Priscila Dórea*
Por Priscila Dórea*
Campanha contra a cólera em Plataforma em 1994
Campanha contra a cólera em Plataforma em 1994 -

Na primeira metade da década de 1990, agentes sanitários de saúde percorriam Salvador em uma campanha intensa contra a cólera. Fotografias e reportagens da época mostram a chegada de medicamentos no aeroporto, distribuição de panfletos informativos na Orla, entrega de garrafinhas com hipoclorito de sódio nos bairros da periferia. Não era a primeira vez que a cidade enfrentava um surto da doença. Se no final do século XX, os remédios para tratar a cólera desembarcavam de aeronaves; no século XIX, a doença aportou na cidade vinda do mar e, por mais de 130 anos, foi problema recorrente que, inclusive, levou a modificações sanitárias importantes.

Em 1855, a cólera entrou em Salvador pelo porto. Desde o século XVI, ele conectava a cidade com outras rotas comerciais na Ásia, África, Europa e ilhas do Caribe. "Considerando que essa pandemia teve origem na Índia, ela vai seguir a antiga rota da carreira das Índias e se instalar na América, chegando de maneira muito rápida a Salvador, passando do sistema Atlântico para o sistema da baía de Todos-os-Santos e para o sertão baiano", explica o professor e doutor em história, Pablo Magalhães.

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Agentes de saúde fazem campanha contra a cólera na Orla de Salvador no surto dos anos 1990
Agentes de saúde fazem campanha contra a cólera na Orla de Salvador no surto dos anos 1990 | Foto: Cedoc A TARDE/18.5.1994

A estimativa é que a cólera tenha matado cerca de 40 mil pessoas na Província da Bahia, entre 1855 e 1856. Foram 27 mil mortos somente no Recôncavo, onde cidades como Santo Amaro da Purificação foram devastadas pela epidemia, a ponto de as autoridades da época abandonarem o povo santamarense à própria sorte, com medo de contágio.

"Aquelle tragico correr de 1855 e 56, aliás, com todas as suas negruras dantescas, marca uma era memorável de soffrimento innenarraveis. O terror, o pavor, a morte então se afiguravam, nesta região, com as mais horríveis feições de uma grandeza inesperada e desconhecida. E foi tanto isso e de tal porte, que não é preciso ao brasileiro ir, na idealização do poeta florentino, buscar, na phantasia do genio, o crystal negro da tragedia absoluta, nem carece de arrepiar-se às scenas do bardo de Straford-on-Avon ou à leitura das novelas de Edgard Poe ou do Hoffmann", diz trecho do artigo 'A Cholera Morbus de 1855 e o papel de Cypriano Betamio', publicado em A TARDE, na edição de 30 de abril de 1991, durante o surto da doença nos anos 1990.

O artigo em questão foi originalmente escrito em 1920 pelo professor José Wanderley de Araújo Pinho, natural de Santo Amaro. A cidade foi uma das mais atingidas pela epidemia de cólera no século XIX e teve o médico Cypriano Betamio como um dos principais combatentes da doença, principalmente após a fuga das autoridades do município. O artigo de Araújo Pinho recorda a calamidade da epidemia do século XIX e a bravura do médico voluntário.

Santo Amaro foi assolada pela epidemia de cólera do século XIX
Santo Amaro foi assolada pela epidemia de cólera do século XIX | Foto: Cedoc A TARDE/27.2.1986

Betamio também aparece em outra edição de A TARDE, essa de 1º de novembro de 1949: "O dr. Cypriano Barbosa Betamio, que não era funcionário público, mas atendendo aos impulsos do coração, ofereceu-se para prestar aos santamarenses os recursos da sua profissão. E para lá seguiu, também investido das funções de delegado de polícia. Foi, porém, infeliz. Pouco tempo depois, sucumbiu vítima da epidemia que fôra combater".

Tragédia no recôncavo

Infecção intestinal aguda causada pela bactéria Vibrio cholerae, transmitida principalmente pela ingestão de água ou alimentos contaminados, a cólera, ou cholera morbus, provoca diarreia aquosa intensa e vômitos. Um dos sintomas mais graves é a desidratação rápida, capaz de levar à morte em poucas horas sem o tratamento imediato. Historicamente, os surtos de cólera são associados a falta de saneamento básico, o que ocorria em boa parte da Bahia do século XIX, quando o estado entrou para as estatísticas da pandemia da doença.

