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A TARDE MEMÓRIA

Legado de Mãe Menininha sobrevive na memória coletiva

Ialorixá comandou o Terreiro do Gantois por décadas como diplomata do candomblé

Priscila Dórea*
Por Priscila Dórea*
Menininha do Gantois era uma das ialorixás mais conhecidas do Brasil
Menininha do Gantois era uma das ialorixás mais conhecidas do Brasil - Foto: Cedoc A TARDE

Mãe Menininha do Gantois atravessou o século XX ajudando a manter, com doçura e pulso firme, o candomblé como um patrimônio vivo e em constante renovação. Há 40 anos, em 13 de agosto de 1986, a ialorixá deixou a vida terrena e foi para o Orum juntar-se aos ancestrais, segundo a fé que ela professou por toda a vida. Durante seu sacerdócio, manteve a força de quem enfrentou preconceitos e perseguições para afirmar a dignidade das religiões de matriz africana. Símbolo de resistência cultural e espiritual, Menininha é tema de estudos, canções, prosa, poesia e devoções. Por toda a contribuição dessa guardiã de uma sabedoria ancestral, o A TARDE Memória relembra nesta edição a trajetória da “Oxum mais bonita da Bahia”.

Maria Escolástica da Conceição Nazaré nasceu em Salvador, no dia 10 de fevereiro de 1894. Ela carregava em sua linhagem a força de uma tradição matrilinear vinda da nação Egbá-Arakê, da região de Agbeokutá, na Nigéria. Iniciada no candomblé aos 6 meses de vida, herdou das ancestrais a tarefa de ser a guardiã da fé e da memória do Terreiro do Gantois, Ilé Iyá Omi Asé Iyamasé, fundado em 1846 por sua bisavó, Maria Júlia da Conceição Nazareth. A bisneta assumiria o comando como quarta ialorixá da casa.

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"A matrilinealidade estabelece um poder próprio, um legado dentro da questão de gênero para as próprias mulheres do território do qual essas escravizadas vieram. Quando Maria Júlia chega à Bahia trazida pelo tráfico transatlântico, passa pelo processo de servidão, consegue recursos e se alforria. Casa, consegue a liberdade dos filhos e funda o Gantois, um terreiro que se entende não só como núcleo religioso, mas também político, uma característica que faz parte dessa tradição iorubana que chega na Bahia em meados do século XIX e que é passada por Maria Júlia para os seus pares e descendentes", explica a Tanira Fontoura, egbomi, filha de Iemanjá e colaboradora do Memorial Mãe Menininha do Gantois.

Terreiro do Gantois na Federação foi fundado no século XIX por bisavó de Menininha
Terreiro do Gantois na Federação foi fundado no século XIX por bisavó de Menininha - Foto: Cedoc A TARDE/17.8.1986

O Terreiro do Gantois é um dos raros templos de matriz africana no Brasil que mantém em sua liderança apenas descendentes diretas das mulheres que o fundaram em meados do século XIX. Fiel à tradição matriarcal, preserva uma linhagem de sacerdotisas poderosas, onde o comando é sempre feminino e transmitido por herança e consanguinidade, garantindo a continuidade dos laços familiares e espirituais. Após a fundadora Maria Júlia (1800–1910) passar para o Orun (o mundo espiritual iorubá), quem a sucedeu foi sua filha Pulchéria Maria da Conceição Nazareth (1841-1918), seguida da sobrinha, Maria da Glória Conceição Nazareth (1879-1920) que, por sua vez, foi sucedida pela filha, Maria Escolástica, mais conhecida como Mãe Menininha.

Permanecendo à frente do Terreiro do Gantois por mais de seis décadas, dos anos 1920 até sua partida, em 1986, Mãe Menininha consolidou a casa como uma das referências do candomblé de nação iorubá. Para isso, enfrentou as dificuldades do período histórico em que os terreiros eram constantemente vigiados e reprimidos pela polícia. Sua liderança foi decisiva para que, em 15 de janeiro de 1976, o então governador Roberto Santos assinasse o Decreto Estadual da Bahia nº 25.095, retirando os terreiros de candomblé da tutela da Delegacia de Jogos e Costumes. A medida acabava com a criminalização e às exigências burocráticas que obrigavam os terreiros ao pagamento de taxas e solicitação de licenças policiais para realizar suas cerimônias.

