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A TARDE MEMÓRIA

Mulheres conquistaram o espaço em junho de 1963

Missão Vostok 6 foi comandada pela russa Valentina Tereshkova

Priscila Dórea*
Por Priscila Dórea*

"Sou a gaivota. Encontro-me muito bem. Estou realizando a experiência da ausência da gravidade". Valentina Tereshkova, em 1963, voou alto na missão que a transformou na primeira mulher a viajar ao espaço. A bordo da Vostok 6, a operária e paraquedista russa orbitou a Terra por 71 horas, deu 48 giros ao redor do planeta e enfrentou falhas técnicas que exigiram habilidade para garantir o retorno seguro. De origem humilde, saiu do interior da Rússia para entrar para a história da corrida espacial, garantindo a presença feminina em um campo dominado até então só por homens. Em 17 de junho daquele ano, A TARDE manchetou: Lançada ao cosmos a primeira mulher astronauta.

Mais de seis décadas depois, o nome de Valentina, uma jovem de 26 anos na época da missão Vostok 6, permanece gravado na memória coletiva e na Lua, onde uma cratera no lado oculto recebeu o nome de Tereshkova em 1970. Prestes a completar 90 anos, no ano que vem, a cosmonauta nasceu em 6 de março de 1937, na vila de Maslennikovo. Filha de um motorista de trator e de uma operária de fábrica têxtil, desde jovem demonstrava interesse por atividades ligadas ao voo. Enquanto trabalhava em uma fábrica têxtil para ajudar nas contas de casa, após a morte do pai, praticava paraquedismo como hobby. Aos 22 anos, em maio de 1959, realizou o primeiro salto no aeroclube local. Começava ali o caminho rumo ao espaço.

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"Após o primeiro voo espacial tripulado realizado por Yuri Gagarin, o governo soviético autorizou a seleção de mulheres para o programa de cosmonautas, com o objetivo de garantir que a primeira mulher no espaço fosse cidadã soviética", explica o artigo 'First woman in space: Valentina' (Primeira mulher no espaço: Valentina), publicado no portal da Agência Espacial Europeia (ESA). Em meio a Guerra Fria, os Estados Unidos e a então União Soviética disputavam milha a milha a corrida espacial, "competição" entre os blocos capitalista e socialista para demonstrar superioridade militar e política. A disputa foi tão intensa, que eles decidiram nomear de forma distinta quem enviavam ao espaço: astronautas para os EUA e cosmonautas para a URSS.

A largada ocorreu em 1957, com o lançamento do foguete Sputnik 1 pelos soviéticos e teve seu desfecho simbólico em 1975, na missão conjunta Apollo-Soyuz, marco da cooperação entre as duas potencias. O ápice da disputa ocorreu em 1969, quando os astronautas Neil Armstrong e Buzz Aldrin chegaram à Lua a bordo da Apollo 11. Mas, muitos outros feitos históricos aconteceram nesse período, como a criação da NASA, a Agência Espacial Norte-Americana, em 1958; os primeiros animais levados ao espaço, com destaque para os cães Belka e Strelka, pela URSS, em 1960; o primeiro humano no espaço, o cosmonauta Yuri Gagarin, em 1961; e a primeira mulher cosmonauta e a chegar ao espaço, Valentina Tereshkova, em 1963.

"A missão da Valentina continua muito importante atualmente, não só porque ela foi a primeira mulher a ir ao espaço, mas até hoje ela é a única mulher que foi sozinha numa missão espacial. Ela passou quase três dias em órbita ao redor da Terra e depois voltou. E, naquela época, as cápsulas russas precisavam que os pilotos fossem ejetados e descessem de paraquedas. Inclusive, a Valentina chamou a atenção dos oficiais porque ela era muito boa paraquedista amadora", explica a astrônoma Rosaly Lopes. Especialista em geologia dos planetas, ela atua no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA.

Mulheres no cosmos

O programa de cosmonautas mulheres teve início em 1962, com mais de 400 candidatas concorrendo a cinco vagas. O principal fator que tornou Tereshkova uma escolha interessante para o programa, mesmo sem experiência como piloto espacial, foi o seu histórico de mais de 100 saltos como paraquedista amadora. A missão seria realizada em uma espaçonave Vostok, que exigia que os cosmonautas ejetassem antes do pouso e descessem de paraquedas no retorno à Terra. Sua extensa experiência com saltos à colocou em vantagem. Junto com Tereshkova, mais quatro mulheres foram selecionadas: Tatyana Kuznetsova, Irina Solovyova, Zhanna Yorkina e Valentina Ponomaryova.