Sem regularidade nas medidas profiláticas e com poucos médicos, a população do Recôncavo sofreu as maiores baixas na época. Na dissertação O Inimigo Invisível: A Epidemia do Cólera na Bahia em 1855-56, o mestre em história Onildo Reis David traz o relato do médico Joaquim Antônio D'Oliveira Botelho, enviado pela Comissão de Higiene Pública para a cidade de Cachoeira, onde visitou o hospital local. Lá, ele foi recebido por um enfermeiro que, mesmo com cadáveres espalhados pelo chão, observava tudo impassível. O enfermeiro explicou ao Dr. Joaquim que já fazia cinco dias desde que algum médico ou mesmo acadêmico tinha aparecido no hospital.

"Os variados tratamentos empregados naquele momento de pouco ou nada adiantavam. Alguns consideravam que os médicos não tinham recursos para evitar a moléstia e passaram mesmo a evitar o seu conselho. O delegado de Inhambupe afirmava, em março de 1856, que apesar dos esforços da medicina, quase ninguém conseguia ser salvo. Ele se mostrava resignado ao fazer o seguinte comentário: ‘o trabalho tem sido constante e assíduo, mas de que vale contra esse inimigo invisível, que mata sem remédio e zomba dos esforços humanos’", escreve David em sua dissertação.

Campanha anti-cólera com distribuição de hipoclorito de sódio nos anos 1990
Campanha anti-cólera com distribuição de hipoclorito de sódio nos anos 1990 | Foto: Geraldo Ataíde/Cedoc A TARDE/15.5.1994

Em Salvador, enumera o historiador Pablo Magalhães, uma das primeiras medidas para conter a proliferação da cólera foi aumentar a fiscalização portuária, implantando quarentenas e isolando navios que traziam passageiros doentes. "Era preciso evitar que a cólera continuasse entrando pela sua principal porta, que era o porto. Isso foi fundamental", salienta.

Outro ponto importante levantado pelo professor foi a demanda por leitos hospitalares. Em Salvador, a Santa Casa de Misericórdia atendeu doentes da epidemia de 1855-56, mas diante do número de doentes era preciso improvisar mais leitos em conventos, quartéis e lazaretos.

Santa Casa de Misericórdia atendeu doentes de cólera em Salvador em 1855
Santa Casa de Misericórdia atendeu doentes de cólera em Salvador em 1855 | Foto: Romildo de Jesus/Cedoc A TARDE/19.4.2000

"O terceiro ponto foi a atuação dos médicos e enfermeiras. A Faculdade de Medicina da Bahia era referência desde o início do século XIX e vai colocar seus médicos em campo, levando novos tratamentos e remédios que vão ter maior ou menor eficácia, mas que, de certa forma, vão orientar a população. E temos o quarto ponto, com o governo intensificando a divulgação de informações que chegavam às pessoas, apelando para que as casas fossem limpas e que a água consumida fosse melhor tratada", acrescenta Pablo.

Ajuda de São Francisco

Enquanto os profissionais de saúde faziam o que era possível com o que estava disponível, a população aterrorizada pela rapidez com que a doença se espalhava e pelo número de mortes, se voltava para a fé. "Em momentos de crise política, militar ou sanitária, a sensibilidade religiosa aflora e isso pode ser percebido ao longo da história da Bahia, desde o século XVII, com as invasões estrangeiras, a crise sanitária do final do século XVII com a epidemia da varíola e no século XIX com a epidemia do cólera. As pessoas pedem intercessão divina e no caso da cólera, ela foi pedida a François Xavier (Francisco Xavier), santo espanhol canonizado em 1622", explica o professor Pablo.

São Francisco Xavier se tornou padroeiro oficial de Salvador em 1686, consagração essa que, no último dia 10, completou 340 anos. "A imagem de São Francisco Xavier tem busto de prata e o andor traz duas datas referentes aos votos ao santo. Uma das datas é 1686, quando Salvador e o Recôncavo foram atingidas pela febre amarela que devastava a Bahia. No dia 10 de maio daquele ano, o Senado da Câmara elegeu São Francisco Xavier com o voto de fazer uma festa naquele dia todos os anos. Passada a calamidade, o santo foi esquecido pelo povo e o culto, que havia caído em descaso, só foi restaurado em 1855, a outra data do andor que se refere ao cólera morbus", conta reportagem de A TARDE, de 11 de maio de 1996.

Em 1855 foram realizados sermões, procissões e missas, enquanto panfletos que pediam a intercessão de São Francisco Xavier eram distribuídos. "Isso trazia conforto espiritual aos vivos e aos doentes. Essa dimensão espiritual naquele contexto é importantíssima para entender a mentalidade da época", afirma o historiador.

