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A TARDE MEMÓRIA

Maria Bethânia chega aos 80 anos com poesia, música e ancestralidade

Seus mais de 60 anos de carreira estão preservados no acervo do Cedoc A TARDE

Priscila Dórea*
Por Priscila Dórea*
Maria Bethânia no palco em Salvador, no show de reinauguração do Teatro Castro Alves, em 1993
Maria Bethânia no palco em Salvador, no show de reinauguração do Teatro Castro Alves, em 1993 - Foto: Rejane Carneiro/Cedoc A TARDE/24.7.1993

Um rito e uma chama que ilumina gerações, Maria Bethânia chega aos 80 anos como quem atravessa o tempo com voz e poesia. Nascida em Santo Amaro da Purificação, a “Abelha Rainha” da Música Popular Brasileira, título que traduz sua imponência e delicadeza, construiu uma trajetória que se confunde com a própria história da MPB. Em mais de seis décadas de carreira, lançou dezenas de álbuns, vendeu milhões de discos e se tornou referência incontornável. Filha de Dona Canô, de Iansã e da Bahia, Bethânia canta, recita e encanta como quem invoca os ancestrais, cheia de intensidade e memória.

Maria Bethânia Viana Teles Veloso nasceu em 18 de junho de 1946, caçula de oito irmãos em uma família profundamente ligada à cultura e à religiosidade. Filha de Dona Canô e de José Teles Veloso (Seu Zezinho), cresceu cercada por tradições populares e fé. A estreia nacional aconteceu em 1965, quando substituiu Nara Leão no espetáculo Opinião, no Rio de Janeiro. Foi ali que interpretou Carcará pela primeira vez. A canção se tornou o primeiro grande sucesso e símbolo de resistência no Brasil mergulhado na Ditadura Militar.

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A intensidade da apresentação revelou ao país uma artista sem precedentes e que, segundo o doutor em antropologia pela Ufba, Marlon Marcos, “sempre teve noção de si”. Fã e estudioso da trajetória da cantora, ele acrescenta: "De uma maneira impressionante, Maria Bethânia começou muito jovem, ainda uma adolescente. É como se ela soubesse, desde lá, o que queria fazer no cenário cultural, literário e musical do Brasil. O primeiro ponto que a gente destaca em Bethânia é a capacidade expressiva, a maneira de ocupar o palco dentro de uma expressividade que não se sabia se seria uma grande cantora ou uma grande atriz, e ela acabou combinando essas duas especificidades, a capacidade expressiva e dramática com a força da sua voz".

Maria Bethânia na festa de Nossa Senhora da Purificação em 1976
Maria Bethânia na festa de Nossa Senhora da Purificação em 1976 - Foto: Cedoc A TARDE/2.2.1976

Marlon afirma que um dos pontos fundamentais para entender a presença longeva de Bethânia na MPB tem a relação com a capacidade da artista de inovar dentro da tradição. "A estética de Bethânia esteve presente dialogando com outras grandes cantoras que vieram antes dela, enquanto ela permaneceu na tradição de um canto brasileiro, mas inovando dentro da tradição. Isso a fez construir uma singularidade muito grande. Uma diva singular. Alguém que lembra o canto de Dalva de Oliveira, Aracy de Almeida e Nora Ney, mas ao mesmo tempo é o canto de Maria Bethânia", explica.

Doce e selvagem

Pouco mais de 10 anos após a estreia nacional, Bethânia se uniu ao irmão Caetano Veloso e a Gilberto Gil e Gal Costa para formar o Doces Bárbaros, em 1976. A ideia era celebrar os dez anos de carreira de cada um deles, mas o projeto se tornou muito mais do que uma comemoração e foi um marco da época. O nome surgiu da música Os mais doces bárbaros, de Caetano, e também como resposta irônica às críticas que receberam na imprensa.

Bethânia, Caetano, Gal e Gil em apresentação dos Doces Bárbaros em 1979
Bethânia, Caetano, Gal e Gil em apresentação dos Doces Bárbaros em 1979 - Foto: Cedoc A TARDE/19.2.1979

A estreia dos Doces Bárbaros aconteceu em São Paulo, no Anhembi, e logo se transformou em uma turnê que percorreu várias cidades do país. O repertório misturava canções inéditas e releituras de outros compositores. O resultado do espetáculo vibrante e diverso foi o documentário de mesmo nome, dirigido por Jom Tob Azulay, e o lançamento do álbum Doces Bárbaros - Ao Vivo, que se tornou uma referência da MPB.

Também foi em 1976 que a artista recebeu um convite que a levou de volta à cidade natal. "Convidada para abrir os festejos em louvor a Nossa Senhora da Purificação, em Santo Amaro, a cantora Maria Bethânia foi saudada por 40 baianas, ontem, no Adro da Igreja Matriz. Depois, saiu com o porta-estandarte da festa, seguida pela charanga Lira dos Artistas e uma multidão, que passou todo o dia, apesar das chuvas, promovendo grande animação". O relato e foto aparece na edição de A TARDE de 2 de fevereiro daquele ano. Esse é só um dos muitos registros de textos e imagens sobre a carreira da cantora, preservados no Centro de Documentação (Cedoc) de A TARDE.