Elas passaram por um treinamento longo e intenso, que incluía testes de isolamento e de centrífuga, pilotagem em jatos de combate (os conhecidos Mikoyan-Gurevich ou MIGs), aulas teóricas de engenharia aeroespacial e 120 saltos de paraquedas. O treinamento começou em fevereiro de 1962 e os exames finais foram realizados em novembro. Um ponto interessante é que as candidatas aprovadas foram nomeadas tenentes da Força Aérea Soviética, uma espécie de cargo honorário, o que significa que Tereshkova também se tornou a primeira civil a voar no espaço.

A ideia inicial era realizar dois voos em sequência, com um intervalo de poucos dias entre um e outro, levando duas mulheres ao espaço. Mas, o plano acabou mudando e, enquanto a espaçonave Vostok 5 seria conduzida por um homem, o cosmonauta Valery Bykovsky, a Vostok 6 seria comandada por uma mulher, Valentina Tereshkova, a escolhida pelas autoridades russas espaciais. Após assistir ao lançamento da Vostok 5 no Cosmódromo de Baikonur, em 14 de junho, Tereshkova concluiu os preparativos para seu próprio voo. As duas espaçonaves viajaram há quase vinte e oito mil quilômetros por hora.

"Na manhã de 16 de junho, Tereshkova e sua reserva, Solovyova, vestiram seus trajes espaciais e foram levadas de ônibus até a plataforma de lançamento. Após a verificação dos sistemas de comunicação e suporte à vida, ela foi selada dentro de sua espaçonave. Após uma contagem regressiva de duas horas, a Vostok 6 decolou sem problemas e, em poucas horas, já estava em comunicação com Bykovsky, na Vostok 5, marcando a segunda vez que duas espaçonaves tripuladas estiveram no espaço simultaneamente. Com o indicativo de rádio ‘chaika’ (‘gaivota’), Tereshkova tornou-se a primeira mulher no espaço. Ela tinha 26 anos", conta o artigo da ESA.

Repercussão mundial

A viagem espacial de Valentina ganhou repercussão mundial e, na Bahia, foi acompanhada de perto por A TARDE. "Intitulando-se uma gaivota do espaço, a primeira cosmonauta do mundo, Valentina Tereshkova, transmitiu à Terra sua primeira mensagem a bordo do 'Vostok 6', ao tempo em que, através da televisão, era vista pelo povo soviético, mostrando-se sorridente, feliz e denotando estar bem de saúde. A primeira mulher cosmonauta movimenta-se bem no interior do 'Vostok 6'. A cápsula espacial segue a mesma órbita da cosmonave em que viaja o tenente-coronel Valery Bykovsky, que gira no espaço há três dias", informa a reportagem de 17 de junho de 1963.

Com uma atualização completa e chamada principal na capa sobre o primeiro dia de Valentina na órbita da Terra, a cobertura de A TARDE trouxe informações enviadas pela TASS, a Agência de Notícias Russa, que explicou "que o propósito de enviar um homem e uma mulher ao espaço é o de comparar os efeitos das viagens siderais sôbre um e outro sexo". O texto revela ainda que, após o primeiro descanso no espaço, tanto Valentina quanto Valery começaram o dia 17, o segundo dia dela, fazendo exercícios físicos na espaçonave. Ainda segundo o relato em A TARDE, os equipamentos operavam dentro do previsto.

O feito pioneiro de Tereshkova percorreu o mundo rapidamente graças à televisão. E foi assim, inclusive, que a mãe da cosmonauta soube que Valentina estava em órbita. Antes da viagem, ela não fazia ideia de que sua filha sairia da atmosfera terrestre e entraria para a história.

Ainda nas atualizações do dia 17, A TARDE trouxe felicitações enviadas de Londres pela rainha Elizabeth II, direcionadas ao então primeiro-ministro soviético Nikita Khrushchev e à própria Valentina. "Desejo estender as mesmas calorosas congratulações a S. Excelencia e por seu intermédio a Valentina Tereshkova pela sua realização como a primeira mulher a viajar ao espaço. Desejo-lhe uma feliz viagem", declarou a rainha.

