Mascote da vacinação, Zé Gotinha faz 40 anos em 2026
Personagem surgiu como estratégia lúdica; história das campanhas de imunização do Brasil está preservada nas páginas de A TARDE

A história da vacinação no Brasil revela um legado de conquistas científicas, responsabilidade coletiva e resistência à desinformação que transformou a saúde pública no país e salvou milhões de vidas. Muita coisa aconteceu desde a primeira campanha vacinal, em 1804, até a implantação do Programa Nacional de Imunizações (PNI), quase 170 anos depois, em 1973. Sem contar a criação da icônica mascote Zé Gotinha, em 1986, durante campanha contra a poliomielite, até chegarmos a janeiro de 2021, quando as primeiras doses contra a Covid-19 foram aplicadas, evitando mais mortes pela pandemia.
A primeira campanha vacinal brasileira aconteceu em 1804, na Bahia, com um método de imunização desenvolvido pelo médico inglês Edward Jenner para combater a varíola e, de forma problemática, usando crianças escravizadas como cobaias. No século XIX, havia dificuldade no transporte e conservação das vacinas e a imunização acontecia ‘braço a braço’, ou seja, parte da secreção da pústula gerada pela vacinação de uma pessoa era retirada e inoculada em outra. Sete crianças escravizadas foram vacinadas durante a travessia do Atlântico, quando o imunizante foi trazido de Portugal a partir da articulação de comerciantes baianos. Elas receberam a vacina pouco antes do desembarque em Salvador, para que desse tempo de extrair a secreção fresca, que a partir daí passou a ser inoculada nos habitantes da cidade.
Um século depois, uma violenta epidemia de varíola se espalhou pelo Rio de Janeiro, então capital federal, vitimando cerca de 3,5 mil pessoas, de acordo com a Biblioteca Virtual Oswaldo Cruz. Na época, o médico Oswaldo Cruz era diretor de Saúde Pública e há anos pedia que as autoridades tornassem a vacinação obrigatória. A lei foi aprovada em outubro de 1904, mas a população da época não gostou e em novembro aconteceu a Revolta da Vacina.
Os protestos violentos e a repressão deixaram um saldo de 30 mortos, 110 feridos e 945 presos. Apesar da resistência, dois anos depois do começo da imunização, em 1906, as mortes por varíola no Rio haviam caído para nove. Outra epidemia assolaria a cidade em 1908, com registro de 6,5 mil casos, mas ainda segundo os dados da Biblioteca Virtual Oswaldo Cruz, dessa vez a população já buscou a vacinação de forma voluntária.
A campanha no Rio em 1908 pode ser considerada um marco na caminhada do Brasil para se tornar referência mundial em cobertura vacinal não somente contra a varíola, mas também para reduzir surtos de outras doenças. Exemplo disso é a edição de 24 de fevereiro de 1939 de A TARDE, que traz notícias sobre a luta contra a tuberculose: "A immunização dos indivíduos tem sido feita até aqui com a B.C.G. nas clinicas pediatricas e maternidades, aliáz com optimos resultados", informava o texto.
Foco nas crianças
As campanhas se intensificaram ao longo das décadas e muitas tinham como foco principal as crianças e bebês, já que são mais vulneráveis a uma série de doenças. A edição de A TARDE de 14 de março de 1953 traz uma chamada do Departamento Nacional da Criança para a adoção da vacinação preventiva. "A Ciência e a Medicina de hoje tem aperfeiçoado seus métodos, de tal forma, que a vacina é agora um processo de proteção simples e não doloroso”, diz o texto.
Antes dessa chamada na edição de 1953, um programa de imunização começou a ser criado, com ampla divulgação na imprensa, a partir da vacinação contra a coqueluche, varíola e difteria, com alguns médicos aconselhando os pais a vacinarem seus filhos também contra o tétano, como aponta A TARDE em 7 de janeiro de 1952. No texto, o jornal explicava porque bebês deveriam ser imunizados, quais enfermidades as vacinas combatiam e como essa imunização contribuia para a proteção à vida: "A imunização, ao evitar essas doenças infecciosas, reduziu tremendamente as mortes causadas pela coqueluche, varíola e difteria. Na última geração, a inoculação reduziu em cerca de 50% a mortalidade infantil causada por essas enfermidades. As epidemias são agora mais raras e menos graves".
Programa nacional
Em 1973, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) foi oficialmente criado pelo Ministério da Saúde (MS) para organizar e ampliar as ações de vacinação em todo o Brasil, garantindo acesso gratuito e universal às vacinas. Desde então, tornou-se um dos maiores e mais completos do mundo, responsável por campanhas históricas que erradicaram a varíola e a poliomielite, além de reduzir drasticamente casos de sarampo, rubéola e outras doenças.