A cantora Maria Bethânia na Festa de Nossa Senhora da Purificação
A cantora Maria Bethânia na Festa de Nossa Senhora da Purificação - Foto: Cedoc A TARDE/2.2.1976

Em 1978, Bethânia lançou o álbum "Álibi", que deu ao público músicas como Sonho Meu (que ela canta com Gal), O Meu Amor, (em dueto com Alcione), Explode Coração (Não dá mais pra segurar), escrita por Gonzaguinha, e a icônica Cálice, de Chico Buarque. No ano seguinte, trouxe o show Álibi para Salvador. A TARDE, na época, registrou o recorde de vendas do disco: "Maria Bethânia conseguiu esse ano atingir uma marca que dificilmente outra cantora brasileira conseguirá dobrar: Álibi, o seu novo elepê, já vendeu 800 mil cópias e do jeito como está indo, até o final do ano, não será surpresa vencer a casa de um milhão de discos vendidos”, diz a edição de 19 de setembro de 1979.

Álibi alcançou o número de um milhão de discos pouco depois, tornando Maria Bethânia a primeira cantora brasileira a alcançar a marca. Naquele ano, ela completava 16 anos de carreira e A TARDE definiu Bethânia como uma “cantora vitoriosa, que conquistou palmo a palmo o seu espaço no cenário da música popular brasileira".

Maria Bethânia com Chico Buarque e Baden Powell em show de 1986
Maria Bethânia com Chico Buarque e Baden Powell em show de 1986 - Foto: Cedoc A TARDE/19.7.1986

Diva da MPB

Muitas outras premiações e reconhecimentos vieram ao longo dos anos. Em 1994, ela "faturou disco duplo de platina pela vendagem de 500 mil cópias de As canções que você fez pra mim, baseado no farto repertório romântico de Roberto Carlos", segundo conta a edição de A TARDE de 16 de maio. Em 2005, recebeu a Ordem do Mérito Cultural (OMC), uma das maiores condecorações do governo brasileiro, concedida pelo Ministério da Cultura. E, em 2016, recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia. Nesse mesmo ano, foi tema da escola de samba Mangueira.

“Maria Bethânia na música brasileira é singularidade”, reitera Marlon Marcos. Para o pesquisador, essa singularidade nasce da paixão da cantora pela literatura. “Ela nunca abriu mão dos textos literários e poéticos, da maneira de dizer no palco como as atrizes fazem. E essa união entre música e texto deu a ela esse lugar de grande expressão da literomusicalidade no cenário cultural brasileiro. A gente consegue alcançar uma Maria Bethânia que, dentro dessa perspectiva literomusical, leva para o palco a música, mas, ao mesmo tempo, os textos teatrais, poéticos e dramatúrgicos".

Bethânia, continua Marlon, apreendeu muito disso com Fauzi Arap, diretor e dramaturgo que foi decisivo na construção da estética cênica da cantora. “Sob a influência de Arap, ela desenvolveu uma forma de interpretar que ultrapassa o canto e se aproxima do rito, incorporando gestos, pausas e intensidade dramática”, define o pesquisador, que estudou no mestrado a relação de Maria Bethânia com as tradições religiosas afro-indígenas do recôncavo baiano e de que forma isso influenciou na sua arte.

“Bethânia levou para esse cenário também as tradições religiosas que absorveu em Santo Amaro, ao trazer para o centro de suas apresentações o cerne da cultura brasileira, elementos dos caboclos e da forma de louvar através do canto. Maria Bethânia expandiu os limites da música popular. Sua expressão artística passou a carregar filosofias africanas, mesmo sem nomeá-las como tal, e fez da literamusicalidade um espaço de encontro entre poesia, fé e resistência”, acrescenta.

Bethânia na Lavagem do Bonfim, em janeiro de 1974
Bethânia na Lavagem do Bonfim, em janeiro de 1974 - Foto: Cedoc A TARDE

Filha de Iansã

Para Marlon, Bethânia é uma mulher nascida para o palco. “Maria Bethânia é uma senhora do palco, uma senhora da cena. A cena é extremamente importante para ela. A gente pode dizer que Maria Bethânia é uma mulher do teatro. Ela articula texto, som, música, marcação e domínio de cena. Ela acabou sendo uma cantora que tem essa especificidade e singularidade que aplaudimos nesses mais de 60 anos de carreira", complementa.

Aliada ao talento artístico, há a religiosidade que atravessa a vida pessoal e a carreira de Maria Bethânia, que foi iniciada no candomblé pelas mãos de Mãe Menininha do Gantois, em 1981, junto ao irmão Caetano. Filha de Iansã, a iniciação no terreiro de Mãe Menininha consolidou sua ligação com os orixás e deu ainda mais profundidade à sua religiosidade, que já se manifestava na arte e na postura pública, a ajudando a se conectar com uma ancestralidade que sempre esteve presente em sua vida, desde a infância em Santo Amaro.

