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A Tarde Memória

Por Priscila Dórea*

ACERVO DA COLUNA
Publicado | Autor:

Instituto Histórico resguarda legado cultural baiano há 132 anos

Conhecido também como a “Casa da Bahia”, IGHB foi fundado em 13 de maio de 1894 por grupo de intelectuais empenhado em preservar documentos raros

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Sede do IGHB Especiais sobre o 2 de Julho . 100 anos da sede do Instituto Geográfico da Bahia (IGHB). Na foto: Fachada da entrada do IGHB pela avenida Joana Angélica Foto: Olga Leiria / Ag. A TARDE Data: 23/05/2023
Sede do IGHB Especiais sobre o 2 de Julho . 100 anos da sede do Instituto Geográfico da Bahia (IGHB). Na foto: Fachada da entrada do IGHB pela avenida Joana Angélica Foto: Olga Leiria / Ag. A TARDE Data: 23/05/2023 -

O Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB) foi criado em 13 de maio de 1894 para ser um espaço de preservação e produção de conhecimento. Idealizado por um grupo de intelectuais e notáveis da época, funciona desde 1923 em um casarão na Piedade e se mantém há 132 anos como um guardião da memória baiana. Através de documentos, mapas, livros raros, coleções de periódicos e uma pinacoteca, a instituição ajuda a contar parte da nossa história, resguardando o legado cultural do Estado e do Brasil.

A semente que deu origem ao IGHB foi plantada na residência do advogado Tranquilino Leovigildo Torres, no Largo 2 de Julho. Ele foi o primeiro presidente da instituição e conduziu, junto com outros intelectuais, as reuniões preparatórias para a fundação da então sociedade científica. Como aponta reportagem de A TARDE de 03 de fevereiro de 1996, no começo, o IGHB era chamado de “Instituto da Bahia”, apelido dado por Bernardino Souza, o primeiro-secretário perpétuo. Depois, passou a ser conhecido como “Casa da Bahia, a partir de 1923, quando ocupou o casarão da Piedade.

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"Bahia, 5 de maio de 1894. Ilmo. Sr. Os abaixo-assinados, de acordo com outros companheiros, resolveram fundar, nesta capital, uma Sociedade que, com o título de Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, reúna, verifique e publique todos os objetos arqueológicos concernentes à nossa história pátria, que se acham esparsos, uns em vários trabalhos, outros não-vulgarizados, formando assim um centro instrutivo, cientifico e literário que concorra para o desenvolvimento de nossa história pátria", afirma o documento que anuncia a criação e os objetivos do IGHB e que segue preservado na instituição.

Publicado na íntegra no livro "Síntese Histórica - 125 anos do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (1894-2019)", de Wilson Thomé Sardinha Martins, Nilson Joau e Silva e José Nilton Carvalho Pereira, o abaixo-assinado foi pensado e, provavelmente, redigido na casa de Tranquilino, que serviu de base para a sociedade recém-formada durante nove dias. O endereço é considerado a primeira sede do IGHB. Entre os argumentos para a criação da instituição, os fundadores destacaram o bom exemplo do Rio de Janeiro (então capital federal), Pernambuco, Alagoas, Ceará e Pará, que na época já possuíam institutos nos mesmos moldes e objetivos.

"Não pode, nem deve a Bahia, berço da nacionalidade brasileira, ficar na retaguarda dos demais estados, dilatando a fundação dessa instituição que virá prestar serviços reais e incontestáveis", afirma outro trecho do documento histórico de criação do instituto baiano que, em 13 de maio de 1894, foi oficialmente instalado na Rua do Palácio, 29. Além de equiparar a Bahia aos demais estados, a criação do IGHB preencheria o vazio deixado pelo Instituto Histórico da Bahia (IHB), que funcionou de 1856 até 1877.

No rastro da República

Na tese O progresso, a cidade e as letras: O intelectual e a transição do século XIX para o XX em Salvador da Bahia', a cientista social Cecília de Alencar Serra e Sepúlveda explica que, ao assumir a função de aproximar a Bahia das intenções modernizadoras do regime republicano, o IGHB "acabou obtendo grande apoio do governo e da sociedade civil, o que lhe possibilitou um destino longevo, bem distinto do fim precoce a que foi submetido o antigo IHB".

Historiador e atual diretor da biblioteca do instituto, que foi batizada em homenagem a Ruy Barbosa, Rafael Dantas reitera que a fundação do IGHB aconteceu no momento em que o Brasil assumia outra configuração política e social com o fim da monarquia e os anos iniciais da república. “Temos uma série de turbulências no contexto brasileiro e baiano nas últimas décadas dos anos de 1800 e pessoas sensíveis se unem justamente para resgatar e criar, através de um instituto e de outras bases existentes nas décadas anteriores, inclusive do ponto de vista institucional, a Casa da Bahia”, acrescenta.

O Instituto permaneceu na Rua do Palácio até outubro de 1894, quando mudou para a Rua da Misericórdia, 6, um prédio pertencente à Santa Casa. Em 1900, finalmente, o IGHB conquistou a primeira sede própria, no Terreiro de Jesus, 15, onde ficou até 14 de setembro de 1913. Um incêndio destruiu o prédio e a restauração levou quase dois anos. Nesse meio tempo, o IGHB se instalou no Instituto Médico Legal (IML), a quinta sede em poucos anos de criação.

Só em 2 de julho de 1923, há pouco menos de 103 anos, o IGHB se mudou para o endereço da Praça da Piedade, sua sexta sede. A mudança de local para a Casa da Bahia fez parte das comemorações do primeiro centenário da Independência do Brasil na Bahia, ocorrida em 2 de julho de 1823. "E assim, desde a década de 1920, o IGHB ocupa esse prédio como sede definitiva, esse palco de memórias que contam as histórias de Salvador, da Bahia e do Brasil. Um lugar marcado pela multiplicidade de fontes", afirma Rafael Dantas.

