Primeiro orelhão da Bahia foi instalado em 1972
Aparelhos públicos já conectaram os quatro cantos do Brasil e garantiram o acesso a serviços em uma época em que ainda não existiam os celulares

Na edição especial de 06 de outubro de 1992, para comemorar seus 80 anos, dali a nove dias, A TARDE trouxe a história da telefonia na Bahia desde o final do século XIX até os investimentos previstos para o setor naquele ano. Um trecho e uma fotografia da reportagem chamam a atenção para um equipamento em vias de extinção, o orelhão. Na legenda da imagem lia-se “Primeiro orelhão baiano instalado em 1972”. A informação fora de contexto representa apenas uma curiosidade histórica. Mas, lendo a reportagem, havia a informação de que até 1974, somente 20 municípios baianos tinham cobertura de telefonia privada, o que situava os orelhões não como um simples equipamento, mas como ferramenta essencial para a comunicação no Estado, em uma época em que não existiam internet e celular.
A história dos orelhões, elemento rotineiro da paisagem urbana para quem tem mais de 50 anos, ganha ares de nostalgia a partir do anúncio de que os últimos orelhões do Brasil – 38 mil equipamentos – começaram a ser recolhidos pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) desde janeiro deste ano. O motivo é o fim das concessões de telefonia fixa para as empresas responsáveis pela manutenção dos aparelhos. Somente as cidades que não possuem outros meios de comunicação manterão orelhões até 2028. É o fim de uma era.
O recolhimento dos orelhões também demonstra que, para o mundo de hoje, os telefones públicos tornaram-se obsoletos, já que os celulares se popularizaram. Até os anos 1990, quando os celulares ainda eram os “tijolões” que pouca gente podia pagar para ter, os orelhões eram essenciais e ajudavam muita gente não só a se comunicar com a família como a acessar serviços ou até responder anúncios de empregos publicados nos classificados dos jornais. Agora, com acesso a smartphones dos modelos mais simples e baratos aos mais sofisticados, redes de wi-fi públicas, banda larga, pacote de dados e outros avanços, até o telefone fixo em casa já é uma raridade.
A origem
O aparelho orelhão foi criado em 1971 pela arquiteta Chu Ming Silveira. No final da década de 1960, a Companhia Telefônica Brasileira precisava encontrar uma forma eficiente de proteger os já existentes telefones públicos e a resposta veio dessa arquiteta chinesa radicada no Brasil, que chefiava o departamento de projetos da CTB. "A arquiteta estava tentando não somente resolver um problema funcional, mas valorizar o serviço prestado e compor o ambiente urbano no qual o orelhão seria inserido", destaca a monografia ‘O orelhão como suporte: resgate da função e redefinição de funcionalidades através do design participativo’, do arquiteto Augusto Bergamaschi Rücker.
As necessidades mais básicas que esses “protetores de telefone” precisavam era a funcionalidade, integração ao mobiliário urbano e agradar ao gosto dos brasileiros. "A partir da forma do ovo, simples e acusticamente melhor, foram desenvolvidos os chamados Orelhinha e Orelhão. À época de seu lançamento, foram denominados pela CTB, Chu I e Chu II, em homenagem à sua inventora. O modelo Chu I, em acrílico laranja, foi idealizado para telefones públicos instalados em locais fechados, como estabelecimentos comerciais e repartições, ao passo que o Chu II foi concebido para áreas externas", explica o site do acervo de Chu Ming Silveira.
O Chu II foi fabricado em fibra de vidro nas cores laranja e azul, resistente ao sol e à chuva, ao frio e às altas temperaturas brasileiras. As cidades do Rio de Janeiro e São Paulo foram as primeiras a receberem os novos protetores, nos dias 20 e 25 de janeiro de 1972, respectivamente. No mesmo ano, o primeiro equipamento chegou à Bahia. Os apelidos que o protetor ganhou da população foram muitos, como “Tulipa” e “Capacete de Astronauta”, até chegar no mais popular e que pegou para sempre, “Orelhão”.
Na Bahia, os telefones públicos eram especialmente disputados, a ponto da população, 10 anos depois, em 1982, exigir que mais aparelhos fossem instalados nos conjuntos habitacionais da cidade. “A disputa entre as crianças é grande, já que atender ao orelhão para depois chamar as pessoas interessadas, às carreiras, é uma brincadeira. A quantidade reduzida de telefones faz com que as filas se verifiquem, prejudicando àqueles que inutilmente tentam fazer uma chamada para o orelhão, que sempre dá sinal de ocupado", informava A TARDE, na edição de 9 de setembro de 1982.