"Ter nascido em Santo Amaro da Purificação, no recôncavo da Bahia, fez com que Maria Bethânia ampliasse essa perspectiva de uma cantora singular", ressalta Marlon Marcos. Desde cedo, continua o pesquisador, ela mesclou a influência do catolicismo popular, presente nas procissões e festas da cidade natal, com a força das religiões de matriz africana, sobretudo os candomblés de caboclo. “Essa convivência com diferentes tradições fez com que sua trajetória fosse marcada por uma escola cultural fincada na herança afro-indígena do Brasil. No recôncavo baiano, onde nasceu e cresceu, as culturas africanas reinventadas se misturavam às tradições indígenas e à presença lusitana. E o mais interessante é que ela nunca abriu mão desse pertencimento que associa a cultura afro-indígena às interferências culturais portuguesas”.

Ainda de acordo com Marlon, Bethânia conseguiu de uma maneira muito digna e inventiva levar para o cenário cultural brasileiro a força das tradições negras e indígenas, tratando de temas que antes não eram tratados pelo mainstream [o que é considerado mais aceito] da MPB. “Ela levou o candomblé de Ketu, o candomblé do Gantois, os cânticos dos caboclos e a presença dos orixás dentro de uma filtragem baiana para que o Brasil todo assistisse e respeitasse".

Maturidade soberana

Uma reportagem de A TARDE publicada em 15 de julho de 1988 e intitulada Tranquila senhora das águas, analisa as mudanças na trajetória artística de Bethânia ao longo dos anos, ainda que a força de sua presença não tenha se alterado. O texto descreve a imponência da cantora, que havia voltado ao palco do Teatro Castro Alves (TCA) dois anos depois de ter celebrado ali os seus 20 anos de carreira. "Maria Bethânia já foi devastadoramente a senhora absoluta dos raios e trovões cênicos. Tempestades de outros tempos, dos quais conserva o domínio do ritmo e do palco. Atualmente, traz a mansidão forte das águas correntes, sejam do Subaé ou do Tejo", afirma a reportagem.

Esse caldeirão de referências moldou a sensibilidade da cantora e deu à sua arte uma dimensão única. Bethânia se tornou, assim, uma cantora que não apenas interpreta canções, mas que carrega em sua voz a memória de um Brasil plural. Nesse contexto, Santo Amaro, como ressalta Marlon Marcos, é o chão que nutre Maria Bethânia.

"Santo Amaro é o lugar que deu a ela a régua e o compasso para que, somando-se ao que ela aprendeu nos três anos que morou em Salvador, se tornasse uma tradutora de um tipo de Brasil que é um Brasil, na minha opinião, hegemônico no sentido cultural", explica.

Em Santo Amaro, a cantora é ostensivamente amada, como apontam os inúmeros registros em A TARDE das comemorações do seu aniversário na terra natal. Um deles, de 22 de junho de 2002, descreve a festa preparada pela família e pela cidade para celebrar os 56 anos da cantora. A festa teve direito a alvorada, café da manhã junino, almoço à base de escaldado de peru, forró pé-de-serra, cantorias da irmã Mabel Velloso e missa.

Marlon Marcos, que também é jornalista, poeta, professor e colunista de A TARDE, escreveu no ano passado uma reportagem especial para o jornal sobre os 60 anos de carreira de Bethânia. "A presença de Maria Bethânia em nosso cancioneiro não pode ser dimensionada apenas no aspecto musical. Em seu trabalho, existe um sentimento de brasilidade que nos ajuda a nos entendermos como povo. Há, ali, um requinte literário e ao mesmo tempo antropológico que enxerga o Brasil pela lente dos mestiços, dos negros, dos indígenas, dos nordestinos, dos terreiros, do afro-catolicismo, das quebradas populares", escreveu, na edição de 13 de fevereiro de 2025.

Maria Bethânia com João Gilberto e Gal Costa em show de reinauguração do TCA em 1993
Maria Bethânia com João Gilberto e Gal Costa em show de reinauguração do TCA em 1993 - Foto: Rejane Carneiro/Cedoc A TARDE/24.7.1993

Para ele, o Brasil que Maria Bethânia sustenta na sua estética e arte é uma ideia da qual ele se sente parte. "Esse desenho de país no trabalho musical de Maria Bethânia é o lugar onde eu queria morar, é o lugar onde eu queria existir. Então, não é só a fruição musical ou o prazer que a voz dela nos dá, na audição e no corpo, é também a capacidade que a gente tem de pensar o Brasil, de respeitar o Brasil negro, indígena, mestiço e nordestino. É a possibilidade que a gente tem de sentir tudo isso e, ao mesmo tempo, transcender tudo isso para o grande lugar que a arte nos dá", reflete.

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Reportagem do Caderno 2 em 1988: Tranquila senhora das águas 836.45kb
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Reportagem de 1979 celebra 800 mil copias vendidas do álbum Álibi 1614.90kb

*Com a colaboração de Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.

*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE

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