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A Tarde Memória

Por Andreia Santana e Priscila Dórea*

ACERVO DA COLUNA
Publicado sábado, 07 de março de 2026 às 3:45 h | Autor:

Normalistas abriram caminho para a educação feminina no século XIX

Instituto Isaias Alves faz 190 anos. Criado para formar professores, ICEIA possibilitou o acesso das mulheres ao magistério e mercado de trabalho

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Prédio da Escola Normal, em Nazaré, em 1936. Atualmente, abriga o MP-BA
Prédio da Escola Normal, em Nazaré, em 1936. Atualmente, abriga o MP-BA -

Há 190 anos, a criação do Instituto Central de Educação Isaias Alves provocou uma revolução. Em uma época na qual as mulheres estavam confinadas à vida doméstica, a Escola Normal da Bahia, nome com o qual o ICEIA nasceu, abriu caminho para que, através do magistério, diversas jovens tivessem acesso a uma formação e ao mercado de trabalho. Gerações de normalistas passaram pela instituição e, junto com a transformação nas vidas dessas primeiras professoras primárias, o cenário da educação baiana mudou.

A abertura da Escola Normal da Bahia foi instituída em 14 de abril de 1836, a partir da lei de número 37, que decretava que só poderia ser professor primário quem passasse pelo Curso de Formação Normal. Inicialmente, a ideia era educar os homens para o exercício do magistério e, embora a legislação já contemplasse a formação das mulheres, somente com o regulamento de 1842 é que elas passaram, de fato, a frequentar a instituição.

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As chamadas “escolas normais”, ou seja, centros para a formação de professores habilitados em um sistema pedagógico para atuar no ensino básico, remonta à Europa do final do século XVIII e ao período da revolução industrial, quando se apresentou a necessidade de educar as camadas populares da sociedade. Até então, educação era privilégio dos abastados.

O curso normal baiano, que inicialmente durava dois anos, começou a funcionar cinco anos após sua instituição, em outubro de 1841. Primeiro, foi preciso elaborar um manual de ensino a partir do Método Mútuo, sistema educacional popular no século XIX, onde alunos mais avançados, chamados de monitores, ensinavam aos colegas sob a supervisão de um mestre.

Auditório do Iceia após restauração em 1978
Auditório do Iceia após restauração em 1978 | Foto: Cedoc A TARDE/24.1.1978

"Dois professores foram enviados à França para passar um período na Escola Normal francesa para aprender o Método Mútuo e retornar à Bahia com um manual de ensino. Esse regulamento regeria o ordenamento e o funcionamento do curso prático da Escola Normal da Bahia", explica a pedagoga, pesquisadora e mestra em educação e contemporaneidade, Tiane Melo dos Anjos, que faz parte do Grupo de Pesquisa em Educação e Currículo (GPEC).

A Escola Normal da Bahia foi a terceira criada no Brasil, aponta a pesquisadora, e a que obteve mais sucesso, pois enquanto outras escolas pelo país eram criadas, instaladas e logo depois interrompidas, por aqui o processo foi mais perene. “Na Bahia não houve interrupções longas sem atividades na escola, mas sim pausas para reformas provocadas, principalmente, pela inserção das mulheres ", explica Tiane.

Obstáculos

No primeiro ano das mulheres na Escola Normal da Bahia, 1842, apenas uma aluna estava matriculada. Até 1847, 14 frequentaram a instituição. Mesmo em número ainda tão pequeno, a presença feminina gerava inquietação porque os professores eram homens e as alunas estavam em salas também cheias de rapazes. Para a mentalidade da época, a mistura era inadequada.

O currículo previa língua portuguesa, gramática, aritmética e desenho linear, além de aulas práticas dentro de escolas primárias. Havia também diferenças por gênero no ensino das disciplinas. Enquanto os homens se aprofundavam nas aulas teóricas para dar conta posteriormente do ensino básico, às mulheres eram ensinados complementos como cozer, ler e as quatro operações; ou seja, habilidades para futuras esposas e mães.