Pelo telefone
Nos anos 1980, ter aparelho e linha telefônica própria exigia muito dinheiro e algumas famílias, inclusive, realizavam consórcios para comprar o item, o que tornava o orelhão um equipamento vital em muitas comunidades. Essa importância perdurou quase até a virada do milênio, como registrou A TARDE, em 20 de março de 2000, quando o jornal publicou que um grupo de taxistas, comerciantes e moradores de Conceição do Coité estava revoltado com a Telemar, empresa responsável pelos orelhões na época, que havia desativado um dos dois únicos aparelhos do centro do município, "deixando o principal logradouro da cidade (Avenida Amâncio Mota) desprovido desse importante meio de comunicação”, reforçava o texto.
Na já citada reportagem de 6 de outubro de 1992, sobre os 116 anos da invenção do telefone e a história da telefonia na Bahia, A TARDE também destaca que o popular orelhão, encontrado em quase todos os pontos da capital e interior, representava “um canal de comunicação permanentemente aberto, sem barreiras sociais ou de qualquer outra espécie".
E não foi só o jornal baiano que acabou registrando a memória do orelhão para a posteridade. O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, na crônica ‘Amenidades da Rua’, publicada no Jornal do Brasil, na década de 1970, também se rendeu às facilidades trazidas pelo orelhão para o cotidiano do brasileiro: "A verdade é que a rua ficou sendo outra coisa, com as pessoas descobrindo que não precisam mais fazer fila no boteco ou na farmácia para dar um recado telefônico. Na própria calçada, uma vez comprada a ficha no jornaleiro, comunicam-se. Tão simples".
Caiu a ficha
A princípio, era preciso comprar fichas telefônicas que se pareciam com moedas, para usar os orelhões. A pessoa encaixava a ficha no aparelho e quando a chamada era completada, ouvia-se o som da "ficha caindo", daí vem a expressão “caiu a ficha” como sinônimo de “entender alguma coisa”. As fichas, no entanto, não só precisavam ser recolhidas constantemente, como aumentavam a necessidade de manutenção dos aparelhos. E pesavam nos bolso e na bolsa, já que eram de metal e mais grossas que moedas comuns.
Foi em busca de melhor custo-benefício e modernização que, ainda em 1992, os cartões telefônicos entraram em cena. Vendidos com 20 a 60 créditos, usavam tecnologia indutiva, onde o telefone gerava uma corrente elétrica que queimava micro fusíveis internos no cartão, reduzindo os créditos a cada minuto de ligação. "A partir de janeiro, os cartões substituirão as fichas nas ligações feitas a partir de telefones públicos em todo o país. Uma experiência já está sendo feira com 400 aparelhos do Rio desde a Eco-92 e, segundo o diretor de operações da Telebrás, Juarez Quadros do Nascimento, está sendo muito aceita", explicava A TARDE, na edição de 10 de novembro daquele ano.
Outra importante inovação, essa na Bahia, veio algum tempo depois, quando a Telebahia lançou o Telefone Virtual, um sistema que se assemelhava ao das secretárias eletrônicas, onde as pessoas ligavam e deixavam um recado. "Depois eu ligo do orelhão daqui mesmo e ouço as mensagens", explicava uma tirinha publicitária em A TARDE, na edição de 5 de janeiros de 1994.

Instagramáveis
Antes das redes sociais, na virada para 1995, os orelhões de Salvador já eram instagramáveis, pois ganharam as populares roupagens em forma de berimbau, coco verde e outros símbolos da cultura local. Com cores vivas que chamavam a atenção de longe, as novas coberturas eram feitas de fibra de vidro moldada em formas de barro. "Instalados desde dezembro nos principais pontos turísticos da cidade, do Abaeté à Igreja do Bonfim, os telefones são uma criação do artista plástico Bel Borba, partindo de uma idéia do Departamento de Marketing da Telebahia. (...) Bel Borba se diz feliz com o impacto positivo causado pelos telefones coloridos", informou A TARDE, na edição de 12 de janeiro de 1995, anunciando a novidade.
Outros municípios baianos também ganharam “roupa nova” para seus orelhões, sempre com um design que representava a identidade da cidade. Ou, quase. Em 1997, a Telebahia deu a Vitória da Conquista um orelhão em forma de arara, "apesar da desaprovação de parte da população, que preferia algo que representasse a cultura da região, a exemplo do que há em Bom Jesus da Lapa, um orelhão em forma do chapéu de romeiro, ou em Itapetinga, onde foi implantado o chapéu de couro", explicava A TARDE, em 22 de julho daquele ano. Apesar das araras atraírem principalmente as crianças, especulava-se em Conquista que as coberturas haviam sido adquiridas no Mato Grosso, onde araras são predominantes, e só instaladas na cidade.
Mesmo quando eram essenciais no dia a dia da população, os orelhões sofriam constantemente com atos de vandalismo e isso agora também compõe a crônica da iminente morte anunciada desses equipamentos, registrada nos jornais e nas monografias de arquitetura ao longo das décadas.
Na Bahia, os anos 1990 representaram o auge dos orelhões. Em 1997, o estado tinha cerca de 15 mil equipamentos instalados, sendo que de janeiro a agosto daquele ano, 19.325 registros de depredações haviam ocorrido. Ou seja, tinha orelhão sendo destruído mal acabava de ser consertado. Quem quebrava os úteis equipamentos nem se dava conta que um dia, orelhão seria apenas um capítulo da história.
RODAPÉ
*Com a colaboração de Tallita Lopes
*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas
*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE
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