O então vice-presidente da Sociedade Interplanetária Britânica (BIS), Kenneth Gatland também parabenizou o voo, afirmando que algum tipo de tributo deveria ser realizado pela coragem de Valentina e que a viagem se tratava "de algo mais do que uma demonstração de propaganda”, diz o texto de A TARDE.

Controle manual e dos nervos

A missão de Valentina não foi um passeio pela órbita da Terra. A cosmonauta não era a Mulher Maravilha, mas chegou perto. Mesmo com náuseas, dores de cabeça e fadiga durante parte do voo, teve sangue frio e nervos de aço para resolver as falhas na programação da Vostok 6 que a fizeram se afastar da Terra em vez de iniciar a reentrada na atmosfera do planeta.

Tereshkora teve de assumir o controle manual da nave para que a trajetória fosse corrigida. Além disso, durante a descida da cosmonauta, houve falha no sistema de comunicação e ela perdeu o contato de rádio com a Terra. Focada na missão mesmo diante dos contratempos, pousou em segurança, em 19 de junho de 1963, após concluir a missão. Em um voo, a russa acumulou mais horas no espaço do que todos os astronautas dos EUA juntos, até então.

"A Agência Tass acaba de informar que os veículos espaciais soviéticos 'Vostok V' e 'Vostok VI' desceram sem novidade à Terra. Os dois pilotos, Valentina Tereshkova, a primeira mulher cosmonauta, e o tenente coronel Valery Bykovsky, aterrissaram na área pré-estabelecida, segundo o comunicado oficial [...]. Segundo informações de Karaganda, capital da República Soviética do Kazakhstão, ambas as naves espaciais desceram em boa forma no 53º grau de latitude. A área da descida fica perto de Kustanay. Ambas as localidades têm sido frequentemente usadas para a descida dos astronautas soviéticos. Ficam situadas na Sibéria central", informa A TARDE, em 19 de junho de 1963.

Filha das estrelas

O primeiro casamento de Valentina aconteceu em novembro daquele ano com o cosmonauta Andryan Nicolaiev, com quem teve uma filha. Elena Andrianovna Nikolaeva-Tereshkova foi a primeira pessoa no mundo a ter uma mãe e um pai que haviam viajado para o espaço.

Declarada Heroína da União Soviética, Valentina recebeu inúmeras condecorações como duas Ordem de Lenin, a mais alta condecoração estatal da ex-URSS, uma em 1963 e outra em 1981; a Medalha de Ouro da Sociedade Britânica de Comunicação Interplanetária, em 1964; a Ordem do Mérito pela Pátria, em três classes (3ª classe, em 1997, 2ª classe, em 2007, e 1ª classe, em 2017); e a Medalha de Ouro da Paz das Nações Unidas, em 1977.

Após a viagem espacial, ela teve uma carreira política na União Soviética e representou o bloco socialista na Conferência da ONU para o Ano Internacional da Mulher, na Cidade do México, em 1975. Mesmo após a desintegração da União Soviética, em 1991, seu prestígio não foi abalado e ela foi eleita várias vezes para o novo Parlamento Russo", explica o perfil biográfico da cosmonauta, escrito por Alfredo Martins para o portal do Grupo de Estudos de Astronomia, da Universidade do Estado de Santa Catarina.

Aos 89 anos, Tereshkova é tratada como heroína nacional na Rússia e se mantém fonte de inspiração para outras mulheres na área das conquistas espaciais. "Já fazem 60 anos desde que a Valentina foi ao espaço e muita coisa mudou. Hoje em dia, mulheres não só vão ao espaço como astronautas, como também são cientistas e engenheiras, trabalhando ao lado dos homens nas missões espaciais", afirma a astrônoma Rosaly Lopes.

Aos mais jovens, ela aconselha que, espelhados em feitos de pessoas como Tereshkova, “busquem seguir uma carreira que realmente amam e que lhes dê prazer, pois assim você realmente vai se dedicar ao trabalho. Se você quer ser astronauta, cientista, médico, vá atrás de seu sonho, estude muito e alcance o seu potencial máximo”.

*Com a colaboração de Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.

*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE

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