Perseguição a Javier Alfaya é alerta sobre os riscos do autoritarismo de Estado

Publicado sexta-feira, 19 de março de 2021 às 12:54 h | Atualizado em 19/03/2021, 13:43 | Autor: Cleidiana Ramos

Em 5 de outubro de 1988, o Brasil viveu um dia histórico. O país, após 21 anos de ditadura militar, ganhou uma nova Constituição Federal, a que está em vigor e é conhecida como “Cidadã” devido a vários avanços especialmente no campo de direitos. Ulyssess Guimarães (1916-1992) presidente da Assembleia Nacional Constituinte, a formação especial de parlamentares que preparou a Constituição, fez um emocionado e forte discurso que ficou também marcado pelo seguinte trecho: “Nós temos ódio e nojo à ditaura”. A frase talvez expresse como poucas o que era, para várias gerações brasileiras, viver ameaçadas pelo que fosse interpretado como uma ameaça ao estado governado por militares, mas com apoio de vários segmentos civis. Uma história por conta desse contexto envolveu, em uma situação parecida a do personagem do romance O processo, de Kafka, o então presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Javier Alfaya.

Javier nasceu na Espanha. Chegou à capital baiana quando tinha sete anos ao lado da mãe e da irmã, em 1963, um ano após seu pai ter vindo trabalhar na fábrica que produzia a aguarente Jacaré e a gasosa Saborosa. Estudante de arquitetura na Universidade Federal da Bahia (UFBA), Alfaya como muitos jovens da sua época, logo estava cerrando fileiras nas lutas de contestação à ditadura iniciada com um golpe militar no dia 31 de março e finalizado em 1º de abril de 1964.

Diretor de Cultura da UNE foi eleito para a presidência da entidade, que era um dos pólos de resistência à ditadura, em setembro de 1981. Nos primeiros meses do ano seguinte, o ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel abriu um inquérito para expulsar Javier Alfaya do país. A justificativa era o seu envolvimento em questões de política nacional.

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Inquérito foi aberto pelo Ministério da Justiça

Mas a ditadura já caminhava para o seu fim. Havia uma maior pressão para que a democracia voltasse e, logo criou-se um grande movimento em defesa de Javier Alfaya. Tanto que o slogan “Javier é brasileiro” correu o país. 

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A defesa de Javier Alfaya ganhou apoio de vários segmentos sociais

Alerta

A TARDE publicou 14 reportagens sobre o caso durante 1982. A memória deste episódio é para destacar o quanto é necessária a vigilância constante contra o autoritarismo do Estado, especialmente no momento em que estão ocorrendo ataques reiterados, até com prisões, de pessoas que têm criticado o governo do atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro.

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Javier Alfaya, ao lado dos pais, foi recebido pelo então arcebispo de Salvador, o cardeal dom Avelar Brandão Vilela

Mais detalhes dessa história podem ser conferidos na versão dessa coluna para o jornal A TARDE neste sábado, 20. A TARDE Memória também tem uma versão às sextas-feiras em A TARDE FM. As histórias contadas em  A TARDE Memória têm como base o material que forma o acervo do Cedoc A TARDE.   

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