Espiritualidade e política

Um ponto importante para entender a trajetória de Mãe Menininha, destaca a egbomi Tanira de Iemanjá, é saber que sua história sempre esteve ligada à do terreiro, que era entendido e defendido por ela não apenas como instituição religiosa, mas como espaço social e comunitário. “Ela soube destacar o caráter coletivo, mostrando que o terreiro era, ao mesmo tempo, um centro espiritual e um núcleo sociopolítico. Essa visão permitiu que mantivesse relações amplas com a sociedade, abrindo as portas do terreiro para criar laços que mostravam ao mundo que o espaço religioso não era fechado em si mesmo, mas parte ativa da vida social e cultural da Bahia”, explica.

Segundo Tanira, era preciso que as pessoas ingressassem no terreiro e entendessem o que aquela comunidade tinha para mostrar. “E ela entendia que isso era necessário para tirar a pessoa do estado de ignorância e entender como a nossa cultura colaborou para o processo da formação social brasileira. Era preciso que as pessoas entendessem que culturalmente nós somos partícipes dessa formação", acrescenta a egbomi.

Mãe Menininha recebeu a visita do Obá de Ijebu Odé no Gantois
Mãe Menininha recebeu a visita do Obá de Ijebu Odé no Gantois - Foto: Cedoc A TARDE/20.7.1983

Mãe Menininha conhecia profundamente a força do legado deixado por suas ancestrais e reconhecia o potencial cultural que os povos iorubanos trouxeram para a formação da sociedade brasileira, assim como as contribuições dos povos bantu, jeje, fon, ijexá e outras etnias que chegaram ao país, trazidas pelo sistema escravocrata durante o período colonial, conta Tanira.

"Ela tinha uma visão muito própria e particularizada, pois conviveu com lideranças oriundas de África e falava várias línguas, como iorubá, kikongo, kimbundu e jeje muito bem, além de diversos dialetos iorubanos. Ela conviveu com os mais velhos, que mostraram como as comunidades sobreviveram e como as antecessoras dela foram formadoras de irmandades negras", enfatiza.

Na II Conferência Mundial da Tradição Orixá, em 1983, que teve Salvador como sede e reuniu dezenas de embaixadores de países africanos no antigo centro de convenções da capital, inúmeras delegações foram até o Gantois para encontrar Mãe Menininha. "Foi servido um almoço com comidas típicas baianas e Mãe Menininha atendeu a todos falando em iorubá. Ela revelou: 'hoje, para mim, é um dia muito especial e a satisfação que estou sentindo não cabe dentro de mim'", relata A TARDE, na edição de 20 de julho de 1983. A matéria teve chamada com foto na capa do jornal e, nesta imagem, a ialorixá conversa animadamente com o obá (rei) de Ijebu Odé.

Mãe Menininha e Maria Bethânia conversam no quarto da Ialorixá no Gantois
Mãe Menininha e Maria Bethânia conversam no quarto da Ialorixá no Gantois - Foto: Cedoc A TARDE/11.2.1982

Diplomata de Oxum

O diálogo que Mãe Menininha mantinha com diferentes setores da sociedade tornaram o Gantois um espaço de convivência e respeito. Ela recebia desde pessoas comuns a artistas, estudiosos e ocupantes de cargos públicos. Cantoras como Maria Bethânia e Gal Costa eram suas filhas de santo. Essa postura ajudou a cunhar sua fama de extrema diplomacia e cuidado; e a difundir a importância do candomblé como patrimônio espiritual e cultural, tornando Mãe Menininha uma das mais importantes ialorixás do país.

Não é à toa que a sua partida, em 13 de agosto de 1986, aos 92 anos, foi acompanhada tanto pelo povo de santo, quanto gerou comoção mesmo entre quem não professava o candomblé como religião. O governo da Bahia decretou três dias de luto oficial e tropas das três forças armadas, exército, marinha e aeronáutica, sem armamento, fizeram parte do cortejo de mais de oito mil pessoas que, segundo estimativa publicada na edição de A TARDE de 15 de agosto de 1986, acompanhou a despedida da ialorixá no dia anterior. Salvador, ressalta o texto, parou para o último adeus à Mãe Menininha.