Só que as mulheres queriam mais e o aumento da procura delas por vagas levou a escola a se reorganizar para atender a esse crescente público feminino. O interesse das estudantes se explicava pelo fato de o magistério ser uma das únicas profissões socialmente aceitas para mulheres no período e onde elas eram valorizadas e respeitadas. "Há alguns relatos em revistas de educação em que as normalistas contam que esse espaço de formação era a única aspiração possível para elas naquele contexto", acrescenta Tiane.

Curso ideal

Alcançar o currículo adequado para as mulheres deu trabalho. Em 1846, o diretor de estudantes, uma função semelhante à de secretário, elaborou um documento comparando o programa da Escola Normal francesa com a baiana e mostrando como o currículo dos homens poderia ser ampliado, incluindo até aulas de botânica, revela a pesquisadora do GPEC. Em seguida, ele sugeriu um plano específico para o ensino das mulheres apenas com aulas práticas. Além disso, propôs que o curso não ocorresse mais junto com os homens.

A ideia era que as alunas tivessem aula no Recolhimento da Misericórdia, onde além da formação, "dariam um destino social às meninas desvalidas que viviam ali", aponta Tiane. O presidente da província aprovou a sugestão e o curso passou a se chamar Escola Normal Auxiliante. Mas essa proposta não foi executada graças a uma professora: Ana Joaquina dos Santos Bonatti.

Iceia passou por restauração em 1975
Iceia passou por restauração em 1975 | Foto: Cedoc A TARDE/11.9.1975

Nomeada professora do curso destinado às mulheres, Ana Joaquina, que depois seria diretora da Escola Normal por 46 anos, começou a questionar a falta de material e estrutura para a educação das jovens. "Em seus primeiros relatórios, ela indaga onde estavam o material necessário para aplicar o Método Mútuo e o plano de ensino mais aprofundado para desenvolver suas aulas. Ana Joaquina foi essa professora que constantemente problematizava o currículo voltado às senhoras", explica Tiane.

Discurso pronto

Com a popularização da Escola Normal, as meninas eram enviadas pelas famílias para a instituição, em alguns casos, a contragosto. Mas, essas que chegavam contrariadas, ao longo do curso acabavam gostando da ideia de ensinar. Havia ainda os casos de extrema necessidade, como o de uma viúva com cinco filhos que pleiteou vaga para uma das filhas, de 16 anos. A formação permitiria que a futura professora ajudasse no sustento da família.

"Outras diziam que queriam ver desaparecer o analfabetismo entre as crianças, abraçando a carreira do magistério primário como um sacerdócio, uma missão. A Escola Normal era esse lugar do desejo de querer ser professora e um dos poucos espaços onde as mulheres podiam ampliar conhecimentos", acrescenta a pesquisadora Tiane Melo dos Anjos.

Com a alta demanda de mulheres por vagas, o discurso do magistério como sendo vocação e sacerdócio femininos prevalecia também entre legisladores e diretores da escola. No caso desses homens no poder, associar o magistério feminino a uma ‘’vocação natural” das mulheres para o ensino de crianças, era como uma extensão da maternidade. Como se as crianças fossem ‘filhas’ das professoras ou, no mínimo, a ideia de que mulheres teriam ‘predisposição natural’ à maternidade e ao cuidado, as inclinaria ao magistério.

“Mas esse movimento de inserção feminina foi atravessado também por possibilidades, como o próprio surgimento do campo de trabalho para [mulheres como] Ana Joaquina dos Santos Bonatti, primeiro como professora e, então, diretora da instituição", pondera Tiane.

Nem todas as normalistas saiam da formação direto para as salas de aula, mas a chance de receber mais educação do que era permitido, ou possível, atraia cada vez mais mulheres para a instituição. Nas primeiras décadas da República, a sede feminina por conhecimento e espaço na sociedade chamou a atenção do educador Anísio Teixeira.

