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VISIONÁRIA

Nise da Silveira revolucionou a psiquiatria usando a arte

Há 120 anos, nascia a psiquiatra alagoana que veio para a Bahia aos 15 anos estudar Medicina; acervo de A TARDE guarda registros da sua história

Andreia Santana*
Por Andreia Santana
Nise da Silveira
Nise da Silveira - Foto: CCMS - Centro Cultural do Ministério da Saúde

O escritor Graciliano Ramos, em Memórias do Cárcere, descreve o olhar de Nise da Silveira como “perturbador e magnetizante”. Os dois se conheceram na prisão durante o Estado Novo, regime que vigorou no Brasil de 1937 a 1945, com Getúlio Vargas como ditador. No livro, Graciliano recorda os tempos na cadeia e se refere à compleição franzina da colega de detenção, mas ressalta que apesar de pequena, a moça tinha uma vontade de ferro. Nise estava acostumada a causar espanto. Não foi diferente quando entrou no curso de Medicina, com apenas 15 anos. Ao se formar, em 1926, era a única mulher em uma turma de 156 homens.

Considerada pioneira nos tratamentos humanizados em psiquiatria e na introdução no Brasil dos estudos sobre o inconsciente feitos por Carl Jung, Nise tem uma relação forte com Salvador. Foi aqui que ela desembarcou de Maceió para estudar na Faculdade de Medicina da Bahia, a primeira fundada na América Latina, ainda no século XIX, e hoje parte da UFBA. No dia em que se comemoram os 120 anos de seu nascimento, mergulhamos no acervo de A TARDE para relembrar a trajetória dessa mulher e médica revolucionária. No Centro de Documentação (Cedoc) do jornal há registros fotográficos e reportagens que contam sobre a relação de Nise com a Bahia.

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Nise da Silveira na adolescência (clique na imagem para ampliar)
Nise da Silveira na adolescência (clique na imagem para ampliar) - Foto: CCMS - Centro Cultural do Ministério da Saúde

A médica tinha 31 anos quando foi presa. Na época, ela perdeu o cargo conquistado após aprovação em um concurso para psiquiatra, em 1933, conforme ela mesma contou, em uma entrevista ao A TARDE Cultural, publicada na edição de 13 de novembro de 1993. Após tomar posse no cargo, foi morar nas dependências do Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental, na Praia Vermelha (RJ). Desde a chegada ao Rio, após a morte do pai no estado natal, ela fez amizade com os poetas Manuel Bandeira e Ribeiro Couto. No mesmo círculo, conheceu Otávio Brandão, que era, então, dirigente do Partido Comunista. Leitora de Marx e de livros socialistas, ela gostava de debater política com os amigos intelectuais.

No alojamento do hospital, Nise guardava seus objetos pessoais e os livros. Foram justamente eles que contribuíram para a prisão. Uma enfermeira arrumava o quarto da médica quando se deparou com os títulos considerados ‘subversivos’ pelo regime. A enfermeira denunciou a nova psiquiatra à administração do hospital, que levou o caso à polícia política do Estado Novo. Ela ficou presa, sem direito a processo ou julgamento, durante quase um ano e meio, na Casa de Detenção da Rua Frei Caneca (RJ), onde também cumpriam pena Olga Benário, já grávida de Luís Carlos Prestes, e Graciliano.

Nise da Silveira na juventude (clique na imagem para ampliar
Nise da Silveira na juventude (clique na imagem para ampliar - Foto: CCMS - Centro Cultural do Ministério da Saúde

“Eu era antifascista e isso justamente no período de ascensão do fascismo na Alemanha, na Itália. E o Getúlio, aqui, embarcava na mesma canoa. Formou-se a Sociedade Nacionalista Anti-Fascista e eu participei, ia às reuniões. Mas, não cheguei mesmo a entrar no Partido Comunista porque não me adaptei. Nunca me adaptei a partido nenhum, a coleira nenhuma”, afirmou Nise da Silveira, aos 88 anos, décadas depois desse episódio de sua vida, na já citada entrevista exclusiva, publicada em A TARDE, que ela concedeu de sua casa no Rio, cercada de fotografias, livros e pets. Ao longo da vida, ela chegou a criar ao mesmo tempo 23 gatos.

Pioneira

Além da entrevista de 1993, o A TARDE publicou uma edição inteira do seu antigo suplemento cultural em homenagem ao centenário da psiquiatra, em 2005. O caderno de oito páginas traz um perfil biográfico e artigos de intelectuais convidados sobre a trajetória da médica e o seu pioneirismo na vida e na profissão. Também traz ilustrações de pinturas feitas pelos pacientes de Nise, nos anos 1940.

Filha única, Nise da Silveira nasceu em 15 de fevereiro de 1905 e cresceu em uma família de classe média alta, em Maceió. Ao contrário do que se esperava para o destino das mulheres na sua época, teve uma formação de excelência e era incentivada a estudar pelo pai, o jornalista Faustino Magalhães da Silveira, e pela mãe, Maria Lídia, que era pianista. “Mamãe era exímia pianista, mas não sabia passar um café, diferente das mulheres do seu tempo. Mas papai entendia o jeito dela e não se importava, porque ele também era assim”, contou Nise na entrevista de 1993, referindo-se à educação moderna que recebeu.

Com tanto estímulo, era de se imaginar que ela colecionaria grandes feitos ao longo da vida, como o de cursar medicina, mesmo sendo sensível à visão do sangue fresco e, uma vez formada, percorreria os caminhos tortuosos e complexos da mente humana. Na psiquiatria, começou a fazer história ao se recusar a dar eletrochoques em pacientes ou realizar as polêmicas cirurgias de lobotomia, muito em voga na primeira metade do século XX. Como a psiquiatra rejeitava as terapias agressivas para tratar os pacientes com doença mental, foi mandada para a ala de Terapia Ocupacional.