Mãe Menininha e Bethânia conversam no quarto da ialorixá no Gantois
Mãe Menininha e Bethânia conversam no quarto da ialorixá no Gantois - Foto: Cedoc A TARDE/11.2.1982

"Milhares de pessoas se aglomeravam nas calçadas, nas sacadas e janelas dos edifícios, nas encostas e viadutos [...]. Carregada por filhos de santo e pelo professor Edvaldo Brito, o caixão desceu a ladeira do Gantois sob o cântico de 'Adeus Minha Mãe', em iorubá", relata A TARDE.

Cerca de seis anos após a partida de Menininha, em 1992, o Memorial Mãe Menininha do Gantois começou a funcionar como o primeiro espaço museal de cultura afrodescendente da América Latina. Neste ano, nos 40 anos de sua passagem espiritual, o Guia de Museus Baianos lançou um tour virtual pelo memorial, que reúne mais de 500 peças referentes à história, objetos rituais e pessoais de Mãe Menininha. O memorial integra o espaço sagrado do terreiro.

Herança preservada

Na sucessão do Gantois, além da matrilinearidade, pesa a escolha dos orixás, que é feita no tempo deles e não no tempo humano. Após a partida de Mãe Menininha, sua filha mais velha, Cleusa Millet, foi a indicada e liderou o terreiro entre 1989 e 1998. Com a passagem de Mãe Cleusa, os orixás determinaram, em 2002, que a filha mais nova, Carmem Oliveira da Silva, a Mãe Carmem de Oxaguian, assumisse o comando. Mãe Carmem permaneceu à frente do terreiro até sua partida, aos 98 anos, em 26 de dezembro de 2025.

Atualmente, o Gantois cumpre o luto e o período de axexê pela passagem de Mãe Carmem, sua sexta ialorixá, para o Orum. O terreiro está fechado por pelo menos um ano e apenas o Memorial Menininha do Gantois e o centro comunitário estão funcionando.

Tanira Fontoura ressalta que o Memorial sempre foi um espaço importante para Mãe Carmem, principalmente para a preservação e propagação da história do terreiro, tombado em 2002, e do legado de Mãe Menininha. Para a egbomi, o primeiro grande legado que Mãe Menininha deixa "é a prova da manutenção de uma instituição como essa liderada por uma mulher. Outro ponto importante é a coragem de enfrentar uma sociedade onde a branquitude impera e onde uma mulher transitou em diversos espaços e conseguiu estabelecer respeito e ser valorizada", afirma.

Mãe Menininha e uma de suas netas no Gantois nos anos 1970
Mãe Menininha e uma de suas netas no Gantois nos anos 1970 - Foto: Cedoc A TARDE/10.2.1978

Em 3 de fevereiro de 1994, no ano que marcaria o centenário do nascimento de Mãe Menininha, A TARDE publicou uma reportagem especial sobre a ialorixá. O texto destaca: "A mais legítima filha de Oxum, rainha das águas doces e sacerdotisa mais respeitada dos cultos afrobrasileiros, são alguns dos atributos de Mãe Menininha do Gantois". Em outro trecho, enfatiza ainda que, "Mãe Menininha, no seu longo reinado de 64 anos à frente do Terreiro do Gantois, conseguiu impor respeito e admiração à religião dos orixás em todos os segmentos da sociedade".

A sabedoria, a humildade, a gentileza e o pulso firme de Mãe Menininha do Gantois são admirados por quem a conheceu. "Sempre com um imenso cuidado em ensinar a enxergar o outro do jeito que o outro é, ou era, ou quem nós somos de verdade. Mãe Menininha era, dentro da doçura dela, uma grande dirigente. Ela era a prova de que todas essas mulheres que vieram antes dela foram personalidades de tal força e que legaram a ela o que ela está nos legando, que é um modelo de gestão e salvaguarda de espaços religiosos e que também, por si, são culturais, políticos e educativos. E, ainda hoje, ela consegue mostrar isso, mesmo na ausência física e na imaterialidade", completa a egbomi Tanira Fontoura.

*Com a colaboração de Andreia Santana e Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.

*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE

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