"Há esse esforço, um comportamento coletivo em que todos percebem que estão se protegendo. É importante ressaltar que a vacina protege os indivíduos que são vacinados e aqueles que não são vacinados. Essa consciência coletiva e o fato de as pessoas notarem que as vacinas são seguidas da eliminação ou redução de doenças, é um reforço positivo muito importante", explica o pesquisador Edson Moreira, do Instituto Gonçalo Moniz, da Fundação Oswaldo Cruz na Bahia (Fiocruz - BA)
Ele acredita, ainda, que foi uma boa estratégia do Brasil associar as campanhas a figuras mais lúdicas como o Zé Gotinha, mascote da imunização contra a pólio citada no começo da reportagem. "O Zé Gotinha na campanha de combate a pólio trocou a ideia de medo da vacina, da agulha, por algo mais amistoso. Assim como a ideia de fazer uma vacinação na forma de campanha, onde é preciso de um esforço coletivo, não só dos profissionais de saúde, mas da sociedade civil, das escolas e de todos", acrescenta.
Criado em 1986 pelo MS, a figura carismática de Zé Gotinha rapidamente ficou conhecida em todo o Brasil, atraindo e mobilizando milhões de crianças e suas famílias. Na Campanha de Multivacinação de 1991, a mascote surpreendeu quem aguardava o início do filme Sonho de Verão, no Cinema Glauber Rocha. "Cercado pelas crianças, Zé Gotinha explicava a importância das vacinas para se evitar doenças como tétano, difteria, coqueluche e sarampo que juntas chegam a matar 2.500 crianças a cada ano", explicou a edição de A TARDE de 21 de abril daquele ano.
A erradicação da pólio no Brasil em 1994 e o alcance das campanhas de multivacinação no país chamou a atenção de outros governos mundiais. Na campanha de agosto de 1995, o médico Miguel Nakamura, representante do Ministério da Saúde do México, acompanhou o lançamento da ação em Salvador. A expectativa daquele ano era imunizar 4,5 milhões de crianças na Bahia. "Ele disse que veio ao Brasil observar todos os meandros da campanha para ver o que pode ser incorporado nos trabalhos similares desenvolvidos no seu país", explicou a edição de A TARDE do dia 18 de agosto.
Vacinação e pandemia
Até a década de 1990, as principais vacinas aplicadas no Brasil pelo PNI incluíam a BCG, Poliomielite, DTP (difteria, tétano e coqueluche), Tríplice Viral (sarampo, caxumba e rubéola) e Hepatite B. Já a vacina contra a Febre Amarela era administrada em áreas endêmicas ou em campanhas específicas. O imunizante contra meningite C foi incluído no PNI em 2001, o de hepatite A em 2013, e o contra o HPV, em 2014, para meninas e, em 2017, para meninos. Em janeiro de 2021, teve início a vacinação contra a Covid-19.
A chegada das doses para combater o SARS-CoV-2 ao Brasil representou um marco na luta contra a pandemia e trouxe esperança em meio ao cenário de crise sanitária e social. Com a imunização, foi possível reduzir drasticamente casos graves, internações e mortes, permitindo a retomada gradual das atividades econômicas; além de fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS) como referência mundial em campanhas de vacinação.

"A Bahia iniciou ontem a vacinação contra a Covid-19, com a imunização de quatro pessoas na sede das Obras Sociais Irmã Dulce, em Salvador ", noticiou A TARDE em 20 de janeiro de 2021. De acordo com o Vacinômetro do MS, mais de 524 milhões de doses contra o vírus SARS-CoV-2 foram aplicadas no Brasil. Dessas, mais de 36 milhões na Bahia.
Negacionistas
Apesar de todo o sucesso mundial quando o tema é vacinação, o Brasil ainda enfrenta ondas de negacionismo e desinformação que refletem na queda da cobertura vacinal. Sem a proteção, as doenças retornam, lembra o pesquisador Edson Moreira, que diferencia o sentimento antivacina da hesitação vacinal:
“Sentimento antivacina afeta aquelas pessoas inflexíveis que não creem na vacina de maneira alguma, que não querem ouvir nenhum tipo de argumento, felizmente, é uma porção pequena. O que existe hoje de forma crescente é a hesitação vacinal, que é a pessoa que tem dúvida, que tem algum tipo de questionamento e atrasa ou recusa uma vacina apesar de estar disponível. E esse é um problema tão grave que a Organização Mundial de Saúde elencou os dez maiores problemas para a saúde pública mundial e a hesitação vacinal foi o terceiro maior problema”, explica o pesquisador.
Edson Moreira ainda argumenta que as vacinas são criadas com muito esforço científico e muito custo para prevenir doenças que têm consequências graves. “Estamos vendo essas doenças voltarem de maneira muito assustadora. Mas a hesitação vacinal tem remédio: a informação. As pessoas têm direito a ter dúvidas. Se eu ouvisse o que as pessoas ouvem diariamente através das mídias sociais e outras fontes, também teria dúvidas. Ter dúvidas é legítimo e os profissionais de saúde devem estar preparados e dispostos a oferecer respostas para essas dúvidas. Na sua grande maioria, uma vez esclarecidas, as pessoas decidem acertadamente por vacinarem-se e aos filhos. A vacinação é a maior ferramenta de saúde pública", enfatiza.
*Com a colaboração de Andreia Santana e Tallita Lopes
*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas
*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE
Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.
Participe também do nosso canal no WhatsApp.