A cólera também afetou o comércio, pois muitos trabalhadores ligados à produção e transporte de mercadorias morreram. "Logo se verificou uma crise de abastecimento em boa parte da província. Na capital, a escassez de alimentos estimulava a carestia. Em muitas cidades do interior faltava de tudo: arroz, farinha, carne. Esse foi o caso, por exemplo, de Baiacú, um pequeno povoado de pescadores na ilha de Itaparica. Seus moradores costumavam se alimentar de peixe, mas muitos adoeciam do cólera e ficavam impossibilitados de pescar. O delegado dessa localidade dizia, em outubro de 1855, que já havia pessoas ali morrendo de fome", diz trecho da dissertação de Onildo Reis.

Havia ainda outro agravante para a crise sanitária no século XIX, o fato do conhecimento geral sobre a cólera ser muito pouco na época. Aterrorizadas pelas mortes, muitas famílias abandonavam os corpos dos parentes mortos pela doença. "Deixavam-se cadáveres nas portas das igrejas, nos cemitérios ou mesmo nas ruas", segundo outro trecho da dissertação.

Revolução sanitária

Foi na época da epidemia de cólera do século XIX que teve início a implantação de sistemas de saneamento básico. Entre 1856 e 1857 foram instalados dois reservatórios com capacidade para 100 metros cúbicos de água na região onde hoje está o bairro de Caixa D'Água. O chafariz do Terreiro de Jesus também é dessa época, assim como o início de distribuição de água pela Companhia do Queimado, a avó da Embasa.

O período foi marcado, ainda, pela abertura de cemitérios. Na Chapada Diamantina, a construção do Cemitério Santa Isabel ou Cemitério Bizantino, em Mucugê, é um marco da epidemia de 1855. Em Salvador, a história do Campo Santo também atravessa a cólera: "A epidemia de cholera morbus que assolou a cidade em 1855 veio terminar o velho habito. Compreehendeu-se que os cemiterios eram uma necessidade e os sepultamentos nas igrejas atentavam contra a hygiene", explica a edição de A TARDE de 20 de julho de 1939.

Após a epidemia de 1855 e 1856, a cólera aparecia pontualmente no Brasil. Até que, em 1991, uma sétima epidemia mundial (pandemia) alcançou o país. Dessa vez, os casos tiveram início na Indonésia e foram se espalhando pelo mundo. No Brasil, a doença entrou pela fronteira do Amazonas com o Peru. "A epidemia se alastrou progressivamente pela região Norte e até o final de 1992, todos os estados do Nordeste foram atingidos, e casos autóctones foram registrados", explica o glossário Saúde de A a Z, do Ministério da Saúde.

Alfândega de Salvador no século XIX. Cólera chegou pelo porto em 1855
Alfândega de Salvador no século XIX. Cólera chegou pelo porto em 1855 | Foto: Cedoc A TARDE

Na Bahia dos anos 1990, a doença avançou rapidamente e mesmo que já existisse muito mais conhecimento sobre a cólera do que em comparação ao século XIX, especialistas se preocupavam com a subnotificação de casos. Em Salvador, A TARDE acompanhava de perto o avanço da doença e as ações de prevenção como o Arrastão contra a Cólera, que levava para os bairros com maior incidência (Paripe, Lobato, Alto da Terezinha, Plataforma e Periperi), folhetos informativos sobre a prevenção; além de doses de hipoclorito de sódio, composto químico usado para purificar a água. Para prevenir que mais casos chegassem à capital, um posto de fiscalização foi instalado, no verão de 1992, na Estação Rodoviária, para checar os ônibus oriundos de áreas de risco.

Esse período também foi marcado por protestos de moradores de bairros de Salvador com grande número de contaminados e baixa cobertura de saneamento básico. A edição de A TARDE de 17 de julho de 1992 reporta que moradores de cinco bairros protestaram em frente à Secretária de Saúde do Estado, onde deixaram um documento reivindicando saneamento para as comunidades mais desassistidas da cidade.

Em 1993, houve o avanço da doença para o Sudeste e Sul do país e, a partir de 1995, os casos de cólera começaram a cair. De 1991 até 2004, o Brasil registrou 168.646 casos da doença e 2.035 mortes. Cerca de 18 anos depois da última contaminação notificada em 2004, um caso autóctone de cólera, ou seja, em que o paciente contraiu a doença no próprio país e não em viagem para regiões afetadas, foi confirmado em abril de 2024, em Salvador. A doença não foi transmitida a mais ninguém.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a sétima pandemia de cólera permanece ativa em diversos países, com milhares de casos, principalmente, em regiões mais pobres da Ásia e da África.

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Campanha no transporte público durante surto de cólera nos anos 1990 1618.52kb

*Com a colaboração de Andreia Santana e Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.

*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE

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