O problema é que a terapia ocupacional nos sanatórios do período consistia em colocar os pacientes para fazer tarefas de limpeza do chão e banheiros. Era mais uma punição do que de fato, um tratamento. Nise decidiu mudar tudo e colocou os seus pacientes para pintar, modelar e se expressar por meio da arte. Se faltava papel para desenho, ela mandava trazer jornais usados, mas não interrompia o fluxo criativo dos pacientes.

“Sofri pressões, mas não dei importância. Não consideravam um trabalho sério, mas uma brincadeira. Como eu juntei rapazes e moças [ela não dividia os pacientes por gênero], um colega psiquiatra disse: ‘Nise se comporta como uma dona de gafieira’. Naquele tempo, gafieira era uma palavra pejorativa. Uma das formas de boicotar o meu trabalho era o corte de verbas para a compra de papel para o ateliê de pintura. Não tem papel? Então vou no arquivo e apanho os jornais E eles diziam: ‘Nise é uma pessoa sofisticada, ela manda pintar no Diário Oficial”, revelou a psiquiatra, ao risos, ainda durante a entrevista dada ao A TARDE em 1993.

Amiga de Jung

Com os trabalhos dos seus pacientes, Nise da Silveira fundou o Museu de Imagens do Inconsciente, no Engenho de Dentro, em 1952. A instituição, hoje, tem página na internet vinculada ao Centro de Cultura do Ministério da Saúde, onde é possível ver as pinturas e saber mais sobre os artistas e sobre a psiquiatra e seus métodos. Ela também criou, em 1956, a Casa das Palmeiras, um espaço para acolher pacientes que estavam prontos para uma nova fase de tratamento, a de recuperação da autonomia para que deixassem as instituições psiquiátricas e voltassem ao convívio social.

Nise da Silveira e os ministros da saúde Jamil Haddad e da cultura Antônio Houaiss
Nise da Silveira e os ministros da saúde Jamil Haddad e da cultura Antônio Houaiss - Foto: Funarte/ Cedoc A TARDE/02-11-93

Em 1957, encontrou Carl Jung pela primeira vez, durante o II Congresso de Psiquiatria, em Zurique, na Suíça, e esse encontro foi um estímulo para que ela avançasse nos estudos sobre a linguagem do inconsciente. Por conta das obras de arte que os pacientes criavam no ateliê, a psiquiatra estava cada vez mais interessada nos estudos do inconsciente. Depois de tornar-se amiga de Jung, ela mandava desenhos dos pacientes para ele e recebia informações e sugestões do colega suíço.

“Formou-se uma fila para cumprimentar Jung. Quando chegou a minha vez, ele me disse: ‘A pintura de seus doentes causou-me muita estranheza e nesses dois últimos dias passei pensando por quê elas eram tão diferentes das pinturas dos outros expositores’. Então, Jung disse que verificava que a pintura de primeiro plano era de doentes com alterações psíquicas, mas que o fundo das pinturas o perturbava. Porque havia uma diferença entre o fundo dessas pinturas e a dos outros e esse fundo não era doente, era demasiado harmonioso para ser de indivíduos que estavam com distúrbios psíquicos. E é aí que ele me perguntou em que condições meus pacientes pintavam para que acontecesse isso. Respondi que pintavam num ambiente livre e espontâneo. E ele acrescentou: ‘E com uma pessoa que não tem medo do inconsciente’".

Legado

Não ter medo do inconsciente e usar a arte como um meio de expressão tanto para quem está em sofrimento psíquico, como alguém com a saúde mental comprometida, quando por quem busca trabalhar questões que ainda não estão muito nítidas.

A arteterapeuta junguiana Dayane Nardes, que atualmente preside a Associação Baiana de Arteterapia e também coordena a pós-graduação em Arteterapia do Instituto Junguiano da Bahia, curso realizado em parceria com a Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, diz que embora Nise da Silveira não fosse uma arteterapeuta e sim uma psiquiatra que se utilizou da arte como ferramenta terapêutica para tratar doença mental, os arteterapeutas da atualidade ‘bebem na sua fonte’, pois os trabalhos da médica sobre o inconsciente são uma fonte de aprendizado constante também em atendimentos terapêuticos diversos e não só naqueles psiquiátricos.

“Nise nunca falou no termo arteterapia, mas nós da arteterapia é que bebemos muito da fonte Nise. Ela não era uma arteterapeuta, era uma psiquiatra que se utilizou das artes dentro de um centro de terapia ocupacional e nós da arteterapia utilizamos o olhar de Nise para também entender e interpretar, a partir da psicologia junguiana, as imagens que as pessoas expressam”, complementa Dayane.

A especialista também explica a diferença entre a terapia ocupacional adotada por Nise na sua prática clínica e a arteterapia: “Arteterapia é uma abordagem que se utiliza das expressões artísticas e da psicologia. Unindo essas duas forças para um equilíbrio do sujeito através das expressões diversas da arte. A terapia ocupacional tem uma perspectiva de dar maior funcionalidade ao sujeito. Ela também se utiliza da arte, mas não tão só, usa diversas outras técnicas. A ideia da terapia ocupacional é sempre buscar a funcionalidade do sujeito. Na arteterapia, a ideia é equilibrar a psique”.

*Colaboraram Priscila Dórea e Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época

*Material elaborado com base em edições de A TARDE e acervo do CEDOC/A TARDE

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