Sede do IGHB no começo do século XX, quando a Av. Sete era recente
Sede do IGHB no começo do século XX, quando a Av. Sete era recente | Foto: Reprodução

Na Biblioteca Ruy Barbosa estão abrigados 30 mil livros, alguns em edições raríssimas como a de Os Lusíadas, de Camões, de 1880, e uma bíblia de 1579, entre outros. Além dos livros, há uma vasta coleção de jornais também desde o século XIX, inclusive o IGHB mantém coleções de A TARDE desde a fundação do jornal, em 1912; acervo cartográfico; documentos manuscritos; diários; atas; documentos oficiais e coleções privadas.

"Esse acervo oferece um vislumbre de como as coisas eram na Bahia e são essenciais para as pesquisas realizadas no IGHB. Além do documental, o mobiliário, as mesas, cadeiras, quadros, molduras, porcelanas, objetos decorativos, cristais, medalhas, espadas e lápides também ajudam a contar a história de Salvador e de seus personagens", lista o historiador.

Há, ainda, a pinacoteca do instituto, que preserva personagens com atuação política, intelectual e acadêmica da Bahia. Entre os artistas com obras no acervo estão nomes importantes da pintura como Presciliano Silva, Lucílio de Albuquerque, Vieira de Campos, Miguel Navarro e Cañizares, José Rodrigues Nunes, Vienot et Morisset, Ernest e August Petit, entre outros. O IGHB reúne também retratos de intelectuais baianos como Ruy Barbosa, Luís Viana Filho e Manuel Querino; e dos presidentes da instituição ao longo das décadas.

Acervo de Manuscritos

O acervo do IGHB conta ainda com o Arquivo Histórico Theodoro Sampaio, que reúne joias como manuscritos de poemas de Castro Alves, Cartas de Antônio Conselheiro, sugestão de Pedro Deway para que se realizasse a abolição gradativa da escravização de pessoas negras na Bahia, autógrafos da Sóror Joana Angélica, partituras do Te Deum do Maestro Damião Barbosa e álbuns do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora. Tem até fotografias da passagem de Getúlio Vargas pelo bairro de Lobato, no Subúrbio Ferroviário.

O Instituto ao longo dos anos passou a receber arquivos particulares de intelectuais como o já citado Theodoro Sampaio e de Antônio Moniz Ferrão, Braz do Amaral, Manoel Ignácio da Cunha Menezes, o Barão do Rio Vermelho. Há ainda alguns documentos do historiador Pedro Calmon, cartas de Severino Vieira e arquivos de Consuelo Pondé de Sena, ex-presidente do IGHB.

Na hemeroteca (coleção de periódicos), o Instituto possui edições de A TARDE e de outros periódicos baianos ainda ativos; além das coleções de jornais diários do século XIX como o Correio de Notícias (1892), o Diário da Bahia (1856), o Diário de Notícias (1875) e a Gazeta do Povo (1907), entre outros.

A trajetória do próprio IGHB é encontrada nas páginas desses periódicos. Notícias sobre novos presidentes e lançamentos das revistas do instituto, por exemplo, sempre marcaram presença em A TARDE, assim como apelos pela preservação de sua infraestrutura e acervo, como na edição de 18 de julho de 1991. Na época, as obras de recuperação da sede na Piedade já duravam dois anos, mas a finalização demorava por falta de recursos. "O Instituto Geográfico e Histórico da Bahia lançou o Nº 89 da revista da entidade, num ato que foi marcado pela preocupação com o processo de restauração e soerguimento do patrimônio cultural e arquitetônico que é a sede do IGHB", diz A TARDE.

Salão Nobre do IGHB
Salão Nobre do IGHB | Foto: Aristides Baptista /Cedoc A TARDE/13.5.1993

Os cursos e palestras oferecidos pela instituição também sempre tiveram ampla divulgação e cobertura na imprensa. Com uma programação que foi se diversificando ao longo dos anos, o IGHB organiza atividades abertas não só ao público acadêmico, mas principalmente aos jovens. Ao receber o público em geral, a instituição aproveita para mostrar a riqueza do seu acervo e caminhos futuros de estudo para esse público.

"Foi um professor, Agilson Gomes da Silva, diretor do colégio onde eu estudava, a primeira pessoa que me trouxe ao IHGB e me apresentou, na época, a Consuelo Pondé, que nos mostrou como o Instituto funcionava. Eu estava na quinta série [atual sexto ano do Ensino Fundamental]. Desde então se passaram muitos anos, cursei História e hoje sou diretor da biblioteca do IGHB e lembro com muito carinho desse momento", conta Rafael Dantas.

O historiador explica que, pensar em um instituto como o IGHB ou qualquer outra entidade com essa finalidade cultural, é sempre destacar o seu caráter social. "É um espaço que congrega através dos objetos aqui presentes e dos cursos que vão desde poesia até atividades mais acadêmicas. Atrair uma pessoa que não tem nenhum vínculo com pesquisa em memória e fazê-la se sentir em casa é talvez uma das missões mais interessantes e bonitas do IGHB. Se enxergar por esses novos ângulos e espaços de memória é de uma representatividade fundamental, pois história é identidade. História é o que somos. E o que somos também está aqui no IGHB", afirma.

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Reportagem no A TARDE Cultural sobre os 80 anos do IGHB 707.93kb

*Com a colaboração de Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.

*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE

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