Segundo Tiena Melo dos Anjos, em 1928, Teixeira sinalizou em um relatório que a Escola Normal da Bahia era muito procurada pelas mulheres, mas que muitas não se inseriam posteriormente no magistério primário, pois viam ali um espaço onde podiam ampliar os saberes adquiridos durante a própria educação primária. Ele então propôs a criação de dois cursos, um voltado para quem desejava ensinar e outro, como secretariado, que abrisse novas possibilidades de atuação para as mulheres no mercado de trabalho.

Normalistas em greve

Desde a sua fundação, em 1912, A TARDE tanto acompanhou o desenvolvimento da Escola Normal da Bahia quanto o progresso das conquistas femininas na sociedade. Em 1932, o jornal cobriu um imbróglio ocorrido em meio a uma grave crise na escola às vésperas do centenário. A situação culminou com o diretor Álvaro Silva e o vice-diretor Alípio Franca pedindo demissão ao mesmo tempo. Os alunos e alunas da escola não aceitaram a saída da direção e as normalistas organizaram uma greve, apoiadas por estudantes do ensino superior.

Na edição de 14 de maio de 1932, o jornal noticiou a ida de uma comissão de normalistas e cinco professoras para uma audiência no Palácio da Aclamação, na época a sede do governo estadual. A intenção era pedir a interferência governamental para impedir a saída dos diretores. No dia da audiência, 900 alunas caminharam em direção ao palácio devidamente embandeiradas, como noticia A TARDE: "Tendo a comissão obtido audiência especial para as quinze horas, o corpo discente se movimentou ás quatorze horas, formando um longo desfile de quatro a quatro, conduzindo o estandarte da Escola".

Normalistas na comemoração dos 134 anos de Fundação da Escola Normal
Normalistas na comemoração dos 134 anos de Fundação da Escola Normal | Foto: Cedoc A TARDE/15.4.1970

O texto de A TARDE está acompanhado de uma imagem em clichê das estudantes entrando no Aclamação. Na época, a sede da Escola Normal da Bahia era na rua Almeida Couto, atual Avenida Joana Angélica, nº 1312. Hoje, o palacete que já acolheu as normalistas funciona como uma das unidades do Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA).

ICEIA

Em seus 190 anos de existência, a Escola Normal da Bahia mudou de sede e de nome. As mudanças de endereço ocorreram, principalmente, para atender a demanda crescente de alunas. A instituição chegou a funcionar como internato por alguns anos para abrigar estudantes vindas do interior da Bahia e de outros estados, como Sergipe.

“O internato foi o período em que a escola teve o boom da procura por mulheres. Era uma instituição onde elas poderiam ficar reclusas, tinham acesso a comida, estadia, escolarização e formação de professores. Foi um período no qual a escola passou também a ser procurada por outras cidades do interior. Existiam as pensões que os municípios enviavam alunas para se formarem na Escola Normal e depois retornarem para as suas cidades para lecionar”, complementa Tiane.

Até os anos 1940, a Escola Normal da Bahia funcionou no palacete em Nazaré que hoje abriga o MP-BA. Quando o espaço ficou pequeno, iniciaram-se os planos para a construção do Instituto Central de Educação Isaías Alves. A transformação da antiga escola em ICEIA ocorreu em 1962.

Nos anos 1970, A TARDE também acompanhou a consolidação do instituto como referência na formação de professores para os ciclos básicos. Em 24 de janeiro de 1978, ao noticiar novas reformas previstas para o prédio do ICEIA, o jornal descreveu a instituição como a maior de ensino da rede estadual do período, responsável por formar professores que atuavam em áreas diversas da educação. “Muitos ocupam cargos de alto nível como professores de universidades, técnicos em educação, chefes de departamento, diretores de estabelecimentos de ensino", enumerava o jornal.

As normalistas ajudaram a consolidar a fama do ICEIA como referência na formação de professores ao ocuparem um espaço até então vetado para as mulheres, abrindo caminho com persistência em um mundo ainda majoritariamente masculino. Os homens até tentaram limitar o papel das professoras primárias, mas elas foram muito além...

RODAPÉ

*Com a colaboração de Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.

*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE

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